CRÔNICAS

VAI TE QUEIXAR AO BISPO

Em: 11 de Março de 1997
Tags:
Visualizações: 2045
Meu cunhado George Nakamura é surdo como uma porta. Em compensação, tem uma visão de águia. Já eu, escuto tudo, mas sou cegueta. De longe, não enxergo patavina. Nós dois assistimos, neste domingo, a sagração episcopal de Dom Jacson Damasceno Rodrigues, bispo auxiliar de Manaus. Empoleirados nos fundos do Studio 5, fizemos uma dobradinha. Ele me informava quem fazia o quê no palco. Em troca, eu lhe gritava ao ouvido o que estavam falando. Dessa forma, juntos, vimos e ouvimos tudo.
- Cunhado, que vultos são esses que estão se mexendo lá embaixo? Estão todos de branco, parecem almas penadas.
- É o novo bispo que está entrando, juntamente com Dom Luís Soares Vieira, dom Alfredo, o núncio, outros bispos e todo o clero da cidade, disse ele corrigindo a minha visão deformada.
A cerimônia começou. O Studio 5 estava entupido até o tucupi. A multidão se comprimia, alegre e festiva, acenando com as mãos, cantando, num júbilo só. Havia gente de todos os bairros e paróquias de Manaus, desde o classe-média bem vestido até pessoas simples e humildes da periferia. A sagração de Dom Jacson foi feita, na realidade, pelo povão.
- Cunhado, você por acaso está vendo lá no palco um indivíduo arrogante, sem sólida formação teológica, que não conhece a diocese de Manaus?
- Não. Não. Acho que o padre Paulo Pinto ainda não chegou.
- Me diga, então, quem é aquele que está deitado no chão?
- Não tem nada a ver. É o filho de um balconista da rua Marquês de Santa Cruz. Dá pra distinguir muito bem: é um cara simples, doce, de fino trato, comprometido com os lascados, que abomina a pompa. Ih, ele começou a falar nesse momento, mas não escuto nada. Agora é sua vez de me ajudar: o que é que ele está dizendo?
A solenidade prosseguia, com a participação entusiasmada da multidão. Veio a imposição de mãos, a entrega do anel, do báculo e da mitra. A Santa Madre Igreja deu, sem dúvida alguma, uma demonstração de força, vigor e vitalidade na sagração do bispo-auxiliar de Manaus. Durante a sua fala, coloquei as duas mãos em forma de concha no ouvido do meu cunhado e gritei:
- O bispo tá dizendo que vai evangelizar os pobres, anunciar a boa nova para quem só tem tido más notícias: desemprego, violência policial, escolas sem professores e livros, hospitais sem médicos e remédios, cozinha sem prato e sem comida. Os pobres precisam ter fé e, entre outras coisas, acreditar neles mesmos como agentes de transformação.
- O quê? Fale mais alto!
- Ele tá dizendo também que vai deixar-se evangelizar pelos pobres, que vai deixar-se contaminar pela perspectiva do humilde, do pequeno, do que sofre, do excluído, do perseguido, do encarcerado e até mesmo daquele que diz: "pobre não me sinto".
- O que é que tem o Padre Paulo Pinto?
Aproveito a surdez do meu cunhado - ou sua enorme capacidade para enxergar as coisas? - para tocar num assunto delicado. Há um mês, a talentosa repórter de A Crítica, Ana Célia Ossame, conseguiu arrancar uma entrevista com um padre de Manaus. Escondido no anonimato, ele abriu o bico. Estava envenenado. Disse horrores. Foi extremamente deselegante. Pecou.
O padre anônimo acha que Jacson Damasceno não podia ser escolhido bispo de Manaus, porque não conhece a diocese, não é doutor em teologia - cursou apenas filosofia e teologia no Cenesc - é antipático e grosseiro e blá-blá-blá, blé-blé-blé, bli-bli-bli. Acrescentou ainda: blo-bló-bló e blu-blu-blu, complementando com três pios: piu-piu-piu.
Dom Jacson nasceu em Manaus. Foi acólito no bairro de São Geraldo, aprendeu a ajudar missa recebendo cascudos e carinhos do falecido padre Geraldinho Pigmeu. Estudou filosofia e teologia no Cenesc. Ordenou-se padre em 1978. Foi vigário em Coari. Vice-Provincial dos Redentoristas, trabalhou na Paróquia de Aparecida. Durante cinco anos, foi pároco no bairro da Redenção, em Manaus, vivendo lá, como qualquer favelado. Conhece, portanto, as entranhas da cidade. Como acusá-lo de ser um paraquedista?
No dia da sagração, no meio da multidão, havia muita gente indignada com o padre que deu essa entrevista. O povo aponta logo: "Foi o Paulo Pinto, lá do Parque Dez".
Quem é Paulo Pinto no jogo do bicho? É um ex-capelão militar, advogado, responsável pela Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, do Parque Dez, cujo nome estaria na lista tríplice enviada para a Congregação dos Bispos, em Roma, como pré-candidato a bispo. Dentre os três, o Papa preferiu - ainda bem! - o padre Jacson. O Pinto ficou de fora.
A inveja é mesmo uma merda, leitor (a). Um estava louco para ser bispo. O outro não fazia a menor questão. Aí, o Papa, inspirado certamente - não temos a menor dúvida - pelo Divino Espírito Santo, escolheu o segundo. O primeiro, com o coração minado pela inveja, disse que a escolha não era certa e questionou, desta forma, não só o Papa, mas o próprio Espírito Santo, cujo símbolo é uma pomba. Felizmente, no duelo de aves, entre a pomba e o pinto, ganhou a pomba.
A nomeação de Dom Luiz Soares Vieira já havia dado um novo alento para as pastorais, sinalizando por parte da hierarquia da igreja uma preocupação com as questões sociais e o sofrimento do povo. A escolha de Dom Jacson veio apenas confirmar essa preocupação. Agora, já temos dois bispos a quem nos queixar.
P.S. Passa a mão aqui no meu braço, leitora. Vê só como fico arrepiadinho. Escuta comigo o Panis Angelicus. Quem está cantando? São os monges beneditinos? Não. É a voz da Cleomar Feitosa, que arrebentou na missa concelebrada por Dom Jacson, domingo à noite, na igreja de Aparecida.

.

Comente esta crônica



Serviço integrado ao Gravatar.com para exibir sua foto (avatar).

Nenhum Comentário