CRÔNICAS

II. O APRENDIZ DE JORNALISTA. SUA IDENTIDADE, POR FAVOR

Em: 01 de Maio de 2000
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Afinal, que lições um estudante amazonense precisava aprender, na década de 60, no Rio, para tornar-se um jornalista bem sucedido? Vem comigo, leitor (a), vamos entrar na Faculdade, para observar como é que funcionava essa engrenagem por dentro.
Estamos no primeiro dia de aula do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A matéria: Técnica de Redação. O professor: Danton Jobim, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Os alunos: trinta calouros, que passaram no vestibular de 1966. Começa a chamada. Lá pelo meio, ouço meu nome. Igual que os outros, respondo em voz alta:
 - Presente!
Subitamente, como se estivesse combinado, a sala inteira explode numa gargalhada instantânea, barulhenta, escandalosa. Todo mundo olha pra mim. Não sei o que está acontecendo. Para despistar, rio também, sem dar bandeira, inspirado em uma lição de dona Elisa: meu filho, bodó sabido nunca sai do buraco quando o rio está secando.
Mais tarde, depois que o rio encheu, perguntei discretamente a uma colega o motivo da gargalhada. Com uma simpatia real que não conseguia, no entanto, esconder o preconceito etnocêntrico, ela esclareceu: - A forma certa de falar é prêsente, com o "e" fechado. Quem fala présente, com o "e" aberto, é pau-de-arara.
Naquela época, cada biboca do Brasil tinha uma forma própria de falar, muito mais marcada do que hoje: o inho paraense, o chiado carioca, o cantadinho nordestino, o "r" caipira paulista e por aí vai. A televisão ainda não havia começado a passar o trator sobre as diferenças dialetais. Então, quando qualquer brasileiro abria a boca, exibia - além dos dentes - o fígado, as tripas, os intestinos, seus segredos mais íntimos e os recantos mais profundos de sua alma. Taí meu amigo Domingos Sávio, irmão do ex-senador João Bosco, que não me deixa mentir.(Ou deixa?). Durante congresso de jornalistas cristãos, no Rio, em 1967, ele foi apresentado ao Zé Sá, do Jornal do Brasil.
Domingos (apertando a mão do Zé Sá): - Prazerzão!

Zé Sá (retribuindo): - Ah! Meu camaradinha, pelo jeitão você é de Manaussch. Adivinhei?
Não deu outra. A precisão da pontaria foi assustadora. Bastou uma única palavra para o Domingos ser fichado. Alguém pode objetar que foi fácil acertar: prazerzão só consta mesmo no dicionário baré. Mas olhem só o que aconteceu na despedida:
Bom, eu vou chegando, queridão - disse Domingos. Era mais do que um adeus. Era uma radiografia, um mapa lingüístico. Zé Sá, bruxo, disparou:
Vai. Vai chegando que o bairro de Aparecida te espera. Vai pra Vila Rezende, no Plano Inclinado, ali onde o bonde faz a curva. Você não pode negar que é de lá.
Não, não podia mesmo. Não tinha como! Aparecida era o último reduto no mundo onde as pessoas ainda diziam que estavam chegando, justamente quando estavam indo embora. Por outro lado, só na Vila Rezende existia essa mania de chamar os outros superlativamente de "queridão", em lugar de "meu caboco", "mano velho" ou simplesmente "maninho", como em outros bairros.
Mas aonde é que eu estava mesmo? Ah, na gargalhada da sala de aula. Pois é. Não havia sido um riso cruel, ferino, hostil, contra mim. Não, não. Não se tratava de uma agressão pessoal: os colegas me olhavam com tanta simpatia, que até me elegeram presidente do Centro Acadêmico.
Não era de mim, indivíduo, que estavam rindo. Era muito mais profundo. A gozação estava dirigida ao mapa do Amazonas que eu trazia tatuado indelevelmente no meu sotaque. Nesse sentido, doeu: mais do que do "eu", estavam rindo do "nós".
O modelo de jornalista deixou de ser o playboy despolitizado do cinema americano para encarnar-se no intelectual crítico, independente, sem qualquer vinculação com o Poder.
O que estava em jogo era, portanto, minha identidade coletiva, de amazonense, repentinamente revelada, numa situação de confronto. Enquanto vivia em Manaus, não sabia o tamanho da nossa diferença com o resto do Brasil, porque não havia o que comparar: eu e todos em volta éramos "nós". Ao mudar para o Rio, deixei de ser "nós", para ser "o outro". Foi preciso ultrapassar o portão de embarque de um aeroporto com o pornográfico nome de Ponta Pelada para descobrir que existia outras possibilidades de ser brasileiro, cada uma com seu jeito próprio de falar, rir, vestir, comer, dançar, cantar, lembrar, pensar, namorar, casar, ter filhos, morrer e animar velório com café e bolacha.
Aí, duas lições contraditórias foram ensinadas. Uma, oficial, onde aprendíamos que essas diferentes formas de ser brasileiro são equivalentes e igualmente válidas. Não é, pois, correto escolher uma delas como superior, apresentando-a como modelo a ser imitado pelo resto do País, discriminando as demais. Todas elas faziam parte do rico patrimônio cultural e sua existência favorecia o diálogo, a troca, o respeito mútuo. A outra lição, fora dos livros, queria que "uma certa forma de falar" fosse "a forma certa de falar", eliminando as diferenças.
Essa lição extra-classe, não aprendi. Nessa matéria, fui reprovado. Renegar as origens? "Nem morta, filha!" como diria Etelvina, a nossa santa baré, defendendo a sua virgindade. Por causa disso, a santa foi assassinada. E eu ganhei o apelido de Amazonense, assim, seco, sozinho, sem um prenome para enfeitá-lo, tipo "Zé Carioca" ou "Renato Gaúcho". Bastava gritar: Amazonense"! - Ops! Era comigo mesmo - eu virava a cabeça para atender o chamado.
Uma lição - essa sim - aprendi: um jornalista bem informado pode falar com a vogal fechada ou aberta, tanto faz, desde que escreva de forma clara, enxuta, agradável. Ora, é justamente aqui que o fiofó da cotia começa a assoviar. O Curso de Jornalismo tentava nos ensinar a nadar, sem piscina, no asfalto. Na época, não havia jornal-laboratório, nem sala de redação, sequer máquina de escrever. Fotografia, por exemplo, era ensinada sem máquina, sem filme, só na base do papo, saliva e giz. Havia, em compensação, o essencial: o tutano e a experiência dos professores, quase todos eles jornalistas atuantes, além de um ativismo político febril.
Vem comigo, leitor, vamos sair da sala de aula. Vamos ver, agora, a engrenagem lá de fora. Olha só aquela barricada erguida em torno da Faculdade Nacional de Filosofia - a velha FNFi - que abriga o curso de jornalismo. Estás vendo as passeatas estudantis, as assembleias, as reuniões, os discursos, as leituras clandestinas, as panfletagens, as faixas, os cartazes, as pichações, a porrada da polícia, o gás lacrimogêneo, as prisões?
Essa agitação toda, embora deixasse intranquilo o coração de tantas mães, teve papel importante na formação dos profissionais da nossa geração. O modelo de jornalista deixou de ser o playboy despolitizado do cinema americano para encarnar-se no intelectual crítico, independente, sem qualquer vinculação com o Poder. Ninguém, em 1966, se enquadrava melhor neste perfil que o cronista Stanislaw Ponte Preta, o Lalau. Ele passou a ser, como veremos no próximo capítulo, o nosso guru.
 

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