CRÔNICAS

CARTA A PEPE CARRERAS

Em: 26 de Fevereiro de 1996
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"Los dos ríos de Granada, uno llanto y otro sangre"
Garcia Lorca - Baladilla de los tres ríos
 
Manaus, 26 de fevereiro de 1996
Prezado tenor José Carreras
Quem redige esta cartinha é um cidadão amazonense, nascido no Beco da Bosta, no bairro de Aparecida, a 800 metros do Teatro Amazonas, provisoriamente exilado no Rio de Janeiro. Não tenho procuração para lhe escrever em nome do povo amazonense, não possuo mandato popular, nem delegação política ou representativa para isso. Faço-o, portanto, em meu próprio nome e talvez expressando sentimentos e ideias de uma minoria inconformada de leitores.
Em nome desta minoria letrada, que se considera crítica e lúcida, quero lhe dar as boas-vindas e lhe desejar sucesso, apesar de toda a polêmica em torno do concerto que será realizado amanhã, tanto no que se refere à qualidade musical, quanto ao pagamento do cachê.
Quanto ao primeiro aspecto, sinceramente não me sinto qualificado para interferir no debate. Vivi os primeiros 18 anos de minha vida ao lado do Teatro Amazonas, mas durante esse período nunca assisti uma ópera. Construíram um teatro, cuja função mais importante até então foi ter servido de depósito de borracha na Segunda Guerra Mundial. Esqueceram de povoá-lo com atores, músicos, cantores. Historicamente, a elite amazonense não foi capaz de elaborar um projeto cultural que estimulasse os valores artísticos locais, populares ou eruditos.
Por isso, meu gosto pela música erudita ficou comprometido, minha educação musical permaneceu nos limites do rico cancioneiro popular de rua. Na infância, ouvi ao vivo Estevão Santos cantando "Zíngara" - uma experiência estética inenarrável, eu lhe asseguro, só comparável com as toadas do bumba-meu-boi do Lauro Chibé. Cresci escutando o Dilson do SAPS cantando "Foi numa noite de luar, que eu conheci...", a Fátima Buchinho entoando fados portugueses e o Carrapeta plantando rosas e amores. Sem contar o liri-lirau das irmãs Feitosa quando atacavam de Kalu. Além dos discos de Ataulfo Alves que a vizinha Leonor colocava em sua vitrola.
Tal formação musical, Pepe Carreras, me permite apreciar o timbre agradável de sua voz e acompanhar com simpatia a sua tentativa de popularizar a música erudita, recuperando o melhor da canção popular. No entanto, é insuficiente para avaliar a crítica especializada do Jornal do Brasil, que considerou o seu novo CD - Pasión - como "deslocado e, sobretudo, cafona", acreditando que se trata de "uma tentativa de marketing de péssimo gosto". Não vou entrar no mérito da qualidade de sua apresentação.
Quanto ao segundo aspecto - o cachê - esse sim queremos discutir. Você ficou irritado com as perguntas de jornalistas brasileiros, em recente entrevista coletiva em Londres, e declarou:
- "Aceito o cachê que o governo do Amazonas acha que pode pagar. Não vou dizer quanto é, porque não creio que esse seja um assunto público".
Ora, tenor! Pera lá! Stop! Is-to-pe, como diria a Lucineide para o Salgadinho na novela "Explode coração". O concerto é público. O teatro é público. A verba que vai lhe pagar de alguma forma é pública, saída dos impostos dos amazonenses, embora se diga o contrário. Qual é o problema de tornar público o cachê? Aliás, o Diário Oficial do Estado do Amazonas já o fez, publicando o contrato da Superintendência Cultural do Amazonas com a Dell'Arte Promoções Artísticas S/C Ltda. O cachê é mesmo de R$ 920.000,00 (novecentos e vinte mil reais). Segundo o telejornal do SBT, soma-se a isto R$ 80.000,00 com despesas de hospedagem, etc e tal, totalizando R$ 1.000.000,00 (hum milhão de reais). Eu disse: HUM MILHÃO DE REAIS.
O povo do Amazonas, através do Governo, está pagando uma fortuna - um milhão de reais - por uma noite de apresentação. Eu disse: UMA NOITE! Independente da qualidade do espetáculo, esse cachê é imoral, ofende a nossa sensibilidade e nos humilha, porque se trata de um dinheiro desviado dos hospitais, das escolas e das obras sociais. Aplicado desta forma, ele semeia morte, fome, doença e miséria para a maioria da população pobre, inundando os rios Negro e Solimões com "choro e sangue", como os dois rios de Granada cantados por Garcia Lorca.
O choro é das mães das crianças, que recentemente morreram como ratas, porque os Pronto-Socorros públicos da cidade não possuem uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), cuja construção está avaliada em R$ 100 mil reais. O Amazonas é, hoje, o campeão de mortalidade infantil no Brasil. São 85 mortes para cada mil crianças nascidas no Estado. O cachê pago a você, Carreras, por uma só noite de apresentação,daria para construir dez - eu disse dez - UTIs e evitar muitas mortes. Portanto, trata-se de um assunto público, sim senhor.
Manaus é a segunda cidade do país em população favelada. Quase 20% de seus habitantes vivem em favelas, em condições de extrema miséria, literalmente afogados na merda que corre em valas a céu aberto, na frente das casas, porque não existe rede de esgoto, nem qualquer tipo de saneamento básico.
Cólera e malária invadem, galopando, área não urbanizada do Zumbi II, onde duas mil pessoas bebem água de cacimba, porque não existe água encanada. No km. 19 da Rodovia AM-10, cerca de 160 catadores de lixo - crianças em sua maioria - "trabalham" no aterro sanitário, disputando o lixo com os urubus. A Sapolândia, onde a Preta é ministra da Eucaristia, está com água poluída pelo pescoço, constituindo-se em foco permanente de doenças. De cada 10 amazonenses, 8 tem algum tipo de doença da pele. O bairro São José I mantém liderança nos casos novos de hanseníase.
Ai vem o governador do Amazonas, Amazonino Mendes, e declara aos jornais que "não se pode relacionar a polêmica do cachê de José Carreras com a área de saúde do Estado", porque - segundo ele - "o dinheiro que vai pagar o Carreras não é público". Ele argumentou (?) ainda que "criança sempre morreu em hospitais. Isto acontece em todo o terceiro mundo". Amazonino é realmente uma figura do terceiro mundo. Quanto cinismo! Quanta insensibilidade! Quanta safadeza! Diga-me, tenor, alguém com esse perfil merece escutar o seu canto lírico?
O empresário Edmar Costa do CIEAM - Centro das Indústrias do Estado do Amazonas - declarou à Agência Estado que a primeira parcela de R$ 460 mil reais já havia sido paga e que os custos seriam divididos entre as 188 empresas associadas, que gozam - digo eu - de incentivos fiscais e são isentas de uma série de impostos.
- Os empresários vão financiar o concerto de Carreras porque o Teatro Amazonas merece - disse Edmar Costa.
Será que a saúde da população pobre do Amazonas - que constitui a mão-de-obra barata do Distrito Industrial - não merece esforço similar?
O Amazonas profundo, José Carreras, estará ausente na apresentação que você fará amanhã. Quem vai ouvi-lo fingirá uma intimidade que não possui com a música erudita. Arrotam caviar, mas o que comem é ova de tambaqui. Lamento informá-lo, caro tenor, que a estética do terceiro-ciclo não diferencia você do seu conterrâneo Júlio Iglesias. É para eles que você vai cantar. Mas quem paga a conta somos nós.
Atenciosamente

Taquiprati José Carreras. Here for you!     .

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1 Comentário(s)

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H.Moreira comentou:
14/04/2016
SUA CRÔNICA É O RETRATO DO BRASIL !!!! A ELITE CANALHA QUE FAZ DA ARTE DEPÓSITO. UMA BELEZA ESSE ARTIGO !!!
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