CRÔNICAS

TRAZ A CHUPETA PRO BABÁ NÃO CHORAR

Em: 22 de Fevereiro de 2004
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Ao meu querido amigo, 
Stéfano Genaro Novellino, que
brincou com todas essas mulheres
 
Todos os anos, durante a folia, reencontro mulheres com quem brinquei em outros carnavais. Sem querer me gabar, foram tantas, que até perdi a conta. Tem de tudo: honradas, santas, despudoradas, cínicas, tristes, da vida alegre, da pá virada. Com umas, o contato foi tão intenso, que delas ainda guardo o jeito de ser, de olhar, de rir, de requebrar, de amar. Com outras, foi tão fugaz, que resta apenas vaga lembrança. A todas elas, dedico esta crônica, onde faço confidências sobre nosso relacionamento. Omito nomes, às vezes, para preservá-las. O leitor que tente adivinhar quem é a bacana, a falsa, a vigarista... 
NÃO USA CALCINHA
A bacana é tão sacana, que não usa calcinha, não usa vestido, não usa calção. Calção? É isso mesmo. Mulher da Martinica não usa calção, porque com toda razão, só faz o que manda o seu coração, o que rima com verão e é uma solução.
E a outra, a falsa? Se fosse sincera, seria madame, com lindo apartamento na Ponta Negra, porteiro, elevador, ar refrigerado em dias de calor. A vigarista, alta funcionária da Secretaria de Cultura, " trabalha " de fazer dó: vai ao dentista quando dá uma hora, às duas toma café com o Berinho, às três vai à modista, às quatro assina o ponto e dá no pé. Parece com a Pepita de Guadalajara, não tem vergonha na cara.
Em compensação, às vezes encontro nos carnavais mulheres de outro calibre. Uma delas é lavadeira - a Maria - sempre com uma lata d´água na cabeça, lá vai ela, subindo o morro, não se cansa, leva pela mão uma criança. A outra é Conceição, a sonhadora, de quem me lembro muito bem, porque vivia sonhando com coisas que o morro não tem. A terceira é uma mulher de verdade, achava bonito não ter um jaraqui pra comer, ai que saudades que tenho dela, aquilo sim é que era mulher. A quarta é uma hindu, minha linda hindu, que nasceu em Calcultá, e achou melhor ser minha esposa do que ser escrava de um rajá.
A última vez que brinquei com a endiabrada Genoveva foi em Manaus, no carnaval de 1967, no baile do Sheik. Gritei:
- Genoveva, vem cá ! Este ano eu me acabo.
Depois, nunca mais a vi. Às vezes, vejo na passarela sua amiga, a mulata bossa-nova, que caiu no rali-gali. Agora, quem encontro sempre, todo ano, é a mulata assanhada, que passa sem graça, fazendo pirraça, fingindo inocente, tirando o sossego da gente. Aí, dou-lhe uma cantada, tomando emprestado a voz de Dagmar Feitosa:
- Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim, mas meu bem não faça assim comigo não, você tem que me dar seu coração. 
O trágico, porém, é o contato com mulheres tristes. A Camélia, por exemplo, caiu do galho, deu dois suspiros e morreu de dispneia. A Anália recusou meus convites insistentes, deixando-me ir sozinho pra Maracangalha. E a Luzia, meu Deus ? Eu suplicava:
- Anda, Luzia. Pega um pandeiro e vem pro carnaval. Apronta tua fantasia, Luzia, alegra o teu olhar profundo, que essa tristeza te faz muito mal".
Mas a tristeza dela contagiou até o Arlequim, que ficou chorando, por amor da Colombina, no meio da multidão, da mesma forma que o Pierrô apaixonado, que vivia só cantando.
A MORTE DA SAUDADE
Em cada carnaval, minha galera fica repleta de cabrochas, mais bonitas do que qualquer miss - Adalgiza, Terezinha Morango e Marta Rocha, mas é bom que se diga: todas são solteiras. Não sou o pirata da perna-de-pau, que canta mulher casada, embora encontre sempre, em todos os bailes carnavalescos, a mulher do Rui. O pessoal vive me azucrinando:
- Ui, ui, ui! Roubaram a mulher do Rui.
Respondo na hora:
- Se pensa que fui eu, juro que eu não fui.
Prefiro um brotinho encantador, a quem procuro dar uma aula de amor: bê-a-bá, chega um pouquinho pra cá, bê-é-bé, vou te mostrar como é ... 
Como é que consigo encontrar esse mulherio todo em cada carnaval? Eu explico. O vovô ia a cavalo visitar vovó. O papai, de bicicleta, para ver dona Elisa, ora vejam só! Hoje tudo está mudado. Vou de moto, correndo pela estrada além. Boto a caboquinha na garupa e digo:
 - Menina vai, com jeito vai, se não um dia, a calça cai.
Se alguma dessas mulheres me esnoba, entro num bar e peço:
- Garçom, traga mais uma rodada por favor, eu quero me embriagar, a mulher que eu tinha foi embora.
No entanto, reconheço quando sou derrotado:
 - Nem um chope que eu bebi, nem um chope, conseguiu me libertar dessa mulher.
Ah, leitor, quem sabe, sabe, conhece bem, como é gostoso, gostar de alguém, sobretudo quando esse alguém se chama Filó ou Iaiá, ausentes de vários carnavais. Nunca mais vi a Filó, com quem mantinha papos intermináveis :
- Oh, Filomena, se eu fosse como tu, deixava essa mania de meter dedo no Oh Filomena, se eu fosse como tu, etc.etc ".
A Iaiá também desapareceu. Brinquei com ela pela última vez numa batalha de confete na Eduardo Ribeiro:
- Iaiá, cadê o jarro? O jarro quebrou, a flor murchou, a jardineira ficou triste. Que maldade! No jarro de barro, eu havia plantado a saudade. 
EU QUERO MAMAR
Devia colocar um ponto final aqui e terminar a crônica, com a morte da saudade. No entanto, sigo em frente, porque não disse ainda o que queria dizer. Na realidade, me deixei empolgar pelas mulheres, mas o que pretendia mesmo era compartilhar contigo, leitor, algumas reflexões instigantes sobre música de carnaval, desenvolvidas pelo antropólogo Roberto Da Matta, em dois livros: "Carnaval, Malandros e Heróis", de 1980 e " Contos de Mentiroso. Sete ensaios de antropologia brasileira ", de 1993. 
Esse antropólogo lembra que não existe nenhum tema que não tenha sido abordado, com sofisticação e inteligência, pelas letras da música de carnaval, que dramatizam a vida política, as relações sociais, o poder, as mulheres, o amor, o ciúme, a dor de corno, a vingança, o trabalho, o lazer, a tristeza, o alcoolismo, a morte. O Brasil, inteirinho, cabe dentro das marchinhas de carnaval. Num país com taxas altas de analfabetismo, a música popular - diz Roberto da Matta - é tão importante como a literatura erudita nas sociedades europeias. 
As músicas de carnaval dramatizam a corrupção, a bajulação política, o cordão dos puxa-sacos que cada vez aumenta mais, o colonialismo, o pecado, o adultério, a velhice e até mesmo o preconceito social, manifestado em músicas racistas, como "o teu cabelo não nega" e em outras que ridicularizam o homossexualismo: a cabeleira do Zezé ou a Maria Sapatão.
Realmente, é possível saber o que os brasileiros pensam e fazem, analisando as marchinhas que tiveram muito sucesso, sobretudo entre os anos 1930 e 1960, algumas das quais atravessaram o tempo, mantendo surpreendente atualidade. 
Podemos, portanto, "ler" o Brasil e enxergar o que acontece aqui, descobrindo o que dizem as letras das músicas de carnaval, porque através delas a sociedade brasileira mostra a sua cara, manifestando concretamente os seus medos, desejos e valores.
É o que Roberto Da Matta faz, num dos seus ensaios magistrais, intitulado "O poder mágico da música de carnaval - Decifrando Mamãe eu quero". Essa música, canalha, maliciosa, carnavalesca, revela um mundo repleto de sentido e intencionalidade, despertando uma série de associações entre mamãe, mamar e mamata, o que remete à negociata, negócio escuso realizado sob o patrocínio de algum governante.
Ou seja, leitor, este ano não vai ser igual àquele que passou, eu não brinquei e você também não brincou, de forma politicamente correta. Neste ano, está combinado, na hora de cantar o hino oficial do IADC - ´mamãe eu quero mamar´ - quem é que enxergaremos, de mamadeira e chupeta? Na batalha de confete do porto de Manaus, ele estará pedindo ao Negão:
- Ei você aí, me dá um dinheiro ai.
Ou dizendo pro Eduardo Braga:
- Não vai dar, não vai dar não, você vai ver a grande confusão.
Quem estará, todo recauchutado, fantasiado de ministro dos Transportes? Será que detrás da máscara de ´companheiro´ existe um ´cabo´ escondido? 
Nesse ano, leitor, o nosso carnaval vai ser na base do berimbau e do ´olha aqui, seu Nicolau´, uma marchinha de 1938. Na hora em que gritarem: - Pega o lalau, pega o lalau, não fica um, meu irmão. Então, nós sabemos muito bem de quem lembraremos.
A água lava, lava, lava tudo - cantava a Emilinha Borba, nos anos cinquenta. A água só não lava a nossa língua e a nossa memória. A vontade de viver e a energia inesgotável do povo brasileiro, que se manifestam na festa mais popular do mundo, podem ser canalizadas um dia para mudar o nosso país.(Esse final execrável me lembra os manifestos petistas que eu escrevia nos anos 80. É execrável, mas foi o que encontrei nos arquivos da minha memória. Saudades daqueles tempos. Bom carnaval para todos os leitores).

P.S. Quero ver a Viradouro, entrando no sambódromo, cantando: "Oh virgem Santa, Olhai por nós, Olhai por nós, oh Virgem Santa, pois precisamos de paz". Cada um reza com o que tem de melhor, no caso das mulatas, sacudindo o bum-bum e mostrando os peitos. Só para rimar, não acho isso um desrespeito. .

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