CRÔNICAS

O CONVITE DO GOVERNADOR

Em: 13 de Fevereiro de 1997
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O governador Amazonino Mendes, em entrevista ao “Amazonas em Tempo”, na semana passada, falou sobre o atentado e as ameaças que sofri. Reproduzo aqui, entre aspas, suas quatro frases, emprenhadas de significado. Submeto-as à inteligência do leitor, junto com minha apreciação sobre elas:
 1. “Não leio o que esse jornalista escreve, mas ao que consta ele agride muita gente, gratuitamente, daí vai ser difícil para ele saber quem lhe deu o troco”.
Esta frase do governador, sinceramente, assustou-me mais do que o soco do negão ou as fotos e ameaças anônimas que recebi, porque é uma clara incitação à violência por parte de quem deveria censurá-la.
O papel de um governador, como autoridade máxima do Estado, é garantir a manutenção da ordem. Seu discurso deve, pelo menos, condenar com firmeza a violência cometida contra qualquer cidadão, independente de suas convicções políticas.
O governador foi eleito para defender o estado de direito. Devia publicamente comprometer-se com ele, tomando providências para a identificação e punição dos responsáveis que transgrediram a lei. Qualquer autoridade decente agiria desta forma.
Em vez disso, o que faz o governador Amazonino Mendes? Mostra-se complacente com a impunidade. Apressadamente, antes de qualquer sindicância, antecipa-se às investigações e conclui, de cara, que vai ser difícil encontrar os mandantes. Como é que ele sabe disso, se a polícia ainda não se pronunciou? Assim, ele desmoraliza as instituições nas quais se apoia a sociedade civil.
O governador argumenta que eu agredi antes, gratuitamente, um montão de gente. Daí, levei o “troco” merecido. Desta forma, ele justifica a porrada que me deram, insinuando que a violência praticada contra mim foi, na realidade, um ato de “legítima defesa”.
Existe uma confusão conceitual deliberada. O governador, mesmo se não lê o que escrevo, tem o direito de chamar de agressão as críticas que faço aos corruptos. O que ele não pode é equipará-las à truculência física cometida pelas costas contra um cidadão desarmado e indefeso.
Não me escondo no anonimato. Assino embaixo do que faço. Minha atividade é legal. Como chamar de “troco” o ato ilegal de um bandido profissional pago por alguém que não mostra a cara? O troco, no mínimo, teria de ser dado na mesma moeda: a palavra. Cada vez que alguém me critica (ou “agride”) por escrito, publico na íntegra. Isso faz parte do jogo democrático. O resto é puro banditismo.
2. “É óbvio que nem de leve me passaria mandar bater nele. Teria outros desafetos mais importantes e agressivos para merecer um eventual desejo de vingança. Mas isso não faz meu gênero”.
Uma vez mais o governador antecipa-se, avexadinho, a uma denúncia que (ainda) não foi feita. Quem disse que o governador mandou me bater? Ninguém. Ora, por que então defender-se de uma acusação inexistente? Se o que ele afirma é mesmo tão óbvio, não precisava explicitá-lo. É redundante. Se sente necessidade de proclamá-lo, então não é tão óbvio assim. Como diria o saudoso senador Fábio Lucena, citando provérbio latino, “quis bene olet malet olet”, ou seja, quem se perfuma é porque exala mau cheiro.
3.”Ele não me deve nada. Sempre o considerei inócuo e incapaz de fazer algum mal. Ele não tem credibilidade”.
O governador não foi eleito para ser júri de credibilidade de ninguém. Não tem legitimidade nem moral para isso. Quem pode afirmar se um jornalista tem ou não credibilidade são os seus leitores. Posto que - segundo confessa - não lê o que escrevo, desautorizou-se ele próprio a opinar sobre a matéria.
Das outras duas afirmações, ambas são corretas, embora a segunda seja contraditória. É correta porque efetivamente sou inócuo, incapaz de fazer algum mal. Espero que o negão mão de pilão tome conhecimento dessa afirmação do governador. Mas é incoerente com a afirmação anterior. Se sou inócuo, como ele diz, como posso ao mesmo tempo agredir gratuitamente tanta gente, como ele também diz?
Uma amiga querida escreveu-me bela carta de solidariedade, afirmando que o vocábulo “inócuo” tem um som tão rimbombante e imponente, que bem poderia ser um título honorífico. Ficaria bastante charmoso começar uma sessão solene assim: “Com a palavra o inócuo professor Ribamar Bessa”.
4.”Isso está me cheirando ao Plano Cohen”.
O Plano Cohen foi uma “armação”. O governador sugere aqui que cometi um atentado contra mim mesmo. Disparate semelhante foi usado no passado contra Mário Frota, Praciano e outros. O leitor que conclua sobre a credibilidade do faro e do nariz do governador.
A operação intelectual confusa do cidadão Amazonino está atrapalhando o discurso de quem, como governador, deveria se comportar como um estadista. Suas declarações são um claro convite à violência. Só podem ser entendidas no contexto da sua prática política, que se encaixa com as denúncias feitas pela ex-deputada Beth Azize no Forum pela Ética na Política da OAB:
“Implantou-se em nossa terra o terror e a impunidade. Os órgãos policiais hoje existem em nosso Estado não para proteger os cidadãos, mas para dar cobertura a comportamentos de certos integrantes do grupo político do Governador, característico de gangues organizadas, com o objetivo de intimidar todos aqueles que contrariem os interesses desse grupo. A organização do Estado hoje é uma organização marginal para proteger marginais”.

P.S. - Agradeço as centenas de manifestações de carinho e solidariedade de leitores e amigos, que nos dão força para continuar na luta..

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