CRÔNICAS

A AGONIA DA BIBLIOTECA

Em: 19 de Abril de 1996
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O reitor de uma universidade alemã escreveu que se uma bomba destruir o mundo, mas deixar intacta apenas uma biblioteca, será possível reconstruir grande parte da humanidade aniquilada, usando as informações contidas nos livros e nos cérebros dos leitores salvos do extermínio. Ele pensou nesta situação hipotética para poder melhor mostrar a importância vital da biblioteca na preservação e transmissão do patrimônio cultural imaterial.
O que aconteceria se a única biblioteca salva do bombardeio fosse a Biblioteca Pública do Amazonas? Que mundo poderíamos reconstruir? Seríamos capazes de, pelo menos, cultivar mandioca e transformá-la em farinha a partir do acervo dessa instituição? Duvido. De-u-du-ve-i-vi-de-odó. É mais provável que morrêssemos todos de fome.
Vivemos situação muito semelhante àquela imaginada por Malinowski com a comunidade que habitava as Ilhas Trombriand. Lá não havia livros, todo o conhecimento era preservado, com muito sacrifício, na memória dos indivíduos, e transmitido oralmente de uma geração a outra. Se uma epidemia matasse quatro pessoas-chave, que eram os livros vivos da tribo, ninguém seria mais capaz de fazer uma canoa, porque não existiria mais onde buscar a informação para fabricá-la.
Antes de a bomba acabar com o mundo, o Amazonas já destruiu suas bibliotecas. A Biblioteca Pública está agonizando, morrendo. Ela vem sendo sistematicamente pilhada, saqueada, sucateada, sem renovação de seu acero. Fechou o seu Salão de Empréstimos, que fornecia livros de literatura à comunidade escolar. Desativou a sua Biblioteca Infantil desde o ano passado, porque os poucos funcionários existentes, abnegados, não conseguem atender a clientela básica: alunos de 1° e 2° graus.
Aliás, hoje, o maior patrimônio da Biblioteca Pública - me escreve um leitor que a frequenta - são os seus funcionários. Eram 25. Desdes, 14 pertenciam ao Regime Especial e foram dispensados no dia 10 d abril. Outro, antigo e importantíssimo porque conhecia o acervo de jornais antigos, aposentou-se. Sobraram 10 heróis, dos quais apenas quatro são bibliotecários.
Como não existem bibliotecas nas escolas - o que já se constitui um absurdo - a Biblioteca Pública é obrigada a atender quase que exclusivamente ao público escolar. Seus funcionários dedicados atendem em média, diariamente, 400 a 600 alunos no período normal de aulas, subindo para 1.000 em época de prova, o que acaba desviando a instituição de suas funções. Uma biblioteca pública - como seu nome indica - deve estar aberta a todos os públicos de uma determinada coletividade. Se ela se fixar em um segmento, particularizará o atendimento especializando-se nele em detrimento dos demais segmentos.
Por que o Governo do Amazonas trata de uma forma tão mesquinha uma instituição tão essencial para a sobrevivência da sociedade? Por que empresários que faturam tão alto não se sensibilizam com a situação deste nosso patrimônio cultural? Há pouco tempo, els amavam tanto a cultura que foram capazes de bancar um milhão de dólares por uma noite com o tenor José Carreras no Teatro Amazonas. Por que não investir em algo mais sólido, perene e verdadeiro como a biblioteca?
A situação da biblioteca é de tal forma dramática que qualquer ação para salvá-la deve merecer o apoio e o aplauso de todos os amazonenses, deixando de lado divergências políticas, partidárias, ideológicas ou pessoais. A população do Amazonas precisa e merece uma biblioteca pública decente e bibliotecas escolares ativas. É preciso desencadear uma campanha e mobilizar toda a sociedade com esse objetivo. 

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