CRÔNICAS

QUEM FOI QUE MANDOU?

Em: 11 de Fevereiro de 1997
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Atos terroristas deixam sequelas indeléveis, quase invisíveis, não apenas na vítima direta, mas no seu círculo familiar mais próximo. Como recuperar o sono perdido, recolher a lágrima chorada, regularizar o metabolismo e recompor o estado emocional daqueles seres amados que sofrem sem ter nada a ver com o peixe? Quem, um dia, pagará por isso? 
Dona Elisa atravessou a longa noite de terça para quarta-feira passada ouvindo, de hora em hora, as badaladas do relógio, intercaladas pela tosse do Aguimar, na casa vizinha. Agoniada, não dormiu um minuto sequer. Rezou. Rezou muito. Sabe aqueles enormes rosários de parede, com contas do tamanho de caroço de tucumã? Pois é! Ela tem um. Parece que nessa madrugada, sua função não foi apenas decorativa.
No dia seguinte, suas filhas - as “irmãs Cajazeiras” - estavam aflitas. Não era pra menos. Cercaram a mãe de todos os cuidados. Uma delas, mais vulnerável, me cutuca carinhosamente, sem censura:
- Não é hora de parar de escrever? A mamãe tá com 80 anos, não vai aguentar essa pressão toda.  
“O covarde que mandou me agredir, certamente não tem mãe” - eu penso. Inquieto, telefono para dona Elisa. Um pequeno “trote” pode desdramatizar a situação, diminuindo a tensão. Mudo de voz. Adoto pronúncia de bandido. Imito o sotaque falado na cidade de Luz ou em Dores do Indaiá, no interior de Minas Gerais, misturado com o dialeto caboco de Eirunepé, para parecer mais convincente:
- Alô! Dona Elisa? Sabe quem está falando? Fui eu que mandei o negão dar um soco...
- Ah, meu filho, estava agora mesmo rezando por você.
Diante de tal resposta, pensei: “o trote foi descoberto”. Crente que havia sido identificado, retomei minha própria voz, indagando por sua saúde. Aí sim, ela se surpreendeu:
- José? É você, meu filho?
Agora, quem se surpreendeu fui eu:
- Como? A senhora não sabia? Quem foi, então, que a senhora chamou de “meu filho” agorinha?  Tá rezando por quem?
Ela explicou que a expressão “meu filho” é uma forma de falar. Confessou: “Estou mesmo rezando pelos mandantes do atentado. Eles vão precisar de muita oração. Mas só poderão ser beneficiados com essas preces se a Polícia descobrir quem são eles”. Esperta, a dona Elisa. Tomara que Deus entre na dela.
As investigações do atentado e das ameaças que sofri estão sendo feitas pela Polícia Estadual do Rio de Janeiro. Alguns parlamentares do Amazonas solicitaram a interferência da Polícia Federal. Dona Elisa transferiu o caso para a esfera celestial. Com a mesma naturalidade de um advogado que faz uma petição ao juiz, ela diz:
”Entreguei o caso a Nossa Senhora. Pedi a ela para mostrar logo os mandantes, para a gente não ficar fazendo juízo de um ou de outro. Não é nem para tomar vingança. É para saber quem são, para poder rezar por eles e para que paguem pelo crime que cometeram”.
Ela me dá a maior força, com uma determinação de kamikaze: “Não fique com medo, José. Não se preocupe comigo. Não pare de escrever. Faça o que é correto. Se eles matarem você, sei que vou logo atrás. Quem crê na vida eterna, não teme a morte”.
Ela disse isso assim mesmo. Sem sacanagem. Um frio passou pela minha espinha. Nada contra a vida eterna, muito pelo contrário, acontece que queria curtir ainda um pouco mais essa vida terrestre, provisória, aqui neste vale de lágrimas. De onde ela tira tanta força e coragem?
Da sua fé, com certeza. Mas, desta vez, também da opinião pública: “Na primeira noite, não dormi. No outro dia, quando vi a repercussão fiquei tranquila. Não consegui nem cozinhar direito, porque o telefone tocou o dia inteiro. Meu filho, toda Manaus está contra a sujeira que fizeram com você”.
Uma torcida não leva seu time prá frente? Leva sim. Leitores também podem fortalecer quem escreve. Foi o que aconteceu. A solidariedade de setores expressivos da sociedade amazonense - parlamentares, políticos, colegas jornalistas, professores, ex-alunos, donas de casa, igreja, universidade, sindicatos - injetou “um vigor novo e forte” nesta coluna. Agradeço, de coração, a todos.
De repente, me senti como aquele garoto que, agredido no meio da rua, vai chamar seu irmão mais velho e mais forte pra dar porrada no agressor. Em quatro dias, recebi pessoalmente mais de 150 telefonemas interurbanos de Manaus, sem contar os recados enviados através de cada uma das irmãs Cajazeiras e da estepe de jararaca. O primeiro deles, ainda na terça-feira de manhã, foi de um amigo fiel: “Estou limpando a espingarda”, ele falou, no sentido metafórico, é claro.
Enquanto os amigos limpavam a espingarda, o governador Amazonino Mendes dava uma declaração muito estranha ao Amazonas em Tempo, cuja lógica não resiste ao primeiro piparote. Começou fazendo uma avaliação correta deste colunista: “Sempre o considerei inócuo e incapaz de fazer algum mal”. Certo. Certo. Muito obrigado pela consideração.  Favor não esquecer de avisar isso aos seus secretários e ao negão mão de pilão.

Depois, jurando que não lê esta coluna, afirmou: “Ao que consta, ele agride muita gente, gratuitamente, daí vai ser difícil para ele saber quem lhe deu o troco”. Epa! Epa! Pera lá mermão! Se sou inócuo, como posso agredir muita gente? O governador, antecipando-se às investigações, já concluiu que vai ser difícil encontrar os mandantes. Usou o termo “troco”, justificando a porrada que me deram. Desde já, faço minhas as palavras da jornalista Elizabeth Azize, em seu depoimento ao Forum pela Ética na Política: “Tudo o que acontecer comigo será de responsabilidade do sr. Governador do Estado, do Sr. Secretário de Segurança e do Comandante da Polícia Militar”..

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