CRÔNICAS

A CEIA DE NATAL

Em: 26 de Dezembro de 1996
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O helicóptero, como um passaralho louco, borboleteava pelos céus de Manaus, em manobras espetaculares. De vez em quando, dava um voo rasante pelo campus da universidade. Cá embaixo, tentava-se adivinhar quem era o passageiro tão importante que, do alto, acenava para a multidão. Uns diziam que era o ministro da Educação, Paulo Renato, que vinha supervisionar o vestibular. Outros juravam que era o próprio presidente da República: o FHC, que vinha pedir votos para a reeleição.

- É o Ronaldinho - gritou Magda, uma torcedora histérica, que havia desmaiado na quarta-feira passada, no momento do gol feito pelo craque contra a seleção da Bósnia.

- Cala a boca, Magda. O Ronaldinho já viajou para Barcelona - consertou um estudante bem informado.

Foi aí, então, que o helicóptero, iluminado como uma árvore de natal, aterrissou. De dentro dele, saiu uma figura espalhafatosa, desembarcando como se estivesse de volta de uma longa viagem espacial. Parecia um astronauta do Careiro - se o Careiro fosse uma base de foguetes - pronto para decolar em direção às crateras de Urucurituba. Levou uma estrondosa vaia, quando foi identificado pela multidão. Magda, frustrada, confirmou triunfante:

Num disse que era o Ronaldinho? 

Era. Efetivamente, era o Ronaldinho. Não o craque, hábil com os pés, que tinha a cara do Cebolinha. Mas o Ronaldinho Lázaro Tiradentes, o jogador ágil com as mãos, o Humphrey Bogart dos pobres. Era a segunda vez que usava helicóptero em suas andanças. A primeira foi há quinze dias para fazer o vestibular na "Universidade Nilton Lins Pê Pê", quando o Alferes humilhou os demais vestibulandos. Agora, ele era o primeiro a chegar para a ceia natalina, organizada por esta coluna.

Ih! Me esqueci de te contar, leitor (a). A coluna "Taqui Pra Ti" convidou todas as personalidades que frequentaram seu espaço neste ano de 1996, para uma festa de confraternização. Na base de "juntar as panelas". Cada um traz um prato diferente, numa quantidade de acordo com sua consciência. O Ronaldinho, com 48 horas de antecipação, veio num helicóptero escandalosamente iluminado, trazendo um - diga-se a verdade - avantajado peru, recheado com carne moída de lebre.

Os outros convidados começaram, paulatinamente, a chegar. Estava toda a fina flor da maloca dos barés: os Lins, Euler Ribeiro, Gilberto Miranda, Pauderney Mandado, Klinger Costa, José Melo, Lupércio Ramos, Cabo Pereira e Omar Abdel Aziz, Eduardo Braga, coronel Danízio, Raimundo Nonato Oliveira, o deputado Nonato Lopes, Robério Braga acompanhado de uma cambada de ressarcidos e tantos outros, cada um trazendo um prato e um presente de amigo oculto.

A fofoca fervilhou na chegada dos Lins, encarregados de trazer o pirarucu-de-casaca para a ceia natalina. Trouxeram, como sempre, 57 bocas: Átila, Belarmino, Ceiça, Cristiane, Cláudia, Naide, Wellington, George, William, Márcio, Francisco da Chagas, Carlos Augusto, Luana, Fátima, enfim todos os aposentados pelo Tribulins. Mas a contribuição que deram, em comida, foi pouca. Não correspondia ao número de bocas. A casaca até que era grande. Batata, batata, batata. Farinha, farinha, farinha. Repolho, repolho, repolho. Banana frita, banana frita, banana frita. Pirarucu, que é bom, necas de pitibiribas. Os Lins, espertalhões, sempre recebendo mais do que dando.

O deputado Euler Ribeiro, responsável pelo bacalhau, também trouxe muitas bocas: todos os seus familiares aposentados pelo Tribunal de Contas dos Municípios. Ele próprio, seu irmão Afrânio, seu filho Eulerzinho Esteves Ribeiro Filho, sua filha Gizella Maia Ribeiro, seu irmão José Menezes Ribeiro, seu genro Marco Aurélio Bolognese, sua secretária Maria D'Assumpção, seu motorista José Pereira. O bacalhau, prá dizer a verdade, estava salgado prá cacete e sua autenticidade era, no mínimo, duvidosa.

Por isso, nem os Lins nem os Ribeiro queriam comer pirarucu ou bacalhau. Avançaram no enorme peru do Alferes, recheado com carne de lebre. Tiveram a maior decepção. O peru era, na verdade, um frango inchado, falso como o papel do diploma da Escola Altair Severiano Nunes. O recheio era de carne de "gato" da Eletronorte.

O omelete não é uma comida natalina típica. Mas foi o prato que o José Melo Merenda dividiu juntamente com o seu primo Manoel Merenda Verissimo, que de quebra trouxe uma sobremesa de fios de ovos comprados com recursos federais da FAE.

O prefeito Eduardo Braga, que não fede nem cheira, preparou com molho de lágrimas o chester, que não é frango nem peru. O Klinger Costa, o grande especialista em presunto, confirmou as críticas do deputado Hélio Bicudo. Foi ele o responsável pelo tender: um presunto desossado na periferia de Manaus, especialmente encomendado para a ceia.

- O Salpicão é comigo mesmo, disse Pauderney Mandado, que ganhou de amigo oculto toneladas de asfalto para usar na estrada de Anamã. O Lupércio, fantasiado de Herodes, veio com um pernil de porco, criado pelas crianças da Escola-Fazenda. O cabo Pereira e o Omar Aziz, bacabeiros, garantiram a farofa, que não alimenta, mas quando a gente come tufa a barriga.

O senador Gilberto Miranda, com os sapatos brilhando, engraxados por Vicente Limongi, forneceu as bebidas para a ceia natalina, tirando de sua adega vinhos de boa safra e champagne francesa, além de sorvete artesanal de cupuaçu preparado por Chiquita, a ex-empregada do senador Caxias. Mas ninguém provou, com medo de ser envenenado.

As frutas regionais, que serviram para a decoração da mesa, foram ofertadas por Berinho Braga, que pediu - e obteve - ressarcimento pela compra delas, faturado na rubrica "ginecologia". A sobremesa - "sonhos de virgem" - foi preparada pela dupla Edson Rita Honorato Bernardino e pelo filho reincidente do Nonato Lopes.

No final da ceia, o Alferes Ronaldo Tiradentes foi o último a sair. De helicóptero. Levando na mão o seu presente de amigo oculto, ofertado por William Lins: um diploma da Escola Altair Severiano Nunes, tão autêntico quanto a prova de química do vestibular na "Nilton Pê Pê Lins". . 

P.S. - Meus pêsames para os Redentoristas, que perderam um padre exemplar. Meus parabens à Arquidiocese de Manaus, que ganhou um - (sem querer, eu ia escrever "puta" bispo, mas mudei de ideia para não chocar as pessoas) grande bispo auxiliar: Dom Jackson Damasceno Rodrigues. Como diz dona Elisa, "ele não dá importância para isso, mas um dia chega a cardeal".

P.S. - Aos leitores fiéis e infiéis desta coluna, desejo um Feliz Natal, com a esperança de que o espírito natalino de paz e solidariedade tome conta do mundo.

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