CRÔNICAS

O PAPA É BICHA?

Em: 27 de Maio de 1997
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"Agência Folha - Mas os deputados disseram que venderam o voto, as fitas são verdadeiras.
Amazonino - Assim eu vou dizer que o papa é bicha. Me diz uma coisa, o papa é bicha? Me diz uma coisa, agora honestamente, um idiota qualquer diz que o papa é bicha. Quer dizer que o papa é bicha?" (Folha de São Paulo, sábado, 24 de maio de 1997, p.10)
Num "diálogo" nervoso, na sexta-feira passada, com o repórter André Mugiatti, o governador Amazonino Mendes, agressivo, baixou o nível e vomitou vários palavrões. Definiu autoritariamente o que os jornais devem e não devem publicar. Condenou a imprensa que reproduziu o conteúdo da fita gravada, onde ele é acusado de corrupto. Comparou-a com outra gravação, hipotética, feita por ele próprio, Amazonino, ou por "um idiota qualquer", dizendo que "o papa é bicha". Concluiu que as duas gravações eram igualmente absurdas e por isso nenhuma delas devia ser divulgada.
A conclusão foi errada. A comparação, muito infeliz. Com ela, o governador tripudia sobre a comunidade gay, que não merece ser fuzilada por sua opção sexual. Ofende a religiosidade do povo amazonense, para quem o papa é símbolo de santidade. Desrespeita as leis da lógica e do bem-pensar e comete vários equívocos sobre os quais devemos refletir. Vem comigo, leitor (a), vamos juntos analisar o seu discurso e descobrir porque ele é furado.
1. O primeiro equívoco de Amazonino é, de saída, uma questão de princípio. Ele coloca no mesmo saco, como crimes passíveis de punição, duas coisas que são conceitualmente diferentes: uma é moral, a outra, legal. Sua ferramenta para pensar não é o conceito, mas o pré-conceito. Por isso, considera o homossexualismo como um delito penal equivalente ao roubo e à corrupção. Não distingue entre "correr na floresta" e "passar os cinco dedos". Para ele, um machão ladrão é superior a uma bicha honrada. Desta forma, criminaliza a homossexualidade e contribui para fortalecer preconceitos e discriminações.
2. Depois de reduzir o homossexual a sub-nitrato de pó-de-peido, Amazonino cola nele a imagem do papa, numa operação desrespeitosa, similar à daquele pastor que chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Através de um estranho e tortuoso silogismo, o governador ligou a sua própria honradez à virilidade papal. Temos duas gravações, com duas acusações: na primeira, Amazonino é ladrão, na segunda o papa é bicha. Ou as duas são verdadeiras, ou as duas são falsas. Ou se publica as duas, ou nenhuma. Olhem só o perigo: o papa só é macho, se o Amazonino for honrado. Francamente, o Vaticano devia processar o governador do Amazonas por calúnia e difamação.
3. O terceiro equívoco de Amazonino foi colocar no mesmo plano dois tipos de comportamento que estão em níveis diferentes. A conduta sexual de um indivíduo pertence ao domínio do privado, enquanto o seu comportamento político está na esfera do público. O que cada um faz com sua sexualidade é assunto íntimo, pessoal. O que uma autoridade faz com os recursos públicos é assunto de todos, coletivo. Amazonino, que não vê fronteiras entre o público e o privado quando se trata de dinheiro, confunde a alcova com o palanque.
4. Os fatos ocorridos no palanque devem ser publicado nos jornais. Os da alcova, não. A comparação do governador, portanto, não se sustenta. Peca na sua própria base. Não se pode aceitá-la, a não ser para fazer um exercício analítico e descobrir mais adiante que ela está toda viciada, porque não leva em consideração o passado e a história de quem acusa e de quem está sendo acusado, tanto no exemplo hipotético como no caso real.
5. No exemplo hipotético, o gravador registra uma frase: "o papa é bicha". Quem falou não foi um cardeal que perambula pelos corredores do Vaticano. Foi o Amazonino "ou um idiota qualquer", que nem conhece o papa. Trata-se, evidentemente, de uma afirmação sem qualquer legitimidade. No entanto, no meu modesto entender - ouviu, André Mugiatti? - ela deve ser publicada assim mesmo. Embora sem qualquer informação válida sobre o papa, a frase contém valor informativo sobre o caráter do autor da "denúncia", confirmando aos leitores que se trata, realmente, de "um idiota qualquer".
6. No exemplo real, a coisa é diferente. Quem acusou Amazonino de comprar votos não foram seus adversários ou pessoas desconhecidas. Não. A denúncia involuntária foi feita por seus próprios cupinchas, pelos "cardeais" Ronivon e João Maia, que conviviam com o governador no mesmo partido e privavam de sua amizade. Eles confessaram, sem querer, que venderam seus votos por 200 mil reais para o Amazonino. São réus confessos, que nem mesmo o PFL (viche! viche!) quis continuar mantendo em suas fileiras. Foram expulsos do partido que puniu espertamente quem vendeu, mas se omitiu covardemente quanto a quem comprou. Se não tem culpa no cartório, Amazonino devia processá-los, em vez de convencê-los - por quais meios? - a renunciar.
7. Nos dois exemplos, tanto na gravação real como na fictícia, a diferença não se limita apenas aos acusadores, mas também aos acusados. Na vida pregressa de Sua Santidade, não consta nenhum indício que possa reforçar a frase de Amazonino ou de "um idiota qualquer". Já o mesmo não podemos dizer do governador, cujos antecedentes evidenciam uma certa - digamos assim - negligência com o trato do dinheiro público.
8. Em conclusão, das duas gravações, apenas uma - a fictícia - que diz respeito ao papa, é absurda pelas razões acima expostas. A outra - a gravação real - referente à compra de votos realizada por Amazonino, tem base e fundamento e deve ser apurada ou para inocentar o governador - e neste caso indicar então quem comprou os votos - ou para puni-lo pelo ato de corrupção se for comprovado efetivamente seu envolvimento.
O próprio Amazonino e seus acólitos, no entanto, estão tentando por todos os meios evitar a instauração da CPI, o que nos permite desconfiar de que estão mesmo querendo esconder alguma coisa. O monoglota Ronaldo Tiradentes declarou aos jornais locais que o governador considerava o "assunto encerrado". Como diria Hebe Camargo, rilhando os dentes: - que gracinha!!! Encerrado como, se a CPI ainda nem foi aberta!
O presidente da Assembleia, o Lupércio declarou:
- "Pela pureza da minha alma, eu nem sabia que se comprava votos".
Quem confia na pureza da alma do Lupércio? Robério Braga acha que trata-se de "mais uma campanha orquestrada contra o Amazonas". Que vergonha, meu Deus! O festival de baboseiras tomou conta dos puxa-sacos que foram ao aeroporto aplaudir o governador. Pendurados em cabides de emprego, na realidade não defendem Amazonino, mas os seus próprios privilégios. Digam o que disserem, o povo amazonense está convencido de que o papa não é bicha, mas muita gente acredita que Amazonino comprou os votos. Só uma CPI pode comprovar a inocência ou a culpa do governador.

P.S.- Os deputados Luiz Fernando Nicolau e Alzira Ewerton estão de parabéns por haverem votado a favor da CPI..

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