CRÔNICAS

OS “GAFANHOTOS” ATACAM OUTRA VEZ

Em: 16 de Maio de 2004
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Um panfleto entupiu minha caixa de correio eletrônico nessa semana, anexado a mensagens de leitores, algumas delas indignadas, outras perplexas, outras hesitantes, várias cheias de dúvidas, todas, no entanto, querendo discutir o conteúdo panfletário do texto. O que impressiona mais é que ele foi lido, ao mesmo tempo, por muita gente que nem se conhece, o que dá uma idéia da velocidade com que está circulando na internet. No final, recomenda algo que foi seguido ao pé da letra: "repasse aos seus amigos, para que um maior número de brasileiros fique sabendo desses absurdos".

Que "absurdos" são esses? O texto responde: "os estrangeiros estão roubando a Amazônia do Brasil, com a cumplicidade dos índios". Exibe "provas" desse fato, registrando depoimentos de uma pessoa que visitou Roraima, conversou com gente do lugar, e observou, in loco, "como as terras indígenas ameaçam a segurança nacional, impedem o desenvolvimento do Brasil e favorecem os gringos".
O detetive da palavra
Talvez seja oportuno ocupar teu tempo, caro leitor, discutindo aqui o panfleto citado. Para analisá-lo, é prudente pedir ajuda aos especialistas nesse campo. A maioria dos leitores de jornal está mais ou menos familiarizada com a Geografia, a Sociologia, a História, a Filosofia, a Economia e outras ciências, mas são ainda poucos os que conhecem uma disciplina chamada Análise do Discurso, desenvolvida inicialmente na França e ensinada hoje em várias universidades brasileiras. Agora, ela pode nos ser de grande valia.
Essa ciência faz com a fala aquilo que o microscópio faz com a célula: vê o invisível a olho nu. Criou algumas técnicas apropriadas para dissecar o discurso das pessoas, entendendo por discurso qualquer produção da linguagem, desde o noticiário da televisão, o artigo de jornal, um sermão, uma carta, um bate-papo, uma fofoca, enfim tudo aquilo que as pessoas falam ou escrevem. O analista do discurso é uma espécie de detetive da palavra, que descobre o sentido oculto daquilo que as pessoas falam ou escrevem e avalia se uma mensagem conseguiu ser transmitida de forma eficaz.
É o caso do pesquisador francês, Pierre Bourdieu, que publicou um livro "Le langage autorisé", no qual propõe critérios para determinar a legitimidade de um discurso, que só ocorre quando são preenchidas três condições: a legitimidade de quem fala, a legitimidade da forma e a legitimidade da situação. Se faltar uma delas, o discurso está bichado, serve apenas para enganar os desavisados - coitados! - e uma meia dúzia de trouxas. Para não ser trouxa, leitor, convém verificar em que medida o citado panfleto se enquadra nessas condições.
Alô, quem fala?
O panfleto vem com a assinatura de um carioca chamado Hélio Malka y Negri. E daí, quem é esse cara no jogo do bicho? Onde estudou? Qual é sua especialidade? O que é que ele faz na vida? Qual a experiência que teve com os índios? Quanto tempo viveu em Roraima? Que interesses tem na área? Quais são os princípios éticos que norteiam suas ações? De onde ele tirou as informações que escreve? Como construiu sua argumentação?
Essas perguntas devem ser feitas por quem leu o panfleto, para não cometer o pecado venial da ingenuidade ou o pecado mortal da babaquice. O lugar de onde cada um fala é importante para entender o que se está falando. Faz muita diferença se o autor é dono de uma fazenda de arroz em terras indígenas, padre, antropólogo, polícia ou garimpeiro. Alguém pode te dizer, leitor: "você está com aids". Mas só é possível levar a sério tal discurso, se o seu autor é médico especializado e fez os exames necessários. Do contrário, pode ser até uma praga, mas não constitui um diagnóstico.
Afinal, quem é Hélio Malka y Negri, que aparece como o autor do panfleto? Que legitimidade tem para falar sobre os índios de Roraima? Descobri na internet que ele é diretor de uma publicação do laboratório multinacional Bausch & Lomb. Enviou recentemente o panfleto sobre Roraima para o site 'Imigrante de Israel', que o publicou, com seu nome. No entanto, as repercussões do caso o levaram a escrever uma carta, negando a autoria. Ele teria apenas divulgado uma mensagem que recebeu, sem saber se o seu conteúdo era verdadeiro. Assim mesmo, foi condenado pelo 'Imigrante de Israel': "Quem repassa um e-mail também tem a mesma responsabilidade de quem escreve".
Diante disso, sobre o autor, a única informação que temos é aquela nebulosa contida no próprio panfleto, que diz transmitir "o desabafo de uma pessoa conhecida e séria, que passou recentemente em um concurso público federal e foi trabalhar em Roraima". Conhecida de quem? Séria como? Ou seja, o autor do panfleto se escondeu no anonimato. O panfleto é apócrifo, o que por si só já é suficiente para jogá-lo na lata do lixo, em vez de acreditar nele, passando recibo de babaca. Quem fala não tem, pois, legitimidade para isso.
A velhinha de Mucajaí
Mas a forma também não é legítima, já que esse autor anônimo, recém-chegado na área, construiu o seu discurso sobre a Amazônia em apenas três dias, sem qualquer conhecimento prévio. Ele mesmo explica que nesse tempo exíguo conversou em Boa Vista "com algumas pessoas desde engenheiros até gente com um mínimo de instrução". Coletou depoimentos que levaram a uma apreciação superficial sobre Roraima, afirmando que "pouco mais de 70% do território é demarcado como reserva indígena. Lá, se você for brasileiro, não entra. Só entra estrangeiro".
O panfleto atinge um tom grotescamente delirante, quando seu autor relata que na terra indígena "os americanos entram na hora que quiserem. Se você não tem uma autorização da FUNAI, mas tem dos americanos, então você pode entrar. A maioria dos índios fala a língua nativa, inglês ou francês, mas não sabe falar português. Dizem que é comum, na entrada de algumas reservas, encontrarem-se hasteadas bandeiras americanas ou inglesas".
É o caso de perguntar: - Dizem? Quem é que diz, cara-pálida? Dessa forma, o anonimato se estende também aos depoentes, invalidando seu conteúdo.
Mas o autor anônimo conta que depois de ouvir tudo isso, falou em voz alta "É, os americanos irão acabar tomando a Amazônia". Uma velhinha humilde e simples, vendedora de suco em Mucajaí, comentou: "Irão não, meu filho, tu não sabes, mas tudo aqui já é deles, eles comandam tudo, você não entra em lugar nenhum, porque eles não deixam. Quando acabar essa guerra, aí eles virão pra cá, e vão fazer o que fizeram no Iraque, quando determinaram uma faixa para os curdos, onde iraquiano não entra, aqui vai ser a mesma coisa".
A informação da velhinha sobre o Iraque e política internacional é mais confiável do que a do autor sobre a Amazônia. Nesse trote, não seria surpresa se ela criticasse também a problemática da estética fenomenológica ou os juros pós-fixados. Lamentavelmente, apesar desse discurso ser caricato, torpe e primário, ele encontra um certo eco, porque explora o sentimento nacionalista e de amor à pátria que existe no coração de cada brasileiro, canalizando-o contra os índios de Roraima. O panfleto não ataca os interesses econômicos dos gringos, apenas tira proveito da raiva que muita gente tem deles para questionar os direitos indígenas sobre a terra.
Os gafanhotos patriotas
Os gringos entram nessa história como Pilatos no Credo. Isso fica claro, quando o autor inventa uma inexistente proteção que os americanos nunca deram aos índios: "Pergunto inocentemente às pessoas: por que os americanos querem tanto proteger os índios? E a resposta é absolutamente a mesma: porque as terras indígenas têm riquezas animais e vegetais, abundância de água, muito ouro (encontram-se pepitas que chegam a ser pesadas em quilos), diamante, outras pedras preciosas, minérios e petróleo. É, pessoal, saio daqui com a quase certeza de que em breve o Brasil irá diminuir de tamanho".
Na realidade, o Brasil só fica pequenininho quando alguém, como o autor do panfleto, escreve tanta besteira junta, num discurso carregado de má-fé, explorando a desinformação de brasileiros crédulos, que amam sua pátria e acabam acreditando em mentiras como índios hasteando bandeiras americanas, falando inglês e se aliando com os gringos para retalhar o território brasileiro. Como a maioria das pessoas não conhece Roraima, esse tipo de depoimento pode adquirir uma aura de credibilidade para ouvintes incautos.
A história de Roraima mostra que as terras indígenas demarcadas, longe de serem ameaça à soberania nacional, constituem uma garantia de que essas terras continuarão pertencendo ao Brasil. No início do século XX, quando o governo brasileiro discutia os marcos das fronteiras com outros países, Joaquim Nabuco, que estudou toda a documentação, comprovou que o Brasil só conservou essas terras, porque os índios Makuxi, Ingarikó, Taurepang e Wapixana impediram a entrada de ingleses, franceses, holandeses e espanhóis. "Os peitos dos índios foram as muralhas dos sertões", escreveu Nabuco.
O Brasil deve, portanto, o tamanho do seu território aos índios, contrariando esse patriotismo fajuto, de meia-tigela, que está divulgando várias versões do panfleto pela internet, inclusive uma delas publicada no Jornal Brasil Norte, de Roraima, assinada por Reynesson Damasceno e Leandro Freitas. As várias versões acabam sendo, na realidade, uma só, porque seguem uma única receita, usam o mesmo tempero, misturam os mesmos ingredientes, e cozinham na mesma panela, que é a panela dos gafanhotos.
Os gafanhotos comeram a folha de pagamento do Estado de Roraima e sugaram suas últimas energias, desviando mais de R$ 230 milhões dos cofres públicos. Querem agora abocanhar as terras indígenas, tentando para isso ganhar aliados fora de Roraima, com a esperança de convencer ao presidente Lula a não homologar a Terra Indígena Raposa/Serra do Sol em área contínua. O chefe da quadrilha, o ex-governador Neudo Campos, e o atual governador Flamarion Portela, já foram denunciados ao Superior Tribunal de Justiça pelos crimes de peculato e formação de quadrilha. O lugar deles deve ser aquele que os índios reservam ao gafanhoto-tananá: o cativeiro numa gaiola, e não um palanque para enganar os desinformados.
P.S. – O panfleto  circula na internet desde 2004, quando publicamos essa resposta (16 de maio 2004) no Diário do Amazonas, em Manaus. O panfleto continuou circulando em várias versões. Em uma delas, quem aparece como autor é um pesquisador da USP, São Paulo, e uma pesquisadora da Bahia. Ambos negaram a autoria, informando que se limitaram apenas a repassá-lo. O professor da USP enviou para o Taquiprati um dossiê preparado pela Policia Federal e outro pelo Itamaraty, desmentindo o conteúdo do panfleto. Em outra versão, aparece como autor um doutorando da UNICAMP em Água e Solo. Tome cuidado! Nenhum deles escreveu o texto. Quem o repassa é que aparece, às vezes, como autor. O panfleto, de tempos em tempos, muda de autor. A Policia Federal  desmentiu os fatos, esclarecendo  que jamais uma bandeira de país estrangeiro foi  hasteada em qualquer escola indígena. No caso a bandeira do Estado do Amazonas - esta sim está presente nas solenidades escolares - é muito similar à bandeira dos Estados Unidos, só muda o número de estrelas. Não permita que o seu amor pelo Brasil seja explorado por espertalhões que pensam exclusivamente no próprio bolso.
P.S.- Já se passaram 501 dias com Lula no poder e até agora ele não homologou a Terra Indígena Raposa Serra do Sol. 

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3 Comentário(s)

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Arthur Nobre Mendes (via FB) comentou:
11/01/2017
HOAX REQUENTADO Voltou a circular pela internet a história inventada por volta de 2003 ou 2004 que fala da experiência de um visitante da Amazônia ao passar por terras indígenas e estradas da região. Diz o texto, entre outras barbaridades, que só entra na terra dos Índios quem for estrangeiro, que na entrada das aldeias existem bandeiras estrangeiras hasteadas e que os índios falam inglês em vez de português, além de uma coleção enorme de todas as teorias da conspiração já inventadas sobre a Amazônia. Você certamente irá receber tal texto mas é preciso que saiba porque ele existe e como se propaga. O texto foi criado como parte de uma campanha suja contra a demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol em Roraima. O objetivo era passar para a opinião pública a imagem de que quem defendia a demarcação dessa terra estava conspirando contra o povo brasileiro. Na época, a falsidade das informações contidas nesse texto foi denunciada e ele saiu de circulação. Agora ele volta como peça de uma nova campanha contra os direitos indígenas, justo nas vésperas de uma escola de samba do Rio de Janeiro levar para a avenida a visão dos índios do Xingu sobre a natureza e sobre aqueles que a destroem. Não se deram ao trabalho sequer de criar outra história mas preferiram requentar a velha e desacreditada história de 12 anos atrás. Mas é bom saber que existe um truque utilizado pelos autores desse hoax que lhe confere uma aparente autenticidade. Eles colocam como autora do texto sempre uma pessoa real que inadvertidamente compartilhou seu conteúdo, de formas que, aparentemente, se trata de uma experiência verdadeira, atestada por alguém com perfil público e com credibilidade. Em 2005 aparecia como autora do texto uma pesquisadora de um renomado instituto de São Paulo. Liguei para ela e ela me disse que a única coisa que tinha feito foi repassar o texto para uns conhecidos seus que trabalham na região norte a fim de que estes confirmassem ou não a veracidade dos fatos narrados. Então fiquem atentos e não colaborem com mais esta tentativa de desacreditar a causa indígena e seus defensores. A mentira tem pernas curtas mas dá um trabalho danado correr atrás dela.
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Henyo T. Barretto F. (via FB) comentou:
11/01/2017
Galera, é o seguinte. Voltou a circular recentemente por grupos de WhatsApp um hoax que já tem uns bons 13 anos de existência. Na época, eu escrevi uma mensagem desconstruindo a parada e disparei para várias pessoas e listas - mas não tenho a menor ideia de como recuperar isso. Diante desse revival, até Andrea e outras pessoas me escreveram pedindo aquele texto. Fato é que isso é desnecessário, pois o post abaixo do Artur bota tudo em pratos limpos. À época, também o Bessa desmontou toda a pataquada nessa crônica aqui: http://www.taquiprati.com.br/…/289-os-%E2%80%9Cgafanhotos%E…. Enfim, se vocês receberem essa bosta, usem o post do Artur e a crônica do Bessa para (des)qualificarem a falácia.
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Artur Nobre Mendes (via FB) comentou:
11/01/2017
Puxa, Bessa, quisera eu ter a mesma competência. Se soubesse desse teu texto apenas o reproduziria. Acertou na mosca meu amigo, ou melhor, no gafanhoto. Abraço!
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