CRÔNICAS

UMA VISITA COM OS ÍNDIOS AO MUSEU BRENNAND

Em: 11 de Julho de 2004 Visualizações: 3203
UMA VISITA COM OS ÍNDIOS AO MUSEU BRENNAND
(De Recife para o Diário do Amazonas) – Lara era a maior fofoqueira do Olimpo, um condomínio de luxo, onde só vivia caixa-alta. Ela observava quem estava namorando quem, e depois fazia intrigas, espalhando maledicências para gregos e baianos. Um dia, viu o síndico, só de cueca, pulando a cerca da vizinha, e foi correndo contar pra mulher dele, provocando assim uma enorme briga. O síndico decidiu se vingar. Ordenou ao segurança que levasse a fofoqueira para os quintos dos infernos. Ele obedeceu, mas no meio do caminho preferiu estuprá-la, cortando-lhe a língua, para que ela nunca mais fofocasse.
O tema de Lara
Lara, que está muda e imobilizada, visitou Manaus em agosto de 2000. Ela mora atualmente num subúrbio de Recife, na Várzea, num bosque aprazível à margem esquerda do rio Capibaribe, próximo ao campus da Universidade Federal de Pernambuco, onde eu a encontrei ontem, chorando de tanto sofrer. Lá vivem também o estuprador, de nome Mercúrio; o síndico mulherengo, que é nada menos que Zeus; e a mulher traída – Vênus, a deusa do amor.
Lara, Mercúrio, Zeus e Vênus, personagens da mitologia grega, convivem com mais de duas mil figuras saídas também da Bíblia, do conto das “Mil e uma Noites”, da literatura persa e árabe, ou da história das civilizações maia, azteca e inca. Todos esses personagens são grandes esculturas, feitas com argila vinda do Piauí. Foram criados e inventados por um pernambucano genial, Francisco Brennand, 77 anos, pintor, ceramista, escultor, desenhista, arquiteto e museólogo, enfim um artista extraordinário que usa diferentes linguagens plásticas para narrar histórias, recriar mitos clássicos da antiguidade e inventar outros.
Para abrigar essas esculturas, Brennand, construiu em 1971 um museu-oficina nas instalações semi-abandonadas de uma fábrica de telhas e tijolos, que pertenceu a seu pai. Lá, nos galpões da olaria, ele montou seu atelier de pintura e modelagem, musealizando o espaço para expor as figuras que são esculpidas por suas mãos.
Poucas vezes essas esculturas, muitas delas chumbadas no chão, foram retiradas de lá, como ocorreu em agosto de 2000, quando Brennand fez uma exposição no Centro Cultural do Palácio Rio Negro, em Manaus. Ele é, portanto, conhecido de alguns amazonenses, que tiveram o privilégio de admirar sua obra. Sua passagem pela capital do Amazonas foi documentada em vídeo por Nelson Lopes, que trabalha com ele há mais de 40 anos.
O sentimento trágico
O museu-oficina é um conjunto que abriga diferentes espaços. O primeiro deles é dentro dos galpões da antiga olaria, onde existem várias salas, uma das quais referentes aos mitos gregos: grandes cabeças sem corpos, olhando para o céu, como acontece com a escultura de Lara, de cujos olhos escorre uma lágrima, mas também Dionísio, Palas, Prometeu, Édipo, um enorme cavalo de Tróia. Um pavilhão com dois salões reúne “o sentimento trágico do mundo”, onde estão alguns personagens históricos como Montezuma, Atahualpa, Paulina Bonaparte, Joana D’ Arc, Dante, Marat e tantos outros que tiveram um destino trágico com assassinatos e suicídios. Lá se pode ver também falos enormes, frutos que parecem com vaginas, freiras peitudas e siliconadas.
O segundo espaço é um museu ao ar livre, onde foi construído uma espécie de templo, com um espelho d´água, um enorme paredão do lado direito, no centro uma construção com uma cúpula azul e dezenas de imagens de Vênus sem braço, animais, pássaros imaginários de bicos ameaçadores, bicos de tucanos, pernas de mulheres, peixes com a boca aberta, frades em fila, sapos, tartarugas, bundas, ovos de donde saem cobras. Esse espaço enfatiza um tema recorrente na obra de Brennand: a fertilidade. Daí a cúpula central em forma de ovo, a forma primordial da vida, o começo de todas as coisas. Lá estão Adão e Eva, depois do pecado, ele tapando seu sexo com as mãos, ela grávida.
O terceiro espaço ocupado é constituído por um jardim, com um lago, onde cisnes de verdade nadam, abrindo para outros sítios em processo de construção: a Praça do Pássaro Rocca, o Bosque do Unicórnio, a Alameda das Esfinges e o Lago da Capivara.
Finalmente, o quarto museu – o Espaço Cultural Accademia - foi inaugurado recentemente, com a obra do pintor e do desenhista Brennand. São desenhos feitos com caneta esferográfica ou giz de cera sobre papel caderno, entre os quais podem ser vistas dez ilustrações feitas por Brennand no início dos anos 60 para a Campanha de Alfabetização de Paulo Freire. Eram mais de 90, mas o golpe militar de 1964 desapareceu com os demais. Apresenta ainda desenhos elaborados para o figurino do Auto da Compadecida (1968), e uma série de Chapeuzinho Vermelho, provocativa, sensual, vestindo roupa da moda, diante de um lobo lascivo.
Francisco de Paula de Almeida Brennand – esse escultor com coração de pintor – como ele mesmo se define, é um patrimônio do povo pernambucano e brasileiro. Como escreveu um crítico, “o conjunto acaba sendo de uma beleza bárbara e terrível, ao mesmo tempo aliciante e assustadora, que desorienta um pouco, mas envolve. Estivesse num país da Europa, o templo de Brennand seria um local obrigatório para visitantes, com cartazes a anunciá-lo em cada agência de viagem. No Brasil é ainda uma preciosidade meio recôndita – que alguns privilegiados mais atentos descobrem”.
Entre esses privilegiados estão cerca de 15 índios de oito etnias de Pernambuco. Com eles, visitei a oficina-museu de Brennand nessa última sexta-feira, como parte de um curso que ministrei, com o antropólogo Renato Athias, coordenador do Programa de Pós Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco.
Talvez as palavras de duas índias possam sintetizar o sentimento da maioria dos visitantes. Uma delas afirmou que teve vontade de chorar. Outra falou que não sabe se alguém pode ser permanentemente feliz, mas que durante a visita tinha a certeza de ter vivido um momento de intensa e rara felicidade.

P.S.  - O presidente Lula governa o Brasil há 557 dias e até agora não cumpriu o prometido em campanha: demarcar a Terra Indígena Raposa Serra do Sol. .

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