CRÔNICAS

DONA MARIA NO CÉU

Em: 29 de Julho de 1996
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Um tema de constante interesse da literatura, e por tanto da vida, é a dramática solidão de quem perde um ser querido, depois de um longo convívio durante o qual um passou a ser parte integrante do outro. Quem fica, sente-se como que amputado de um órgão vital, como se tivessem lhe decepado um braço ou uma perna.
 
O escritor espanhol Miguel de Unamuno, no seu romance "Niebla", coloca na boca de um de seus personagens - uma viúva - as seguintes palavras:
 
- Já não posso viver muito tempo, meu filho. Teu pai está me chamando. Talvez, eu faça mais falta a ele do que a ti...
 
Unamuno consegue rimar amor e dor ao relatar a presença da mãe na lembrança do filho: "Sua mãe, sempre de negro, ia e vinha sem fazer barulho, como um passarinho, com um sorriso, que era o poço das lágrimas nos primeiros dias de viuvez".
 
Quatro meses exatos. É muito ou é pouco tempo? Pode ser uma eternidade, se contar os segundos, os minutos, as horas, os dias e as semanas de separação de duas pessoas que um dia trocaram juras de amor, viveram juntas o cotidiano, elaboraram um código comum na difícil arte de comunicação, estreitaram laços e se fundiram um com o outro, neste vale de lágrimas.
 
Os últimos quatro meses devem ter durado um tempo infinito para dona Maria do Céu Sá Peixoto Pinheiro, 68 anos, falecida na quinta-feira passada, dia 25 de julho, na Beneficente Portuguesa, em São Paulo. Nem todos os cuidados e carinhos da família, nem a competência do doutor Zerbine seriam capazes de impedi-la de ir, com o coração palpitando, ao encontro do doutor Geraldo Pinheiro, seu companheiro de meio século, falecido no dia 25 de março. Como se fosse um encontro marcado ali na praça da saudade. Fiel, ela cumpria, dessa forma, talvez seu último compromisso amoroso.
 
Se não cumprisse este pacto, com quem então, o amor? Para quem, doravante, a mesa posta, o café fresco, a camisa limpa e bem passada, os gestos silenciosos de ternura, a troca cúmplice de olhares? Com quem implicar, de modo que valha a pena? De que vale a vida, sem as orações de cada dia, em formas de pequenas zangas, que vão tecendo, elas também, o fio do amor? Onde as birras do cotidiano, sem as quais não há espaço depois para renovar as confissões de amor, outrora sussurradas ao pé-de-ouvido? Como administrar a crisma afetuosa que confirma os votos de batismo do namoro, e sacramentaliza as imemoriáveis reconciliações, com o firme propósito de emenda?
 
Depois da catarata que afetou o doutor Geraldo, dona Maria do Céu passou a ser seus olhos, janelas abertas ao mundo. Para quem agora, ela lerá os jornais, livros e artigos de revistas especializadas? Sinceramente, a vida, sem isso, perdeu a graça.
 
Conheceram-se há mais de cinqüenta anos. Casaram-se. Segundo a professora Vânia Tadros, da Universidade do Amazonas, ambos pertenciam a famílias tradicionais, cuja principal riqueza acumulada era seu capital intelectual. Não faziam parte da elite econômica, pois a escolha feita foi investir esforços na busca do saber. Construíram família sólida. Tiveram onze filhos, muitos dos quais hoje atuando na área da ciência e da filosofia, duplicando assim o patrimônio intelectual herdado.
 
O avô de dona Maria do Céu, desembargador Antônio de Sá Peixoto, nascido no Rio de Janeiro, veio para Manaus em 1869. Nomeado posteriormente juiz federal no Amazonas, casou-se com a professora normalista Eudóxia Sarmento Moreira, de uma família que hoje empresta seus nomes às ruas do centro de Manaus. Seu pai era Emílio Moreira. Seus tios, Guilherme Moreira e Joaquim Sarmento.
 
O velho Sá Peixoto, além de deputado federal, senador, vice-governador, membro do Superior Tribunal de Justiça, foi professor na Faculdade de Direito do Amazonas e do Rio de Janeiro. Fez parte da Comissão de Juristas que elaborou o Código Civil Brasileiro. Entre os filhos de seus dois casamentos estão Abdul Sayol de Sá Peixoto, que em 1968 foi vice-reitor da Universidade do Amazonas, e Arkibal Sá Peixoto, pai de dona Maria do Céu.

Quem a conheceu de perto ressalta seu constante otimismo, seu estilo, seu alto astral, sua capacidade de valorizar os pequenos detalhes do dia-a-dia, de arrancar poesia de pedra. Há dois meses, transportada de avião para São Paulo, numa maca, com a sobrevivência mantida por um fio, aparelhos, tubos, o primeiro comentário - singelo - que fez, ao desembarcar, foi sobre a beleza do por-do-sol que contemplava do avião.
 
Era uma mulher de sua época. Dona de casa, mãe de família, realizou-se na educação de seus onze filhos e no apoio discreto, mas decisivo, ao marido, com aquela heroicidade anônima que caracteriza a sua geração, digna do respeito da mais sectária feminista. Nem por isso descuidou-se de certo refinamento intelectual. Aqueles que conviveram com ela, ressaltam sua inteligência, seu discurso bem articulado, a propriedade das palavras usadas nas conversações sobre os temas mais variados, sem qualquer afetação.

Na verdade, o golpe fatal contra o seu coração foi desferido há quatro meses, e não seriam quatro pontes de safena que iriam fazer recuperar as suas batidas. Conheci-a, apenas através de conversas com dois de seus filhos, com quem fiz amizade nos bancos da universidade. Quando da morte do pai, pelas informações que um deles me proporcionou sobre as reações da mãe, comentei:
 
- Cuidado! Ela vai querer ir atrás dele.
 
O escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez, em seu livro "O Amor nos tempos do Cólera", caracteriza a relação amorosa dos dois personagens centrais - Florentino Ariza e Fermina Daza - que viviam um outono de muita paixão, em plena terceira idade, viajando de barco pelo rio Magdalena, deixando o tempo escoar como dois velhos escaldados pela vida. Eles superaram as armadilhas da paixão, as zombarias das ilusões e as miragens dos desenganos, situando-se muito além do amor. "Pois tinham vivido juntos o suficiente para perceber que o amor era amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte".
 
Dona Maria do Céu, fiel ao seu próprio nome, está lá, onde sempre esteve, onde sempre quis estar: segurando a mão de seu companheiro de todas as horas. Com os dois, vai-se um fragmento da nossa história local, um pedaço dessa Manaus, que já está a nos dizer adeus. À família enlutada, para quem o tempo de quatro meses é muito curto quando se trata da perda de dois entres queridos, os nossos sinceros pêsames.

 

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1 Comentário(s)

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Paulo Bezerra comentou:
05/04/2011
Maria no Céu Maria preta / Maria boa / Maria sempre de bom humor. Imagino Maria entrando no céu: Licença, meu branco! E São Pedro bonachão: - Entra, Maria. Você não precisa pedir licença. PS. Para homenagear D. Maria do Céu me valí do poema de Manuel Bandeira " Irene no Céu".
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