CRÔNICAS

O BÊ-A-BÁ DE PAULO FREIRE

Em: 06 de Maio de 1997
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Um velho índio peruano, de uma comunidade encravada num pequeno vale da cordilheira dos Andes, participava na década de 1970 de uma das atividades da Operação ALFIN - Alfabetização Integral. Sua turma, que aprendia as primeiras letras, foi visitada por Paulo Freire, cujo método havia sido adotado no Peru. Estabeleceu-se entre o educador brasileiro e o índio andino o seguinte diálogo relatado na Folha de São Paulo pelo jornalista João Batista Natali:
- O que é uma montanha, perguntou Paulo Freire
- Uma montanha é um homem que dá nome a uma montanha, respondeu-lhe o índio.
- E se o homem não estiver lá? - insistiu o professor.
- Então não será uma montanha, porque não haverá ninguém para chamá-la pelo nome.
Segundo Paulo Freire, a lição contida nesta resposta foi uma síntese de tudo aquilo que ele havia aprendido nos livros, em muitos anos de biblioteca. A sua concepção humanista e o seu conhecimento foram construídos desta forma: aprendendo com a sabedoria popular. A montanha, a ciência, a economia - nada disto tem qualquer valor, “se o homem não estiver lá”.
Os jornais de todo o Brasil abriram espaço para noticiar a morte, neste final de semana, do grande educador. Registraram a opinião de diferentes personalidades sobre o significado desta perda para o País, inclusive o comovido discurso do nosso poeta Thiago de Mello à beira do túmulo, interpretando o sentimento coletivo da pátria enlutada.
Amigo de Paulo Freire, com quem tinha afinidades ideológicas e políticas, Thiago dedicou-lhe o poema “Canção para os fonemas da alegria”, escrito na primavera de 1964, em Santiago do Chile e publicado em seu livro “Faz Escuro, mas eu canto”.
Com o golpe militar de 1º de abril de 1964, Paulo Freire, que havia sido coordenador do Programa Nacional de Alfabetização do Governo deposto de João Goulart, estava sendo perseguido e caçado por haver cometido o crime de querer conscientizar os analfabetos: “Nos anos 60 fui considerado um inimigo de Deus e da pátria, um bandido terrível”, comentou, em recente entrevista, pouco antes de morrer.
Os militares invadiram a sede do Movimento de Cultura Popular do Recife, queimaram os livros de sua biblioteca, incluindo os livros de Monteiro Lobato e os clássicos da historiografia da coleção ‘Brasiliana’. Prenderam Paulo Freire e muitos alfabetizadores em todo o País. Acabaram, desta forma, com a experiência de alfabetização que havia durado apenas três anos.
Preso durante 75 dias num quartel de Recife, Paulo Freire foi transferido para o Rio, ali pediu asilo à Embaixada da Bolívia.  Obteve salvo conduto para La Paz, mas quando lá chegou um segundo golpe, desta vez dos generais bolivianos, o obrigou a refugiar-se no Chile, onde permaneceu de 1964 a 1969, transferindo-se depois para os Estados Unidos e a Suíça, havendo assessorado vários países latino-americanos e africanos.
É natural, portanto, que Thiago de Mello fique sinceramente comovido com a morte de Paulo Freire, da mesma forma que Dona Ruth Cardoso, Fernando Henrique, José Serra, Almino Affonso e tantos outros  que compartilharam com ele o exílio, apesar dos caminhos políticos diferentes que seguiram.após a anistia.
O que parece estranho é o depoimento do senador paraense Jarbas Passarinho (PPB), que era chefe do Estado-Maior do Comando Militar da Amazônia no início da década de 60 e teve participação ativa no golpe militar de 64. Passarinho, que foi ministro de vários governos militares, declarou:
“Paulo Freire está para o Brasil assim como Jean Piaget está para o mundo”.
Como não sabemos o que Jarbas Passarinho pensa de Piaget, fica sempre a dúvida: será mesmo um elogio? Em caso afirmativo, o ex-ministro de Educação da ditadura militar, que assinou o AI-5, poderia nos explicar por que, então, o governo militar prendeu e deportou Paulo Freire e interrompeu o processo de alfabetização que ele vinha realizando? Ou será puro oportunismo do senador paraense, querendo pegar carona no caixão alheio?
Por respeito à trajetória de vida de Paulo Freire, preso, perseguido, exilado e humilhado pelos militares, e cujo trabalho foi considerado criminoso pela ditadura militar, não podemos deixar que o coronel Jarbas Passarinho, agora, tente fazer média sobre o seu cadáver e cometa uma agressão contra a memória de todos nós.   
Sem guardar mágoa ou rancor, o próprio Paulo Freire não perdeu, no entanto, a perspectiva crítica em relação à ditadura.  Em entrevista concedida em maio de 1994, o educador declarou: “O Mobral - Movimento Brasileiro de Alfabetização - implantado durante o regime militar, nasceu para negar meu método, para silenciar meu discurso”.

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