CRÔNICAS

CARTA AOS DONOS DE JORNAIS

Em: 04 de Fevereiro de 1997
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Rio de Janeiro, 4 de fevereiro de 1997
De: José Ribamar Bessa Freire
Para: Paulo Girardi, Diretor-Presidente do Jornal do Norte
Com cópias para a presidente da Rede Calderaro de Comunicação, Rita Araújo Calderaro, para a diretora responsável do Amazonas em Tempo, Hermengarda Junqueira e para o presidente do SINEJA – Sindicato de Empresas Jornalísticas do Amazonas e presidente do Jornal do Commércio, Guilherme Aluízio de Oliveira Silva.
Caro Paulo Girardi,  
É uma honra participar desta aventura de criar um novo jornal no Amazonas, um espaço onde a informação e a opinião possam fluir com o máximo de liberdade possível. Novo no ramo, você compreendeu rapidamente a importância de construir um jornal plural, onde convivam visões conflitantes e polêmicas. Cada dia, surgem novas dificuldades, novos desafios. Hoje, acrescento mais um, com o seguinte relato.
No dia 19 de janeiro, domingo, às 12:30 horas, fui vítima de um atentado quando lia um jornal em uma fila formada na calçada da Panificação e Confeitaria Beira-Mar, na esquina das ruas Cel. Moreira César com Presidente Backer, no bairro de Icaraí, em Niterói, próximo da minha residência. Um indivíduo musculoso, de cor negra, agrediu-me pelas costas, com um golpe forte na cabeça, fazendo-me desmaiar e ficar desacordado por um curto espaço de tempo.
A agressão produziu algumas lesões corporais sem maior gravidade: um pequeno hematoma no braço esquerdo, uma luxação no dedo médio da mão direita e uma intumescência na cabeça. Segundo algumas testemunhas, que fizeram o retrato falado do agressor, ele fugiu rapidamente num táxi da marca Escort, tomando destino ignorado.
Duas horas depois, dei queixa na 77º Delegacia de Polícia. O Registro de Ocorrência nº 360028 foi feito pelo detetive Jorge Ricardo Cardoso (cuja cópia envio em anexo, depois de apagar o nome e o telefone das testemunhas, por razões óbvias). Através do memorando 0450/77/97, o Delegado Ricardo Franco do Nascimento encaminhou-me ao Instituto Médico Legal, para exame de corpo de delito, o que foi feito.
No momento do registro da queixa, perguntado pelo detetive, informei que não tinha inimigos pessoais. Manifestei a suspeita de que o agressor podia ter sido pago por alguém com raízes em Manaus, que se sentia incomodado com minha atividade jornalística. Esta, nos últimos anos, me rendeu frequentes ameaças, quase sempre anônimas,  por carta, por telefone, através de recados e  até mesmo da tribuna da Câmara Municipal.
No final da semana passada, minha suspeita foi confirmada. Recebi pelo Correio um envelope amarelo tamanho ofício, postado no dia 24 de janeiro na Agência André Araújo, em Manaus, sem qualquer indicação do remetente, mas com o nome e o endereço do destinatário, em letra manuscrita. (Anexo cópia do envelope). Dentro, havia oito fotos coloridas e uma mensagem impressa em papel ofício. (Também, envio cópias em anexo).
As fotos me deixaram muito apreensivo. Para minha surpresa, elas documentaram, em primeiro lugar, o próprio atentado que sofri, com uma sequência de quatro imagens. Na primeira, meio desfocada, estou na fila, lendo o jornal. Na segunda, bem nítida, acabo de levar o soco e estou caindo, o que demonstra a rapidez com que o agressor escapuliu, desaparecendo do campo visual de quem fotografou, antes que eu estivesse completamente no chão. Na terceira, estão me ajudando a levantar. A quarta mostra-me com a mão na cabeça, conversando com testemunhas.
A outra sequência de quatro fotos é também particularmente preocupante e assustadora, porque expõe toda minha fragilidade. Foram tiradas horas antes do atentado e documentam minha volta para casa, depois de uma caminhada matinal. Em todas elas, apareço sempre de costas. Nas duas primeiras estou ainda dentro do parque, andando em direção ao edifício onde moro. Na terceira, atravesso a rua e na quarta, estou entrando na portaria.
A mensagem que acompanha as fotos, impressa numa folha de papel ofício, ameaça: “Esta é a lição número 1. Aguarde a Lição número 2. Ass. O seu Educador”. (Envio em anexo cópia). Diante disso, decidi comunicar à opinião pública os fatos ocorridos, depois de notificar a Polícia, com quem ficaram as fotos originais.
É preciso estar muito confiante na impunidade para mandar espancar alguém em outra cidade, fotografar os seus passos, invadir sua privacidade, documentar a própria agressão e ainda por cima enviar ao agredido, pelo Correio, em envelope manuscrito postado em Manaus, as provas do crime, com ameaça de novos atentados.
Confesso, publicamente, que estou com medo. Em primeiro lugar, medo pelo atentado à minha integridade física. Mas também, medo pelo destino imediato da liberdade de imprensa, seriamente ameaçada, caso esses métodos de banditismo triunfem, emudecendo jornalistas. Os prejuízos para a sociedade amazonense seriam incalculáveis. Basta apenas mencionar que, graças à liberdade de imprensa, foi possível descobrir falcatruas e atos desonestos cometidos em todo o Brasil, denunciá-los, exigir a punição dos responsáveis e, desta forma, melhorar as instituições e o próprio país.
Durante mais de doze anos, desde janeiro de 1984, com algumas breves interrupções,venho publicando uma coluna assinada - às vezes duas - semanalmente, na imprensa de Manaus. Primeiro, no jornal A Crítica, onde fiz sólidas amizades e alguns leitores fiéis. A partir de junho do ano passado, no Jornal do Norte. Eventualmente, o Amazonas em Tempo acolheu-me em suas páginas: artigo sobre a questão indígena (dezembro de 1988), sobre a eleição presidencial (dezembro de 1989), sobre história do Amazonas (novembro de 1992) entre outros.
Encontrei, nesses jornais, espaço para informar e opinar sobre os mais variados temas e fiscalizar as ações do Poder, com uma preocupação prioritária sobre a questão local. Com minha pena, dei uma modesta, mas sincera contribuição às principais lutas da nossa sociedade, em campanhas memoráveis, somando esforços com outros colegas jornalistas para a defesa dos direitos fundamentais e o aperfeiçoamento das instituições democráticas no Amazonas.
Uma releitura das crônicas publicadas nesses doze anos permite avaliar o seu papel fiscalizador em casos que abalaram a nossa sociedade, como o crime do colarinho verde, os ressarcimentos médicos na Câmara de Vereadores, o nepotismo no Tribulins, a ação dos grupos de extermínio, as fraudes eleitorais, a corrupção em diversos escalões do governo, o comportamento antiético de políticos e tantas outras bandeiras levantadas pela imprensa amazonense.
Tentei cumprir com o meu dever, com aquilo que a sociedade pede de mim. traduzindo em palavras escritas o que está engasgado na garganta de muita gente. Informei, opinei, fiscalizei, cobrei, critiquei, enfim, procurei colocar minha capacidade de pensar e de escrever a serviço dos que não têm voz. Isso significou, na prática, denunciar, ironizar, polemizar, brigar, xingar, berrar e até mesmo, errar, mas também compartilhar com os leitores verbos de outras conjugações, como divertir, distrair, entreter, rir de nós mesmos, mas sobretudo de quem detém o  poder.
As críticas, muitas vezes ásperas, nunca atingiram a vida privada de qualquer indivíduo. Sempre foram dirigidas aos homens públicos - políticos, administradores, governantes, artistas, intelectuais - limitando o seu campo ao que é do domínio público na vida de cada um deles. Tanto é verdade que desconheço a maioria das pessoas a quem critico ou elogio. Nunca me fizeram qualquer prejuízo ou favor pessoal.
Quem se sente prejudicado  pela imprensa, deve recorrer ao direito de resposta. Ou buscar o Poder Judiciário, processando os responsáveis por calúnias ou por danos à honra. Quando, em vez disso, escondido no anonimato covarde, apela para o terrorismo, visando emudecer os formadores de opinião, então a barbárie se impõe sobre o mundo civilizado. Nesse caso, quem perde é toda a sociedade: os jornalistas perdem o direito de investigar, os jornais de publicar e divulgar e os leitores, o direito à informação.
Não vou recuar embora esteja apreensivo, intranquilo e com muito medo, Estou disposto a continuar o meu trabalho. No entanto, não tenho vocação para herói ou mártir.  Necessito de garantias mínimas para exercer o meu ofício. Da minha parte, tomei algumas precauções relativas à minha segurança e cuidados para que os responsáveis pela agressão, se reincidirem, não fiquem impunes. Estou certo que os jornais de Manaus e os próprios leitores farão também a sua parte. A liberdade de imprensa, por estar impregnada do interesse público, é um patrimônio coletivo, de todos nós. Cabe agora à sociedade amazonense afirmar que pretende lutar por ela, não permitindo o triunfo do terrorismo.
Com a certeza de poder contar com a solidariedade e o apoio institucional do Jornal do Norte, me coloco à sua disposição.                                    
                                                           Atenciosamente,

                                                   José Ribamar Bessa Freire .

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