CRÔNICAS

O PÓ MILAGROSO DO LULU

Em: 24 de Junho de 2001
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Moço, qual é o pó? 
O pó. O pó milagroso. O pó milagroso do Lulu. O pó milagroso do presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, Lupércio Ramos (PFL - viche! viche!). O pó, cujas propriedades terapêuticas, vão constar no projeto-lei 33/2001, artigo primeiro, parágrafo "d", que Lupércio vai apresentar na casa que preside. O pó: uma mistura de Lulu com Gugu acabou dando glu-glu-glu, que como todo mundo sabe é o grito de guerra do peru.
Tudo começou no ano passado, quando Lulu assistiu - ele não perde um - o programa do Gugu Liberato, seu ídolo, a pessoa a quem ele mais incensa depois do seu chefe, o governador Amazonino Mendes. Foi aí que ele viu pela primeira vez imagens de uma caverna em Jerusalém onde - segundo Gugu - Maria teria amamentado Jesus. Gugu e Lulu não tem o menor escrúpulo em profanar coisas sagradas em benefício próprio. Cometem sacrilégio e enganam a boa-fé das pessoas.
Lulu não contou com conversa. Cansado de legislar, tirou férias e tomou o caminho de Jerusalém. Em lá chegando, adivinha leitor, qual foi o primeiro lugar que ele visitou? Acertou quem falou na tal da Gruta da Amamentação. Com um canivete, Lulu raspou as paredes da gruta, de onde caiu um pó parecido com araruta, araruta, quem adivinhar para que ele serve é filho de um recruta.
Lulu encheu quatro sacos com o pó liberado da gruta, trazendo-os como um troféu para Manaus, onde ele comete diariamente um programa de televisão. Foi nesse programa, no Canal 13 - TV Rio Negro, que Lulu exibiu, há alguns dias, o seu pó milagroso, elogiando suas propriedades terapêuticas e jurando que ele - o Lulu não, o pó - ajuda as mulheres a engravidar. Uma espécie de viagra dos pobres. Aí, ele - agora é o Lulu - distribuiu por sorteio, todas as porções, impondo, no entanto, por razões morais, uma condição: só as mulheres casadas podiam ser beneficiadas.
- Mãe, em vez do pó não é mais interessante usar o método tradicional? -  perguntou meu sobrinho "Pão Molhado", levando por isso vários cascudos da sua mãe, a Preta. Insistente, "Pão Molhado" ainda comentou:
- Engravidar mulher casada, com marido e tudo, é muito fácil. Queria ver era engravidar mulher sem necessidade de um homem. Aí sim, seria mesmo milagre.
 Ele quer saber se o Gugu, que agora vai ser pai, usou o tal do pó.
 Centenas de mulheres pobres da periferia entraram no conto do pó. Em entrevista aos jornais, uma das telespectadoras sorteadas declarou que vai usá-lo como remédio, porque quer ter um filho e que, em agradecimento, vai votar no Lupércio nas próximas eleições. O "Pão Molhado", que estava com o capiroto no couro, acha que o verdadeiro objetivo do Lupércio não é engravidar as mulheres, mas emprenhar as urnas. Mesmo porque, se essas mulheres grávidas forem atendidas na Maternidade Balbina Mestrinho, já sabemos o que vai acontecer com os seus bebes.
Devoto ardoroso de Santa Etelvina, para quem costuma acender velas diariamente, Lupércio acaba de inaugurar o FEBABA - Festival da Babaquice Bairrista, criado por esta coluna, plagiando o FEBEAPA - Festival da Besteira que Assola o País, do saudoso Stanislaw Ponte Preta.
A QUADRILHA
Estava pensando em escrever sobre a quadrilha do governo, chefiada por Amazonino Mendes. Quadrilha junina, evidentemente, nem te passe pela cabeça, pérfido leitor, qualquer outro tipo de interpretação. Juro que eu gostaria de ser o marcador da quadrilha, escolher os noivos, o padre, imaginar a sequência de passos na dança: "Lá vem chuva"! "Olha o apagão"! Imagina, leitor, que passo a quadrilha daria, quando fosse anunciado: "Não fica um, meu irmão".
O Dandão sugeriu uma crônica intitulada "Quem é o Nero Baré?" Enfim, atendendo pedido de alguns leitores, faço uma síntese do texto "Quem é o Spartacus Baré?" publicado domingo passado na homepage.
SPARTACUS OU NERO?
Num encontro informal com jornalistas, na semana passada, o governador Amazonino Mendes fez um longo silêncio. Caminhou devagar até a janela. Contemplou o horizonte, com os olhos apertados e, quase declamando, declarou com voz embargada: 
- Minha vida não é verdadeira. A relação que mantenho com as pessoas é uma contradição eterna. Elas não conseguem adivinhar quem eu sou, não valorizam o meu lado humano. Sou um ser incompreendido. 
Repetiu, balbuciando: "incompreendido..." (A Crítica, 09/06, p.7). Só faltou cantar: "ninguém me aaaama, ninguém me queeeeer"... 
A cena, de incomparável força dramática, lembra 'Édipo Rei', tragédia grega elaborada por Sófocles, cinco séculos antes de Cristo. Lá pelas tantas, a Esfinge, misteriosa, desafia Édipo, ameaçando-o: "Decifra-me ou te devoro". Apresenta-lhe, então, o seguinte enigma:
"O que é que de manhã caminha com quatro pernas, ao meio dia com duas e à tardinha com três."
Édipo salvou-se, respondendo: "É o homem. Ele começa engatinhando, passa a vida andando normalmente e, já velho, usa bengala". 
A inteligência baré enfrenta desafio similar para decifrar esse "ser incompreendido" que nos (des)governa. Fecha os olhos, leitor. Fechou? Imagina, agora, o Amazonino vestido com uma túnica comprida, folgada, de mangas largas, e sandálias com tiras de couro dando voltas em torno das pernas, até o joelho. Imaginou? Quem está do lado dele? O Berinho Braga, com saiote ateniense e bota de coturno alto, movimenta um abano de tucum, enxotando moscas que teimam em pousar sobre o chefe. Ninguém duvida que os dois são personagens de Sófocles, nos trópicos.
O SER E O NADA
Nos trópicos, tragédia grega vira farsa baré e coro dionisíaco transforma-se em cordão de puxa-sacos. Aqui, a Esfinge é uma cabocona de Urucurituba. Ela apresenta-nos duas adivinhações. A primeira: o-que-é-o-que-é, o Nonato (cheque-sem-fundo) tem na frente, o ex-prefeito Manoel (Pracinha) tem no meio e o Amazonino tem atrás? A outra: o jardim da mansão do Tarumã tem nove canteiros, dois a mais do que o quintal da Suframa. Qual a flor que brota nos três primeiros canteiros do Amazonino e nos três últimos da Suframa? 
Será que o povo amazonense vai ser devorado ou conseguirá adivinhar, afinal, quem é o verdadeiro Amazonino? Ele próprio, no mesmo encontro com jornalistas, tentou resolver o enigma, dando uma de filósofo: 
- Sou como Spartacus, aquele escravo romano. Os escravos eram como se fossem coisas, não eram humanos. Assim é como me sinto: sou uma coisa. As pessoas se aproximam de mim sem valorizar meu lado humano. Vêem em mim uma máquina de soluções". (A Crítica, 09/06, p.7). 
Spartacus era tão romano quanto Ajuricaba era português. Mas, enfim, deixa prá lá. Vamos perdoar Amazonino, cuja crise existencial está influenciada por um livro que não sai de sua mesinha de cabeceira: "O ser e o nada. Ensaio de ontologia fenomenológica", de Jean Paul Sartre. Costumava discuti-lo, em longas tertúlias, com seu ex-secretário de comunicação, o monoglota Ronaldo Tiradentes. Nessas ocasiões, Amazonino era o ser (incompreendido), Tiradentes, o nada (compreensível) e a a mesa de dominó fazia as vezes da ontologia fenomenológica. 
Foi em Sartre que Amazonino encontrou a preocupação com a "transcendência do Eu". Para o filósofo francês - principal teórico dos existencialistas - o projeto de vida do "eu" se choca sempre com o projeto dos outros, num processo de farinha-pouca-meu-pirão-primeiro e mateus-primeiro-os-meus-depois-os-teus. Numa de suas peças de teatro - "Portas Fechadas" - três indivíduos morrem e vão pro inferno, mas o inferno, para cada um, é o outro.
- L'enfer, c'est l'autre -  ou, como traduziria Tiradentes, "dane-se o mundo, que eu não me chamo Raimundo". 

É isso ai. Tinha mais. Mas, por enquanto, é isso ai..

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