CRÔNICAS

DOIS ESCRIBAS E UM DESTINO

Em: 22 de Abril de 2001
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Parece título de filme dos anos cinqüenta, da matinê de domingo, no Politheama. Mas os dois escribas existem mesmo. Serjão é pastor evangélico; Serginho, professor de inglês na Universidade do Amazonas. Ambos mantém correspondência com esta coluna, via internet, enviando-nos seus escritos. Portanto, além de leitores, são também escritores. Dos bons. Conheço o Serjão, só através daquilo que ele escreve. O Serginho, desde que nasceu. Gostaria de apresentar um ao outro e os dois a você, leitor (a).
O Serjão, paranaense, há mais de 26 anos se picou de Maringá. Mora em Manaus, onde pastoreia almas, dá aulas de teologia, escreve livros religiosos, trabalha como técnico eletrônico, monta e conserta computadores, de vez em quando cria softwares e, nas horas vagas, escreve crônicas, exercitando seu humor. "Não tenho curso superior. Se eu for preso, bulhufas de cela especial. Me jogam numa comum mesmo, em companhia de um baita negão". Seu nome completo: Sérgio Aparecido Dias.
O Serginho, amazonense, em 1970, com dois anos de idade, foi mascote do Fast, o time do seu coração. Era Deus no céu e Piola no campo. Hoje, é capaz de ensinar inglês instrumental para deputados, contendo expressões usadas por Shakespeare, como: "shit", "fuck you!", "son of bitch". No momento, está concluindo seu doutorado em lingüística na Universidade de Campinas. Neto da dona Elisa, Sérgio Freire de Souza também escreve crônicas, as duas últimas caindo de pau no deputado Artur Neto.
As Anacrônicas
O Serjão tem um livro inédito, intitulado "As anacrônicas", um conjunto de textos irônicos e mordazes, comentando notícias dos jornais. "O primo do Zé Bundão" é uma gozação com o poder municipal, simbolizado por um vereador. "Desgraçando o Tio Sam" discute declarações do Menen, ex-presidente da Argentina. Lembra muito o texto alegre e sacana do Simão Pessoa. Taí, o Serjão é um Simão que reza. Olhem só um pequena amostra:
- "Nosotros queremos tener una relación carnal con los Estados Unidos!"
"Quase caí da poltrona e por pouco não engoli o meu sanduíche, tamanho foi o susto. E não me assustei sozinho, os repórteres também ficaram estupefactos com o inusitado da declaração. Todos ficaram apatetados, com cara de besta, sem entender direito as intenções do presidente argentino. Aproveitando-se do estatelamento da imprensa, Menen entrou na limusine e escafedeu-se. Saindo do torpor inicial e já me refazendo do susto, raciocinei:
- "Papagaio! Se os Estados Unidos estão lá na parte Norte da terra e a Argentina se encontra no Sul, quem está se ferrando nessa "relação carnal"? Égua do cara, meu!!!" Fiquei pensando com os meus zíperes (minha esposa trocou os botões das minhas roupas por zíperes), se por acaso o Brasil também resolvesse manter "relações carnais" com os Estados Unidos ou com qualquer outro país do hemisfério norte! De quem seria a vantagem, se nós estamos cá embaixo e eles lá em cima? Isso me preocupou e tirou o meu sono. E foi numa dessas madrugadas insones que, preocupado e meditativo, lembrei-me da história do Zé. Na fazenda do interior, durante o jantar, a menina volta-se para a mãe e pergunta inocentemente:
- " Manhêêê! Quem pega filho é quem fica por baixo ou é quem fica por cima?"
- " Claro que é quem fica por baixo, sua besta!!!"
Aí a garota, toda radiante e com um sorriso maroto, grita bem alto:
- " Ah! Ah! Ah! Desgracei o Zé!!!"
Na crônica "A lógica do absurdo", Serjão se diverte com o projeto real de um deputado, noticiado pela Agência Estado, em agosto de 1997, regulamentando a quantidade de azeitonas dentro dos pastéis vendidos nas lanchonetes. Depois de analisar as motivações do parlamentar, Serjão propôs uma emenda delirante, estabelecendo diferença de preços em pastéis com e sem caroços, com uma rigorosa vigilância nas pastelarias feita por um exército de fiscais.
Um recado para Arthur
O outro Sérgio - o Serginho - é menos brincalhão e mais corrosivo. Ele escreveu duas crônicas - "O Bobo e o Rei" e "Artur Neto e o efeito de Münchhausen" - que refletem o que está na cabeça de muitos leitores, entre os quais dois pesquisadores do INPA, desencantados com Artur pela sua incondicionalidade a FHC. Infelizmente, limitações de espaço me obrigam a decepar as duas crônicas, para compartilhar com os leitores fragmentos de cada uma. Ei-las:
"Longe de Manaus, minha leitura dos jornais se dá via internet. Então, espantei-me com as pretensões do deputado Artur Virgílio Neto, lidas aqui na tela do meu computador: ele quer ser presidente. Depois de vários re-loads na tela do browser para ver se não era brincadeira de algum vírus sacana pró-Amazonino, de esfregar os olhos para limpar aquilo que poderia ser produto do lusco-fusco matinal, a página parecia realmente trazer mesmo o conteúdo lido".
"O deputado Artur Neto continua sustentando sua vontade de ser presidente. E eu continuo tentado escrever sobre o assunto. Admiro sinceramente a determinação de Artur. Até já votei nele, porque - diferentemente dele - não tinha e nem tenho o dom nem a pretensão de prever o futuro. Pena que, para mim, ele esteja do lado errado".
Serginho desconstrói a fala do deputado, com a ajuda da Análise do Discurso. Escreve com a lucidez e a sinceridade de um Jefferson Peres, mas sem as responsabilidades partidárias do senador. Recomendo que Artur Neto, cuja trajetória despertou tantas esperanças no passado, faça uma leitura atenta do que o seu ex-eleitor confesso escreveu, indignado:
"Artur é leal a FHC como um pitbull raivoso, chegando às vezes às raias da humilhação pessoal para defendê-lo, o que para muitos é uma virtude (não para mim). É feio, muito feio, servir claramente de bucha de canhão do Governo Federal quando esse se encontra acuado, o que tem sido freqüente. É feio "colocar virtudes a serviço dos vícios", citando Tomas de Aquino, de quem tanto gosta. E esse governo que está aí é viciado. Viciado em uma política social excludente, em uma educação numérica e utilitarista a laBanco Mundial, em uma política de segurança nula, em um programa de governo que vê o desemprego como estrutural, em uma política de saúde na qual quem não tem plano privado dança e quem tem, chora. É um governinho viciado em uma previdência que não toma providências, a não ser querer cobrar impostos dos aposentados, querendo estender a eles a humilhação já sofrida pelos servidores ativos.
Os dois Sérgios gostam de escrever e exercitam esse gosto com muita fluência verbal, mas com estilos diferentes. Espero que o destino dos dois seja um só: ocupar espaço em algum jornal de Manaus para que possam ser lidos sem mutilações, fertilizando o debate sobre a nossa condição e divertindo-nos um pouco.
Esta coluna tem recebido crônicas escritas por vários leitores, de diferentes horizontes, algumas delas deliciosas, que merecem ser compartilhadas por todo mundo. No entanto, como o nosso espaço é limitado, não é possível abrigá-las aqui. Talvez seja interessante abrir, na homepage do Taquiprati, um cantinho onde esses textos possam ser lidos por um número maior de pessoas. Vou consultar o Amaro Júnior, o webmaster responsável pela página, para saber se isso é possível.
P.S - 1. Gente, alguém ai pode me dizer o que o Lupércio foi fazer em Jerusalém? Alguém sabe se ele viajou com grana própria ou com recursos públicos? 2. O "Pão Molhado" anda reclamando que nunca mais apareceu na coluna. 3. E o Leonard Christy Souza Costa formou-se em letras pela Universidade do Amazonas, pagou 40 reais para colar grau em março, precisa do seu diploma, mas a burocracia incompetente diz que só em junho. Dá o diploma do Leo, Walmirzinho! É um direito do rapaz.

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