CRÔNICAS

NEGO VALDIR

Em: 20 de Outubro de 2003
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O bairro de Aparecida começou a desconfiar que o Nego Valdir era fiu-fiu durante os ensaios do boi Coringa, lá na Rua Coronel Salgado. Ele não perdia um ensaio, ficava na primeira fila,os olhos esbugalhados, esperando, com a respiração ofegante, a hora do boi mijar.

Já te contei, leitor, que o Coringa sabia mijar? Não?! Então, conto agora. Era, aliás, o único boi bumbá em todo o Amazonas capaz de fazer xixi. Na década de 1950, cada boi tinha um fricote especial, só seu, cada um querendo ser melhor do que o outro.
Corre Campo botava a língua pra fora; o Mina de Ouro levantava as orelhas; o Luz de Guerra comia capim; o Garantido revirava os olhos e o Caprichoso balançava o rabo, mas todos eles eram capados, ou seja, se dependesse deles, a vaca ia pro brejo, sem bezerrinho. Pimba mesmo, no duro, funcionando, só quem tinha era o Coringa. E o Nego Valdir não tirava os olhos dela.
A pimba do Coringa
Como é que o Coringa mijava? Eu te conto. O ´miolo´ do Coringa era o finado Nenenzinho, goleiro do Eldorado e do Brasil Futebol Clube, um time lá da Bandeira Branca. Ele entrava debaixo do boi, levando uma garrafa da famosa cerveja XPTO. Na hora agá, olê-lê, ola-lá, olha-o-boi-que-te-dá, Nenenzinho chacoalhava a garrafa, fazia muita espuma e derramava o líquido por um tubo de plástico cor de rosa, que ia sair na pinto do Coringa. Quando o jato amarelo e borbulhante começava a fluir - era quase um orgasmo! – o público delirava e aplaudia, consciente da superioridade - digamos assim - tecnológica, do bairro de Aparecida.
Era nessa hora que o Nego Valdir, hipnotizado, gemia, revirava os olhos, até então fixados no pingolim do Coringa, tinha um chilique e desmaiava. O pessoal começou a desconfiar daquela presepada, daquele constante desfalecer do Nego Valdir, que durante muito tempo vivia dando porrada em todo suspeito de ser fiu-fiu. O que era dúvida ia, pouco a pouco, se tornando certeza.
Foi no dia de São João, junho 24, número emblemático para uma definição como aquela. O Coringa tinha que se apresentar no Festival Folclórico, ali no campo General Osório, em frente ao Quartel do 27 BC. Milhares de pessoas estavam esperando ansiosamente a mijada do boi de Aparecida. Nesse dia, o Nenenzinho havia emborcado várias doses de Cocal - a aguardente fabricada no Beco da Indústria. Quando entrou embaixo do boi, já estava com os cornos cheio de cachaça. Fazia um calor infernal, aí ele bebeu também toda a cerveja, enquanto gingava pra lá e pra cá. Chegou, enfim, o momento crucial, os brincantes começaram a entoar o grito de guerra:

Mijei, mijei, mijei, // Mijei, volto a mijar. Molhei Mina de Ouro // Na esquina do boulevard.
Era o sinal, a dica pro Nenenzinho. Como, porém, mijar, se a garrafa de cerveja estava vazia? Ele não podia decepcionar o público, mas estava impossibilitado de sair de debaixo do boi para buscar outra garrafa. Então, cheio da troaca, não contou com conversa. Recolheu o tubo de plástico, colocou a própria pomba no buraco do boi e mijou, ao vivo e em direto. Na confusão, o Nego Valdir, um dos poucos a perceber o que se passava, gritou, com direito a vários pontos de exclamação:
- É de verdade!!! A piroca é de verdade!!!
Aí, então, desfaleceu. Desde esse dia, ninguém mais teve dúvidas: o Valdir era mariquinha.
- Porra, é muito azar: além de preto, viado, comentou o seu Francisquinho, taberneiro da Bandeira Branca.
Como todo racista, o seu Francisquinho era um babaca, preconceituoso, achava que preto era filho do capiroto e bichice uma doença, e ainda por cima, transmissível. Ele tinha receio de tratar um homossexual com respeito, acreditando que, dessa forma, podia colocar em risco sua própria masculinidade.
Pode reparar, leitor, todo cara metido a machão que discrimina ou debocha de homossexual e de negro é, no fundo, uma bicha enrustida, sem coragem de se assumir. O certo é que, desde então, o Nego Valdir ficou marcado para sempre. Na hora da partilha do boi, por exemplo, quando a tripa fina ia pra dona Ernestina, o mocotó pra tua avó, em vez de dar pra dona Maroca aquilo que era objeto do olhar voraz do Valdir, o amo cantava:
- Eu peguei no pipi // É pro Nego Valdir, Olê-lê, ola-lá, // Olha o boi, o que te dá?
Aos 15 anos, Valdir já havia escancarado, assumindo corajosamente a sua homossexualidade. Virou travesti. Adotou o nome de Katya Cylene, assim, com dois ipisilones. Pintou as unhas com cores berrantes, vestiu roupas com toques femininos, calçou sapato alto, e passou a usar modess "Pétala Macia", marca muito popular à época.
Não andava, desfilava, sempre rebolativo. Todas as tardes, ele comparecia à banca de tacacá da dona Alvina, na esquina da Xavier de Mendonça com a Alexandre Amorim. Trazia de casa sua própria cuia, personalizada, uma peça artística de Santarém, feita pelas índias de Monte Alegre, toda bordada, onde aparecia a imagem de uma iara poderosa saindo das águas de um lago amazônico. Era chique e mais higiênico cada um tomar tacacá em sua própria cuia - uma 'personalizated bottle gourd' - em vez de usar a da tacacazeira.
Chiquérrimo, Valdir manifestou o desejo de ser miss, quando uma vizinha, a irmã do Manezinho Morango, nascida e criada no bairro, ganhou o concurso estadual e nacional de miss, e quase abiscoita o título mundial.

- Se a catarrenta da Terezinha pode, por que eu não posso também?
Aula de inglês
Catarrenta, todos nós sabemos, a Terezinha efetivamente era. No entanto, ela tinha condições para disputar o título, arranhava um inglês de periferia, aprendido com os padres americanos, sabia dizer pelo menos 'gude naite'. Foi ai que o Nego Valdir decidiu, ele também, arranhar a língua de Shakespeare. Procurou o Antônio Carlos Carauassu, professor do Colégio de Aparecida:
- É difícil aprender inglês?
Antônio Carlos, de apelido Títcher, respondeu: - "Nada. É muito fácil". O Valdir: - "Você me ensina?" O Títcher: - "É pra já, inglês sem mestre, em duas lições". Aí, só de sacanagem, explicou: - “Pra falar inglês, basta colocar um "r" ou muitos "erres" no final das palavras. Isso é inglês”.
- Obrigadôrrrrr!, disse o Valdir, mostrando na hora que havia assimilado a lição. A partir daí o Valdir, depois das 18h:00, só falava inglês. Quando ele passava, requebrando as cadeiras, a boca pintada de baton, o pessoal que fazia ponto na banca de tacacá mexia:
- Valdir-irrrrr!
Oi-errrrrr!
Deixa-arrr eu taca-cá-arrr em teu tu-cu-pi-irrr?
 - Deixo-orrrrr, mas sem pimenta-arrr.
Para os íntimos, Valdisa; para o grande público, Katya Sylene, a vampiresa poderosa. Para todos, sempre, Nego Valdir. Negro, homossexual, maltratado pelo preconceito de uns, tratado com carinho e humor por outros, foi um personagem quase folclórico da nossa infância perdida.
Construiu sua passarela, por onde desfilou nessa vale de lágrimas, borboleteando como uma libélula. Por caminhos tortuosos, nos ensinou o respeito e a tolerância com o outro, com o diferente.
Lembrei-me dele, saudosamente, neste domingo, 12 de outubro, quando - de passagem por Manaus - percorri as ruas do bairro, acompanhando a procissão de Nossa Senhora Aparecida.
- Cadê o Nego Valdir?
O Tuta, meu irmão, me deu a notícia:
 - Morreu.
Felizmente, estava enganado. O Valdir está vivinho da silva. Na realidade, o que aconteceu foi que ele quase morreu, atropelado por um carro lá na Matinha, quebrou a perna em três partes e não teve grana pra colocar os ossos no lugar. Ficou aleijado. Como já andava meio cego, não pode sair de casa.
De qualquer forma, o Valdir não agüentaria mesmo desfilar num mundo despirocado, onde os bois não sabem mais mijar e onde as cuias de tacacá deixaram de ser personalizadas.
Descansa- rrrrr em paz-errrr, Valdir-irrrr.
 
 
 

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2 Comentário(s)

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Antonio Ximenes Benevides comentou:
04/06/2011
Excelente!! Estilo solto, bem dialogado, com ótima ilustração. Todos temos lembranças engraçadas e aparentemente sem importância, mas se contada como essa crônica, vale a pena ser publicada.
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liger lucia polari comentou:
18/05/2011
Ainda bem que tem tu, maninho, para nos recordar os tempos felizes de nossa infância em Aparecida. Obrigada.
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