CRÔNICAS

O REITOR PAIDEGUINHA

Em: 01 de Abril de 2001
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Desencantado com a humanidade, Deus resolveu destruir o planeta terra e arrasar tudo, com um castigo exemplar: "Não ficará pedra sobre pedra". Desesperados, alguns homens de bem imploraram: "Não faça isso, Excelência. Dê alguma chance para nós". Misericordioso, Deus topou: "Tá bom! Escolham uma instituição - mas apenas uma - que eu a preservarei, com tudo o que existe dentro dela. O resto, vou detonar". Os homens se reuniram para deliberar: qual instituição devia escapar do extermínio?

"A igreja", diziam alguns. "O parlamento", reclamavam outros. As opiniões conflitantes cobriam um leque de sugestões: o shopping, a fábrica e o teatro; a escola, a televisão e a plantação; o hospital, o tribunal e o jornal; a banca de tacacá e o curral de boi bumbá; o quartel e até o motel. No final, porém, depois de prolongada discussão, todos concordaram em assinar a seguinte mensagem: "Excelência, salve a universidade", que foi logo enviada para céu@zipmail.com.sky".

Os homens foram espertos. Eles descobriram que, preservando a universidade, podiam salvar a humanidade e o planeta inteiro, porque entre todas as instituições ela é a única capaz de reconstruir as demais. Com o conhecimento existente em suas bibliotecas e produzido em seus laboratórios e com a experiência de seus pesquisadores, professores, alunos e funcionários, é possível recriar o mundo destruído: maternidade, religião, lei, usina, roça, jardim, poesia, música, tacacá, doutor Contente, sorvete de cupuaçu e bumbódromo. A recíproca não é verdadeira.

Deus apreciou a inteligência humana, acatou o pedido, mas impôs condições: caberia ao diabo definir qual universidade devia sobreviver, podendo o homem vetar duas vezes. "O Centro Universitário Nilton Lins", gritou o capiroto, lambendo os beiços, porque foi nessa taberna que ele comprou seu diploma de bacharel em armação de ciladas. Vetado. "Então, a Uni-Braga", insistiu o capeta que, disfarçado com o nome de Tinhoso Braga, havia abocanhado uma função gratificada na nova universidade. Vetado. Foi aí, então, que ele anunciou a sua terceira opção.

DE CÓCORAS
Alguns preferiam a USP, a Sorbonne ou a Universidade de Oxford. Mas o diabo escolheu a Universidade do Amazonas (UA). Agora, é dela que depende a nossa salvação e a reconstrução da Amazônia. Durante três gestões - Roberto Vieira, Marcus Barros e Nelson Fraije - a UA avançou, conquistando um lugar no cenário nacional. Nos últimos quatro anos, porém, na administração do reitor Walmir Albuquerque, ela regrediu. Resta saber que mundinho pequenininho e mesquinho podemos construir com a universidadezinha do Walmirzinho.

Albuquerque, codinome Walmirzinho, realizou a pior gestão da história da UA, levando-a para o buraco. Instituiu o ensino pago na pós-graduação, colocou o curso de arte nos porões da universidade, deixou laboratórios sem manutenção, sucateou as bibliotecas, criou um quadro docente rotativo com contratos temporais de professores, chamou a polícia contra os alunos que montaram serviço de xerox e, marqueteiro, plantou placas no campus contando lorotas. Enfim, de magnífico, não tem nada. Não chega sequer a paideguança. É um reitorzinho paideguinha.

Há vários domingos que quero compartilhar contigo, leitor (a), essa preocupação que me rói as entranhas. Dentro de oito dias, haverá eleição para reitor da UA. Três chapas se inscreveram com candidatos a reitor e vice-reitor: Luis Monjeló e Neila Falcone Bonfim, Hidembergue Frota e Brusce Osborne e - cai prá trás! - Walmirzinho e Atlas Bacellar. Não adianta bocejar de tédio, porque o que acontecer lá dentro vai interferir aqui fora, na tua vida e na de teus filhos, mesmo que não tenhas qualquer ligação direta com a instituição.

A candidatura Walmirzinho já seria indecente, mesmo que ele tivesse realizado uma excelente administração, o que não ocorreu. É ilegítima porque ele é, simultaneamente, árbitro e candidato, ou seja como juiz apita o penalti que ele mesmo vai bater, como jogador. Agarra-se ao cargo com a voracidade de um cachorro vadio que não larga o osso, o que lembra Sarney caindo aos pedaços, mas lutando por mais um ano de mandato. Joga na lata do lixo, sem qualquer escrúpulo, o princípio da rotatividade no poder, que é um dos mais sagrados da democracia.

Confesso que morri de vergonha durante a abertura do XXIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, no auditório Nina Lins, em setembro do ano passado, quando vi o Walmirzinho discursar, de cócoras, leitor (a), psicologicamente de cócoras, puxando o saco do Nilton Lins, do Amazonino Mendes e até mesmo da empresa que doou cafezinho para os participantes do evento. Tive saudades do nosso querido Roberto Vieira, da postura altaneira do Marcus Barros e do turco Nelson Fraije, que injetou sangue na UA.

A única imagem que me ocorre é essa: com Walmirzinho, a UA ficou anêmica, de cócoras, bebendo água podre como os alunos dos cursos de PFDs de Parintins. O Hidembergue, eu não conheço, mas o vice que ele escolheu ou lhe impuseram, o Bruce Osborne, é um alpinista social, que gosta de oprimir o pequeno funcionário e o aluno indefeso e de bajular, com excessivos rapapés, seus superiores. Colocá-lo no lugar de Walmirzinho seria como trocar meia dúzia por seis.

Diante desse quadro, a chapa Luis Monjeló-Neyla Falcone Bonfim já seria a esperança, independente de suas qualidades. Felizmente, elas existem. Monjeló, professor da UA desde 1974, é doutor em zootecnia e mestre em genética e biologia molecular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Neyla cursou medicina na UA, fez especialização em anatomia e residência em patologia e medicina legal. Ambos sabem qual o mundo que a Universidade do Amazonas vai recriar, se ela for salva da destruição e da ira divina.

É muita falta de imaginação: duas chapas formadas só por marmanjos barbados, numa universidade onde pululam mulheres competentes! Será que eles estão querendo enviar um recado claro de discriminação em relação à condição feminina? Não é mera coincidência que a outra chapa seja formada por uma mulher, profissional de reconhecida competência. Quem souber ler, entenderá a mensagem.
MINIVESTIBULAR
De qualquer forma, a coluna Taqui Pra Ti, mesmo simpatizando com uma das chapas, decidiu realizar hoje a primeira fase do mini-vestibular para reitor, com cinco perguntas objetivas, cada uma valendo 20 pontos As três chapas tiveram duas horas para responder as seguintes questões:
1. "Insípido(a), incolor e inodoro(a)". Essas são as características:
a) da água; b) do álcool; c) do éter; d) do Cabo Pereira.
2 A lei da impenetrabilidade da matéria diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Exceto:
a) se são dois gases fétidos; b) se são dois Bragas; c) se são dois líquidos; d) não há exceção
3. O principal inibidor do desenvolvimento da célula (social) localiza-se no:
a) DNA; b) RNA; c) PFL; d) ATP
4. Foram vencedores do Prêmio Nobel de Física nos anos de 1929/32/33/84, respectivamente:
a) Louis DeBroglie, Heisenberg, Dirac e Van der Meer; b) Luis Monjeló, Hidembergue, Dibanda e Valmir; c) Louis Vuiton, Iceberg, Didimocó e Vantuir; d) Luis Biton, Gutemberg, Dile e Varcily.
5. O nome da personagem de Camila Pitanga em Porto dos Milagres é:
a) Lívia; b) Esmeralda; c) Maria Leontina; d) Augusta Proença.

Conferindo com o gabarito, Walmirzinho e Hidembergue zeraram. Monjeló e Neyla obtiveram 80 pontos, errando apenas a última questão, porque devido à campanha eleitoral não tiveram tempo de acompanhar a novela.
Se você tem perguntas para a segunda fase do vestibular para reitor que será realizado no próximo domingo, envie-as para o nosso banco de provas através do site http://www.taquiprati.com.br Hoje, aproveite para parabenizar o nosso grande escritor Áureo Nonato, autor de "Os Bucheiros" e "Porto das Catraias", que completa 80 anos.

 

 

 

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