CRÔNICAS

BELÃO, O GATO BILINGUE

Em: 01 de Fevereiro de 2009
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Ignoro, ainda, se o prefeito de Manaus já inaugurou o seu gabinete-ônibus, de onde iria governar a cidade - uma das milhares de promessas feitas. Onde estão as creches que prometeu construir? Pois é, rapaz! Como escrever nessas condições? Sequer posso comentar as fofocas das novelas, porque sem ver televisão não sei se o filho do Tony Ramos encontrou os caminhos da Índia, digo, do Rio de Janeiro, e se ele vai ou não peitar seu pai. Não vi mais a Juliana Paes dançando samba em Calcutá.    

Pois bem, estava o Belão, morto de fome, se espreguiçando ao sol, coçando a pança, quando passou diante dele um ratinho. Aí, o gato, que via tudo com o rabo do olho, deu um pulo para agarrá-lo. Mas o ratinho, magro e ágil, foi mais rápido. Fugiu, entrando no tronco de uma árvore por um pequeno buraco. O gato Belão, gordão demais para passar por aquela abertura, ficou lá fora, miando, ameaçador: - Miaaaau, miaaauuu!  O que ele queria dizer? Em língua gatês, o miado dizia: - Uma hora você vai ter de sair. Aí, eu te pego.

De lá de dentro, não dava pra ver nada. Depois de certo tempo, o rato não ouviu mais os miados: - Será que o gato foi mesmo embora, ou parou de miar só pra me enganar?

No que ele saiu, o gato Belão enfiou as unhas em suas carnes. Estraçalhou o ratinho. Depois de comê-lo, enquanto lambia os ossos, comentou em voz alta: - É impressionante! Hoje, quem não for bilíngüe, morre de fome. Ainda bem que eu falo também o cachorrês.   

Depois de ouvir, muitas vezes, essa história, os professores guarani decidiram contá-la, usando o teatro de bonecos. No entanto, apresentaram a versão deles, que tem um final diferente e revela muito bem a alma guarani.

Quando ouviu aquele sotaque arretado, o rato bilíngüe pensou: Esse latido é de alguém que não sabe pronunciar direito. O cachorrês não é sua língua materna. É sua segunda língua. Não é o cachorro. É o gato, que está tentando falar cachorrês pra me enganar. Dessa forma, o ratinho descobriu o truque do gato e não caiu na armadilha. Ele se salvou, dizendo lá dentro do buraco: - “É impressionante! Hoje, quem não for bilíngüe, é devorado pelo inimigo”.   

MITCHI E TCHICÜRE

Pensei em contar aqui, na aldeia Tikuna, a versão meio pornô dessa história inventada pelos guarani. Nela, o rato não é rato, é rata. Não contei, porque havia senhoras no recinto. Por isso, não posso contá-la aqui também, porque algumas crianças freqüentam essa página do Diário do Amazonas. Fica pra próxima vez.

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