CRÔNICAS

A SALSICHA DE PARINTINS

Em: 11 de Março de 2001 Visualizações: 2470

."A melhor chalchicha de Parintins!"

Vavá escreveu esta frase, com tinta vermelha, na sua carrocinha de cachorro quente, e foi dar ponto em frente ao curral do boi 'Garantido'. Conseguiu defender seu pirão. Mas aí, quando nasceu seu primeiro filho, procurou atrair também a torcida do 'Caprichoso', pintando a chalchicha de azul. Com isso, garantiu o leite da criança. No entanto, cada ano sua prole aumentava. Como em Parintins só tem dois bois, as vacas são magras e urubu está entrando em turbina de avião, Vavá mudou-se de mala e cuia para Manaus, em busca de novas cores e novos mercados.

Foi assim, aliás, que Colombo descobriu a América.

Lá vai ele, navegando diariamente pelos bairros populares de Manaus, pilotando, suado, sua carrocinha entulhada de salsichas, procurando estimular aquilo que os economistas definem como 'demanda reprimida'. Os seus fregueses nem desconfiam que Vavá, o humilde vendedor de roti-dogue, chama-se Wagner Dias, é secretário municipal e recebe mensalmente um polpudo salário, conforme consta na folha de pagamento da Prefeitura de Parintins.

- Égua, por que então ele se mata vendendo cachorro-quente em Manaus?

Ora, ingênuo leitor, a explicação é simples. Durante quatro anos, Wagner Dias, o Vavá, vendedor de cachorro-quente, foi efetivamente secretário, só que ele não sabia. O ex-prefeito Heraldo Maia criou - imagine só! - uma Secretaria Municipal para Assuntos Estratégicos em Manaus, nomeando como seu titular o nosso Vavá, que era, na realidade, um "laranja". Quem recebia e usufruía o salário dele era o ex-vereador Carlos Emilio. Só agora, o Ministério Público descobriu que a melhor chalchicha de Parintins não era aquela que Vavá vendia, mas a que Carlos Emilio comia.

OS COMEDORES DE SALSICHA

Era aí onde eu queria chegar: o Amazonas está entupigaitado de comedores de chalchicha, circulando pelos corredores dos tribunais, dos foruns, do palácio do governo, da assembleia legislativa, das prefeituras e das câmaras municipais. Alguns transgridem abertamente a lei, cometendo o crime de peculato, como parece ser o caso citado de Parintins. Outros comem quieto, de forma imoral, embora legal. Nos dois casos, pertencem a famílias ou "panelas" que se julgam donas do aparelho de estado e praticam o nepotismo, como se fosse uma boa ação e um direito adquirido.

Para não comprometer o Berinho Braga, vamos falar em parábola. Supunhetamos que o papai-aqui seja - que Deus me livre! - o chefe da Divisão de Estatística Aplicada da Secretaria de Fazenda, onde existe uma vaga de assessor de enxugador de gelo. O "Pão Molhado", meu sobrinho predileto, é fonoaudiólogo e está desempregado. Nada impede que um fonoaudiólogo enxugue gelo. Como legalmente não posso contratá-lo pela SEFAZ, faço-o através da Associação dos Amigos Fazendários, criada expressamente para essa finalidade. Baixo uma portaria, nomeando-o para o cargo. Perante a família e os amigos, fiz um ato bom.

E os outros? Acontece que fora da panelinha existe muita gente também competente, que está precisando e gostaria de ter uma chance para concorrer ao cargo. Um ou outro pode enxugar gelo melhor que o meu sobrinho (eu duvido, eu duvido; vocês, leitores, se conhecessem o 'Pão Molhado', duvidariam comigo). De qualquer forma, a modernidade exige que se faça um concurso, uma seleção, com uma banca isenta, de fora, da qual eu não posso fazer parte (porque sou tio) e nenhum daqueles leitores que duvidaram. No final, deve ser contratado o mais capaz e o mais competente.

Se eu quiser ajudar o "Pão Molhado", devo fazê-lo com dinheiro do meu bolso e não com recursos públicos. Aí sim, sou bonzinho. Em caso contrário, sou um tremendo pilantra.

Os cientistas sociais da Universidade do Amazonas deviam pesquisar como algumas famílias tomaram de assalto o aparelho de estado baré, privatizando-o, e colocando-o a serviço dos seus interesses particulares. Estão lá, encarrapichados, há várias gerações, distribuindo sinecuras e prebendas, mais vorazes do que a impingem na bunda do compadre Zé Coió. O pior é que mesmo quem está de fora considera normal e, às vezes, até desejável, esse tipo de relação.

Neste momento, existe uma disputa acirrada, porque os comedores de salsicha casaram, tiveram filhos, sobrinhos, netos, ampliaram o círculo de amigos e agora a salsicha não chega para todos eles. Daí que os comedores de salsicha estão lutando para dividir o Amazonas. O projeto de lei original é do senador de Roraima, Mozarildo Cavalcanti (PFL- viche! viche!), um homem que odeia índios e adora salsichas. Felizmente, o senador Jefferson Peres (PDT), que respeita os índios e odeia salsichas, apresentou um projeto substitutivo, apontando em outra direção.

A ideia é dividir o Amazonas para poder multiplicar os cargos no aparelho de estado. São três territórios federais: Solimões, Rio Negro e Juruá, cada um com governador, secretários, deputados federais, assembleia, tribunais de contas, secretarias de assuntos estratégicos, associações de amigos de num-sei-o-que-lá e coisa e tal e pererê-pão-duro. É tanta chalchicha que dá para fazer um chucrute arretado.

O JURUANINO

Pensando bem, essa divisão, feita para arrumar a vida dos comedores de salsicha, pode servir aos interesses do povo amazonense, porque dessa forma deportamos uns-e-outros para os territórios recém-criados. Além disso, tem neguinho, nascido em Eirunepé, que vai ser obrigado a mudar o nome para Juruanino. Imbuído desse espírito cívico, o Instituto de Pesquisa "Data-Taqui" decidiu fazer uma consulta prévia entre seus leitores, para saber quem deve ser o governador de cada um desses territórios. Escolha com consciência, enviando seu voto para o nosso e-mail. No próximo domingo, anunciaremos o resultado.

A coluna apresenta dois candidatos a governador de cada território, mas você, (e) leitor, é soberano para indicar um terceiro, se achar mais conveniente. Existem dois fortes candidatos para governador do Solimões: Lupércio Ramos e Belarmino Lins. Para governar o Juruá, cuja capital é Eirunepé, indicamos os respeitáveis nomes do José Melo Merenda e Euler Ribeiro.

Finalmente, para governar o Rio Negro estão no páreo a dobradinha puxa-puxa: Robério Braga e - como é mesmo o nome daquele menino que tem nome de restaurante que serve o melhor jaraqui de Manaus? Ah, Galo Carijó. (O Eduardo Braga esqueceu de dizer que os tucumãs que o Cabo Pereira levava para o Amazonino, às 5:00 horas da manhã, eram os mesmos que havia recebido do Carijó, às 4:00 horas da madrugada. O insuportável é que, às 3:00 horas, havia alguém que abastecia o Carijó. O mundo está perdido).

Como em toda eleição, algumas regras devem ser observadas. Cada eleitor pode votar três vezes, escolhendo apenas um nome para cada território. O presidente da Comissão Eleitoral, escaldado com o mau exemplo do ACM no Senado, garante manter o sigilo do voto. Cada leitor, se quiser, pode apresentar uma justificativa de porque escolheu esse ou aquele nome. Os casos omissos serão decididos pela Comissão Eleitoral, absolutamente isenta, presidida por esse colunista e secretariada pelo "Pão Molhado", nomeado ad hoc.

P.S.- Recebi, até ontem, 38 cartas, relacionadas à crônica de domingo. Uma delas informa que o ex-Tribulins é agora Tribubraga, porque seu presidente é o João Braga, que é fiscalizado por sua filha Glauciete, chefe da Auditoria Interna, assessorada por um cacetau de bragas. Na SUHAB, tem outro caminhão de Braga, cujo motorista é o Braguinha, filho do Bragão, presidente do TCE. Na ESPEA, tem a Justina Braga e etcetera e tal. A coluna agradece as informações e promete que vai checá-las.

Três leitoras discordaram da crônica. A primeira, não posso falar, por razões pessoais e afetivas. As outras duas me convenceram de que errei. A leitora Elisângela Nogueira Rodrigues, ex-aluna da Faculdade de Direito, ficou indignada porque considera que desrespeitei o Lourenço Braga. Outra leitora, juíza de direito de uma vara do Juizado Especial Criminal de Manaus, está convencida de que fui injusto com o Lourenço. Os argumentos que elas apresentaram - ele foi um excelente professor - me derrubaram. Concordei, porque se alguém esculhambasse com o Zequinha Braga, que foi meu professor de português no IEA, eu ficaria zangado. É verdade que não escrevi que eles eram maus professores - o Zequinha é excelente - mas que gostavam de um carguinho. E eles gostam. Como gostam! De qualquer forma, peço publicamente desculpas a Vossa Pai-d'eguança. Confio na sua generosidade, no seu senso de humor, assegurando-lhe que nada tenho de pessoal contra ele. A briga é por princípios. O que a gente quer é aperfeiçoar as instituições, não é mesmo?

 

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