CRÔNICAS

DUAS LIÇÕES DE UM DINOSSAURO

Em: 05 de Fevereiro de 1997
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Domingo, 19 de janeiro, meio dia. Espio pela janela: lá fora, no parque, um sol claro de verão, um céu azul de metileno. Preciso cumprir minha obrigação dominical. Saio, sozinho, do edifício onde moro. Caminho uns cinco quarteirões. As ruas estão movimentadas por pernas de moças bonitas. Nem suspeito que estou sendo seguido. Infelizmente, não era por nenhuma delas.
Paro na Padaria Beira-Mar. Lá se vende o melhor frango assado de Niterói. Por isso, a freguesia abunda, sobretudo aos domingos, quando a patroa  quer descansar da cozinha e o salário não permite frequentar restaurante. Ou frango ou macarronada para a classe média cada vez mais enfarofada.
Minha arma para enfrentar filas sempre foi a leitura. Desta vez, carrego comigo a Folha de São Paulo. Enquanto espero, em pé, na calçada da padaria, me desligo do mundo circundante e leio no caderno “Mais”, com exclusividade, a história do amor de Romeu e Julieta, escrita por Ariano Suassuna.  É literatura de cordel pura.
A AGRESSÃO
“Vou contar, neste Romance, / a história de Romeu /. A sua curta existência,/ e tudo o que padeceu./ Foi a história mais tocante, / que a minha pena escreveu”. Estava absorto, mergulhado nessa leitura, quando de repente - plim, plam, plum! - senti como se o teto da marquise desmoronasse sobre minha cabeça. Desabei no chão, desmaiando por alguns segundos. Meu óculos, entortado, caiu para um lado. Quando me levantei, meio zonzo, já havia um grupo de pessoas a meu redor.
Queriam saber se eu estava ferido, se estava sangrando, se havia sido roubado, se estava me sentindo bem, se queria ir para um hospital, enfim, essas coisas. Na hora, como a situação era tensa, nem pensei naquilo que agora sei: minha condição era parecida com a do português da piada, aquele que caiu do quinto andar de um prédio e teve o corpo amortecido por uma árvore. - “O que foi que aconteceu?”, perguntaram-lhe. Levantando-se, ainda atordoado, Manoel diz: - “Não sei. Tou chegando agora”.
Na verdade, também eu acabava de chegar naquele momento. Distraído e depois desacordado, não vi o que aconteceu.  Foi tudo muito rápido. Trabalho de profissional. Retalhos picotados de diversas testemunhas permitiram reconstruir posteriormente a covarde agressão que acabara de sofrer.
O AGRESSOR
Uma senhora idosa reparou a atitude suspeita de um negão musculoso, pinta de leão-de-chácara. Ela viu quando ele deslocou-se dois passos na esquina para observar melhor a fila do frango. Um senhor, detrás de mim, percebeu quando o negão se aproximou e cochichou algo no ouvido do motorista do táxi marca Escort. O táxi avançou alguns metros, o negão veio por trás, sentou a mão de pilão no meu cocoruto, correu, entrou no táxi e fugiu, enquanto eu desmoronava.  
O saldo imediato: um hematoma no braço esquerdo sobre o qual caí, um dedo da mão direita desmentido não-sei-como, um galo na cabeça, muita perplexidade e o carinho de pessoas desconhecidas, mas solidárias. Anotei o nome e o endereço de algumas delas, que se ofereceram para identificar o negão e o taxista.
QUEIXA NA POLÍCIA
Fiquei apreensivo e intranquilo. Depois do almoço fui dar queixa na 77º Delegacia de Polícia. O Delegado Ricardo Franco me encaminha ao Instituto Médico Legal com um memorando, para fazer exame de corpo de delito. Na sala de espera, troco figurinhas com um cara mordido, arranhado, lanhado e roxo de tanta porrada. Ele me confidencia que todo fim de semana leva uma baita surra da ex-mulher. Esse, pelo menos, sabe quem bate nele.
- Não sei quem me agrediu, digo ao detetive Jorge Ricardo, que fez o registro de ocorrência. Vascaíno e portelense, o detetive pergunta se tenho inimigos, se conheço o motivo da agressão e - brincando para desanuviar a tensão - se sou torcedor do Flamengo e da Mangueira, dois motivos que, para ele, justificam uma surra.
Respondo no mesmo tom. Não, não tenho inimigos pessoais. Sou Vasco no Rio e Nacional em Manaus. Minha escola de samba é a Mocidade Independente de Aparecida. Esclareço, já sério, que a mão do negão foi paga por alguém cujas raízes estão em Manaus, onde mantenho uma coluna semanal de denúncia e crítica política. Menciono algumas ameaças precedentes.
AS AMEAÇAS
Já fui ameaçado inúmeras vezes: pessoalmente, por carta, por telefone, através de recados, anonimamente. Certa feita, um vereador ressarcido, da tribuna da Câmara de Manaus, sem procurar se esconder, berrou rouco que ia me dar porrada: tenho a fita gravada com seu pronunciamento.
- Babá, cuidado! Esses caras são bandidos!
Era a voz do Umberto Calderaro, dividido entre o jornalismo combativo que ele admirava e a preocupação com a integridade física do amigo, por quem ele nutria carinho especial.
Foram esses antecedentes que no dia 19 de janeiro, na Delegacia de Policia, me permitiram localizar a origem da agressão. Pensei em denunciar através da coluna, dois dias depois, mas não possuía provas. Por isso, naquele dia, escrevi sobre Tom, um gato vagabundo e mimado, enquanto tomava algumas providências práticas visando minha proteção. Foi ai que chegaram as provas materiais do crime.
AS PROVAS
No final da semana passada, recebi pelo Correio um envelope amarelo tamanho ofício, postado no dia 24 de janeiro na Agência André Araújo, de Manaus. Poderia ter sido enviado do Rio ou de qualquer outra cidade para despistar. No entanto, foi enviado de Manaus para relacionar com a coluna Taqui Pra Ti.  Dentro, havia oito fotos coloridas e um papel branco, onde estava impresso com letra de imprensa: “Esta é a lição número 1. Aguarde a Lição número 2. Ass. O seu Educador”.
Olhando as fotos, fiquei gelado. Havia dois blocos. O primeiro bloco de quatro fotos documentava o atentado. Enquanto alguém havia sido pago para me bater, outra pessoa fora também remunerada para fotografar a agressão. O segundo bloco era de quatro fotos tiradas pelas costas, enquanto eu caminhava em direção a minha casa, com a clara intenção de atemorizar-me.
Pensei que o meu medo, com quem aprendi a conviver, não havia me transformado num covarde. Assino embaixo daquilo que escrevo e publico. Quem se escondeu detrás do anonimato para encomendar e pagar a agressão, não tem coragem para assumi-la.

Lembrei da charge publicada na capa de uma revista francesa: um enorme dinossauro vigiava uma caverna, onde dois seres humanos, pequenos e frágeis, tremiam de medo. Um deles falou assim para o outro: “Por incrível que pareça, esse monstrengo aí fora, grande e forte, está condenado a desaparecer. E nós, seres humanos, vamos nos perpetuar”. Historicamente, leitor (a), esses métodos, da violência bruta, covarde e anônima, se extinguirão como os dinossauros. Nós, seres humanos, nos perpetuaremos. Aconteça o que acontecer..

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