CRÔNICAS

O VELHO, O MENINO E O BURRO

Em: 10 de Junho de 2001
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."O cronista, o leitor e a coluna". Esse poderia ser o título da crônica de hoje. Fica, no entanto, o que você leu primeiro, aí em cima, referente a uma história meio ingênua e bastante conhecida, contada pela irmã Paula, professora do segundo ano primário no Colégio de Aparecida, no final dos anos 50. Ela tirou a narrativa do livro didático "Infância Brasileira", adotado na época em quase todas as escolas do Brasil.

O cronista pode ser comparado com um agricultor - o velho - que saiu de sua roça e foi vender o milho na cidade. Colocou os sacos no lombo do burro, montou nele junto com seu neto - o menino - e partiram pela estrada afora. No meio do caminho, alguém criticou:

- Pobre burro, obrigado a carregar um excesso de peso! Esse velho inconsciente devia ser processado pela Sociedade Protetora dos Animais.

Sensível à crítica, o velho, então, desceu e continuou a pé, deixando no lombo do burro apenas o menino com os sacos de milho. Mais adiante, alguém falou:

- Que absurdo! Um jovem - um galalau! - com tanto vigor físico, vai sentado no bem-bom, enquanto o coitado do velho, já coroca, que precisava descansar, se sacrifica de tanto andar.

Sem discutir, o velho mandou o neto descer e montou no burro. Haviam andado menos de um quilômetro, quando alguém, na beira da estrada, comentou:

- Tamanho homem! Não tem vergonha de maltratar essa infeliz criança!

Na versão da irmã Paula, a história terminava com o velho carregando nas costas o burro e toda a mercadoria, sem sequer ouvir os comentários - "olha um burro carregando o outro" - porque tapou os ouvidos com algodão. 

RELAÇÃO COM O LEITOR 

Te coloca agora na minha pele, leitor (a). Sente só o drama. Cada domingo, publicas uma crônica. Aí, durante a semana, recebes uma média de 60 cartas, te elogiando, te criticando, reclamando, aprovando, ofendendo, apoiando, xingando, louvando. Um leitor te empurra prá lá, outro te puxa prá cá, como é que vais tratar opiniões tão contraditórias? Qual o valor que deves dar a essa correspondência? Como é que um cronista, nesses tempos de internet, pode estabelecer relações sadias, maduras e democráticas com seus leitores? 

A solução, evidentemente, não é tapar os ouvidos e carregar o burro. Ao contrário: como ninguém é o dono da verdade, todo colunista deve estar antenado e aberto às críticas, não para aceitá-las passivamente como o velho o fez, mas para discuti-las publicamente. O leitor precisa ser respeitado, mas não adulado e mimado. Portanto, quem escreve, deve ser capaz de dialogar com seu leitor, de discordar dele e, se preciso, de brigar com ele. A verdade costuma brotar desses embates.

Aliás, é preciso esclarecer que essa entidade, denominada "o leitor", é uma abstração. "O leitor", como uma totalidade homogênea, não existe. O que existe são pessoas de carne e osso, que desempenham determinados papéis na sociedade e que possuem interesses bem definidos. Recebi algumas cartas elogiando a Maternidade Balbina Mestrinho, escritas não pelos usuários, mas pelo pessoal da direção, com cargos comissionados. São leitores como os demais? São. 

No entanto, é importante revelar de que lugar estão falando, por exemplo, as diretoras da Maternidade Balbina Mestrinho, quando publicaram carta neste jornal, domingo passado. Elas protestaram contra essa coluna que quer discutir as 76 mortes de bebés naquela Maternidade - um índice três vezes maior do que a média nacional. O argumento bem provinciano que usaram, tentando desqualificar o nosso discurso, foi o de que o colunista "sequer mora em Manaus". 

Ora, paradoxalmente esse fato confere mais legitimidade ainda à coluna. Não morando em Manaus, não tenho motivos de ordem pessoal nessa novela. Sequer conheço a doutora Sigrid Cardoso, por quem não tenho a priori qualquer sentimento de simpatia ou antipatia pessoal. No entanto, como jornalista, estou diante de um fato extremamente grave - a morte de bebés, denunciada por uma profissional de reconhecida competência, que trabalha no local: a doutora Luiza Mendonça. Ela - que também não conheço - se expôs corajosamente, alertando a sociedade sobre o perigo.

DE ONDE FALA?

Várias pessoas que moram em Manaus endossaram as críticas. O Brás Silva, do programa Ponto Crítico, jornalista com muita credibilidade, mostrou entre outras coisas a foto de uma formiga dentro de uma incubadora de um recém nascido na Balbina. O doutor Edson Ramos, inconformado com as mortes e os desmandos na Balbina, reforçou as denúncias. O Jerônimo Pinheiro trabalhou lá cinco anos e desde 1999 vem reclamando publicamente das condições precárias de trabalho e das "dezenas de aberrações que aterrorizam qualquer aluno de administração hospitalar". (Veja o site www.jeronimopinheiro.hpg.com.br)

O próprio CRM - Conselho Regional de Medicina, através de Comissão de Sindicância, concluiu pela veracidade das denúncias. Portanto, posso manifestar minha opinião sobre elas, independente do local onde resido. Não moro na Alemanha, não estava lá durante o massacre cometido por Hitler contra os judeus, o que não me impede de tornar pública minha indignação contra esses crimes, revelados por quem testemunhou. Aliás, como jornalista, ao tomar conhecimento de um fato desses, tenho a obrigação de expressar o que penso. 

Como sinalizou muito bem um leitor, extremamente lúcido, "a resposta às denúncias não deve ser dada à coluna Taquiprati ou ao Brás Silva, mas à sociedade. E isso a direção da Maternidade Balbina Mestrinho até hoje não o fez".

Os leitores que entupiram meu correio eletrônico com mensagens são sempre bem recebidos, inclusive aqueles que não concordam com o que escrevo. Não esperem, contudo, que eu tape os ouvidos e carregue o burro com o  próprio leitor. 

Só desço do burro, quando fica provado que a carga está realmente pesada. O tom, rancoroso, arrogante, nas crônicas sobre a eleição para reitor, deve ser condenado, como o foi implacavelmente por vários leitores. São críticas como essas, bem fundamentadas, que ajudam a coluna a se repensar, a retomar seu equilíbrio, sem perder sua contundência e seu espírito crítico.

Um leitor me censura, com razão, porque a coluna publicou cartas, sem consultar os autores delas:

"Na crônica sobre o reitor paideguinha você acabou expondo aqueles leitores que não concordaram com a tua posição, chegando ao ponto de publicar até mesmo os seus e-mails. Foi um erro. O leitor só responde positiva ou negativamente à crônica, ele é o destinatário e não o personagem involuntário".

A crítica é procedente. Acontece que quando alguém escrevia para a coluna e não pedia sigilo, eu interpretava como sinal verde para a publicação. Descobri que não é bem assim. Acabei prejudicando algumas pessoas, a quem peço desculpas. Isso não vai ocorrer mais. As cartas só serão publicadas se constar uma autorização explícita e expressa de seus autores.

Aproveito, então, para publicar a última carta sem autorização dos seus autores: meu sobrinho, o "Pão Molhado" e sua irmã Carolina, acabam de criar uma empresa, uma fábrica de brigadeiros, na qual investiram todo o seu capital: 40 reais. Pediram-me para anunciar o produto. Tenho um grande afeto pelos dois, mas argumentei que o compromisso desta coluna é com as causas populares e não com os interesses da família e dos amigos. Não gostaram e me enviaram uma carta malcriada, esquecendo que consideração é uma via de mão dupla. 

Ai que saudades da irmã Paula e do seu livro "Infância Brasileira"!

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