CRÔNICAS

CARTA À CRÍTICA SOBRE CENSURA AO TAQUIPRATI

Em: 08 de Julho de 2001 Visualizações: 4044
CARTA À CRÍTICA SOBRE CENSURA AO TAQUIPRATI

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Nas últimas quatro semanas, leitores escreveram perguntando por que esta coluna não vem sendo publicada pelo jornal A CRITICA. Confesso que não sei. Esperei explicações que até hoje não me foram dadas. Há cinco dias enviei carta à vice-presidente do jornal, Cristina Calderaro. Hoje, dia 9 de julho, cansado de esperar, decidi publicá-la no www://taquiprati.com.br, em respeito aos 972 leitores aqui cadastrados. Cada um que tire suas conclusões.

Rio de Janeiro, 04 de julho de 2001

Com cópia para João Bosco Araújo

Para Cristina Calderaro

Vice-presidente da Rede Calderaro de Comunicação

Prezada Cristina,

1. No final do ano passado, você me convidou para colaborar outra vez com A CRITICA, publicando todos os domingos a coluna Taquiprati. O seu convite, insistente, muito me honrou. Fizemos um acordo verbal, em seu gabinete, na presença do João Bosco Araújo. De um lado, eu requeri ao jornal total liberdade para expressar meu pensamento e minha opinião. De outro, o jornal cobrou de mim o compromisso de diversificar as críticas, evitando concentrá-las duas semanas seguidas sobre as mesmas pessoas. Foi isso o que ficou combinado.

2. A coluna voltou no dia 4 de fevereiro deste ano, depois de uma "campanha publicitária" em que foram publicados diariamente trechos de antigas crônicas criticando o poder político local, o que dava uma ideia ao leitor do que estava por vir. E veio mesmo! Uma semana depois, escrevi "A Mansão do Tarumã" (11/04), contendo apreciações sobre a residência cinematográfica do governador Amazonino Mendes, em base à documentação divulgada por duas revistas nacionais e pelos grandes jornais do Rio de Janeiro e São Paulo.

3. No entanto, a terceira crônica - Carta Aberta ao General Pereira (18/02) - teve sua publicação vetada. Não saiu. Era uma carta dirigida ao prefeito de Manaus, Alfredo Nascimento, do mesmo grupo político do governador, perguntando por que o IPTU da mansão do Tarumã era de apenas 482 reais. Entendi que quem estava sendo questionado era o prefeito. O editor executivo do jornal, Sebastião Reis, entendeu que era o governador Amazonino Mendes. Por isso, censurou a coluna.

4. De lá para cá, cada semana procurei explorar notícias diferentes, para driblar a censura. No entanto, as mortes dos bebés na Maternidade Balbina Mestrinho, por sua gravidade, me comoveram e mereceram seguidas menções nas últimas crônicas, mas procurei combiná-las com outras questões, como por exemplo, críticas à política cultural do governo estadual. O editor executivo Sebastião Reis mandou-me um recado, para que eu mudasse de assunto.

5. Mudei. Escrevi a crônica "Quem é o Spartacus Baré?"(17/06). Nela, comento declarações do Amazonino que, em entrevista aos jornais locais, declarou-se um "ser incompreendido", comparando-se ao gladiador Spartacus. Fazia quatro meses que o "herói" não era citado, mas apesar disso a crônica não foi publicada. No lugar dela, o espaço foi ocupado por propaganda governamental. Segundo e-mail enviado por um leitor, "as páginas do jornal estavam 'até o tucupi' de puxa-saquismo deslavado ao Amazonino'. Esse mesmo leitor me acusou de ser um "inocente útil perfeito, usado para o jornal se vender mais caro".

6. Não pude responder aos leitores que por e-mail me perguntavam o que estava acontecendo, porque NINGÚEM do jornal me procurou para dar qualquer explicação. Nem a direção de A CRITICA, nem o superintendente, nem o editor executivo, nem qualquer outro subalterno. Fiquei sabendo, acidentalmente, através de um repórter, que o parágrafo sobre superfaturamento, compra de votos e IPTU da mansão do Tarumã havia sido vetado - segundo informações do Reis - pela própria Cristina e que o João Bosco me telefonaria para comunicar-me isso.

7. O telefonema não foi dado. Sem saber os motivos reais da censura, enviei, na semana seguinte, o texto "O pó milagroso do Lulu" (24/06), questionando Lupércio Ramos (PFL), presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas, que trouxe de Jerusalém e distribuiu em seu programa de tv um pó capaz - segundo ele - de engravidar mulheres estéreis. Reproduzi ainda parte do texto sobre o Amazonino, eliminando, por via das dúvidas, os parágrafos considerados contundentes. Não adiantou essa auto-censura. Uma vez mais a crônica foi vetada. Uma vez mais NINGUÉM do jornal me procurou para dar qualquer explicação.

8. Finalmente, escrevi a última crônica intitulada "Fala, Leitor" (01/07), com cartas de dois leitores: uma sobre um fato novo relacionado às mortes de bebes na Maternidade Balbina Mestrinho; a outra sobre o preço das obras públicas em Manaus. Essa foi a terceira crônica censurada e não publicada. Até agora, ninguém do jornal me procurou para dar qualquer explicação. Da minha parte, cumpri o acordo combinado: diversifiquei os temas. A CRITICA, no entanto, não cumpriu sua parte: censurou-me, sem que até hoje eu saiba as razões.

9. Minha experiência com a censura vem da época da ditadura militar, quando trabalhei no Rio de Janeiro em vários jornais: Correio da Manhã, O Sol, O Paiz, e depois, em Paris, como correspondente do jornal Opinião. A censura era abominável, mas era clara no que pretendia. Nós, jornalistas, sabíamos o que podia e o que não podia ser noticiado. A censura do editor executivo de A CRITICA, Sebastião Reis, é pior que a da ditadura militar, porque quem escreve não sabe o que pode e o que não pode ser publicado.

10. Na época do Umberto Calderaro, o meu relacionamento com A CRÍTICA, por vezes contraditório, sempre foi marcado por uma atitude de respeito mútuo e até mesmo de afeto. Ao longo dos anos em que mantive a coluna, minha opinião quase nunca coincidia com a do jornal. Num exemplo de pluralismo, A CRITICA publicava minhas crônicas, mesmo contrariando sua linha editorial, o que - no meu entender - dignificava e fortalecia o jornal, conferindo-lhe maior credibilidade.

11. Nessa época, A CRITICA também vetou alguns artigos meus, o que gera, como é natural, uma insatisfação profissional. Mas quando isso ocorreu, fui tratado com respeito e informado dos motivos. Diante das razões da empresa e de suas alianças, eu me reprogramava, buscando encontrar uma linha de convergência, um campo de confluência de interesses, onde o espaço pudesse ser usado de forma inteligente, atendendo ao que penso, sem ferir a rede de relações de A CRITICA. Buscávamos compatibilizar os interesses do jornal com os meus princípios. Quando não dava, eu parava de escrever, esperando mudanças conjunturais, o que ocorreu várias vezes.

12. Agora, me sinto profissionalmente desrespeitado. Fui censurado e demitido, de fato, sem sequer ter o direito a um gesto elegante: ser avisado. Sebastião Reis, o censor executivo de A CRITICA, não teve a delicadeza de enviar um e-mail, dar um telefonema sequer, comunicando a decisão da empresa. Esse não é um comportamento profissional, sério, de alguém que edita o maior jornal do Estado. Parece molecagem. De qualquer forma, é um tratamento que, pela minha história de vida, não mereço.

13. O envolvimento pessoal do Sebastião Reis com o grupo do Amazonino Mendes, entre outros fatores, está impedindo que a A CRITICA cumpra o seu papel informativo. No entanto, não é justo satanizá-lo. Você, Cristina, ou o João Bosco Araújo podiam fazer o que o Umberto Calderaro fazia. É muito simples. Bastava pegar o telefone e me avisar. Ou então, mandar o Reis, a telefonista ou qualquer outro subalterno me comunicar: "nesse momento, razões empresariais impedem que A CRÏTICA continue publicando sua coluna". Ponto. Eu compreenderia.

14. Você sabe muito bem o que me move a escrever. Escrevo por prazer e pelo convencimento (ou talvez a auto-ilusão) de que posso contribuir para o pensamento e a reflexão dos leitores, para o debate das questões regionais e nacionais, para aperfeiçoar as instituições e ajudar nas transformações sociais que o país e o Amazonas tanto precisam. Continuarei escrevendo para o site Taquiprati, mas deixo a partir de hoje de enviar as minhas crônicas semanais para A CRITICA. Não parei de escrever, portanto. A CRÍTICA é que deixou de me publicar, em função das mudanças que vem sofrendo em sua linha editorial.

15. Nas cartas que recebo, os leitores se queixam, com razão do perfil sensacionalista e da importância desmedida que A CRÏTICA vem dando às matérias de polícia. Parece que o jornal perdeu o rumo editorial e, o que é pior, está perdendo, aos poucos, a credibilidade. Não confia na inteligência de seus leitores. Não informa com precisão, o que fica evidente na própria linguagem: o tempo condicional recomendado em situações bem precisas, tem sido usado de forma abusiva, refletindo a falta de um jornalismo afirmativo (expressões como "teria feito", "seria o mandante", "fulano que não quis se identificar", "o suposto fraudador", etc. etc.)

16. A sociedade amazonense precisa de um jornal informativo, crítico, investigativo, ousado em suas opiniões, capaz de fiscalizar o poder, de criticá-lo, de contribuir para a formação de leitores conscientes, de cidadãos comprometidos com a melhoria da qualidade de vida da população. Um jornal que fareje a notícia com o olfato dos lascados, que sinta as dores do povo, que tome as dores do povo, enfim, verdadeiramente "de mãos dadas com o povo". É possível fazer isso, de forma inteligente, empresarial, não suicida, sem curvar-se diante dos poderosos. Com o Reis, de censor, A CRITICA está distanciando-se desse modelo e transformando-se em "chapa branca". Isso não é jornalismo. É picaretagem! Não permita, Cristina, que esse patrimônio construído sob a liderança de Umberto Calderaro seja destruído

17. Faço essas críticas de coração aberto, com a certeza de que, como tantas outras vezes, voltarei às páginas de A CRÍTICA. Voltarei, se for chamado, quando as condições o permitirem. Aguardo a mudança de conjuntura, a saída do censor executivo e a transformação da mansão do Tarumã em Museu do Feio para retomar a coluna.

18. Como os leitores me cobram insistentemente o porquê A CRITICA censurou minhas crônicas, espero um esclarecimento da direção do jornal. Na falta desses esclarecimentos, peço licença a você para colocar esta carta no meu site. Posso?

Um abraço, com a esperança de que essas divergências não interfiram na nossa amizade.

José Ribamar Bessa Freire

VER TAMBÉM: http://www.taquiprati.com.br/cronica/319-la-vem-mais-confusao

http://www.taquiprati.com.br/cronica/313-fala-leitor-

 

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1 Comentário(s)

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Paulo Bezerra comentou:
26/04/2014
Que esta crônica sirva de resposta aos leitores que aqui e acolá insistem em perguntar o porquê do taquiprati ter deixado de escrever sobre temas políticos regionais.
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