CRÔNICAS

A TRIBO DOS CORRUPTOS

Em: 26 de Setembro de 2004
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Escrevo de Goiânia, onde vim dar uma palestra num curso de pós-graduação. Daqui, acesso minha correspondência na internet, em busca de assunto. Um leitor protesta contra a mudança dos nomes das ruas de Manaus  “que homenageiam figuras desprezíveis”. Outro reclama que o site da UOL discrimina o polo industrial da Zona 
Franca de Manaus. Um terceiro lamenta que o governo Lula, segundo ele, tenha mandado dar uma aliviada na Operação Albatroz. Todos temas interessantes.
No entanto, minha atenção se concentra num texto primoroso, assinado por Cezário Camelo, o Cecezinho. Como um antropólogo da corrupção, ele faz uma descrição etnográfica da tribo dos corruptos amazonenses, seus rituais, festas, crenças, língua, hábitos culinários, objetos da cultura material, analisando até mesmo um tema difícil como a estrutura de parentesco.
Qualquer leitor reconhece quando está diante de um texto fora de série, cuja leitura é fonte de prazer. Confesso que fiquei morrendo de inveja, porque gostaria de ter escrito esse texto. Não sei se Cezário Camelo é pseudônimo. Não sei se esse texto já foi publicado. De qualquer forma, por falta de espaço, sou obrigado a efetuar alguns cortes, o que foi doloroso. Taí pra ti, leitor, parte do texto do Cecezinho.
Antropologia da corrupção
“Eu adoro a estética da corrupção. Adoro a reação dos implicados, adoro o vocabulário das defesas, das dissimulações, as carinhas franzidas dos acusados na TV, ostentando dignidade. Adoro ver ladrões de olhos em brasa, dedos espetados, uivos de falsas virtudes e lágrimas de crocodilo.
Todos alegam que são sérios, donos de empresas ‘impecáveis’. Vai-se olhar as empresas, e nunca nada rola normal, como numa padaria. As empresas sempre são ‘em sanfona’, uma dentro da outra, são firmas sem dono, sem endereço, sem dinheiro, sem obras, todas vagando num labirinto jurídico e contábil que leva a um precioso caos proposital, pois o emaranhado de ladrões dificulta apurações.
Me emociona a amizade dentro das famílias corruptas, principalmente aqui na terra das Icamiabas. Oh, Deus! Aqui, creio eu, há mais amor do que entre picaretas paulistas ou cariocas. São inúmeros os primos, tios, ex-sócios, ex-mulheres que assumem os contratos de gaveta, os recibos falsos, todos labutando unidos, como trombadinhas sincronizados. Baixa-me imensa nostalgia de uma família que não tenho e fico imaginando os cálidos abraços, os sussurros de segredos nos cantos das casas avarandadas, o piscar de olhos matreiros, as cotoveladas cúmplices quando uma verba é liberada pela SEINF em 24 horas, os charutos comemorativos.
Tenho inveja dos vastos jantares à tripa forra, repletos de sarapatéis de tartaruga, vinhos finos, gargalhadas, piadas infames, ditos espirituosos, sacanagens tão jucundas, tão ‘coisas nossas’, tão ‘manáos’, que me despertam ternura pela preciosidade antropológica de imagens como a coleção de carros importados do Cordeirinho, a cabeleira loura do delegado He-Man (lembram?), a calvície precoce do Ricardo da SEFAZ, o visual desleixado de Otávio Raman, as sobrancelhas do Gilberto Benzecry e a pasta surrada do Zé Lopes. Esses signos e símbolos muitos nos ensinaram sobre o Amazonas real.
Adoro também ver as caras dos canalhas. Todos acumulam as mesmas riquezas: piscinas, fazendas, mansões, lanchões, flats em Miami, contas em paraísos fiscais. Todos têm amantes, todos têm mulheres desprezadas e tristes. Aprecio muito os bigodes e bigodinhos. Os bigodes corruptos são matreiros, bigodes que ocultam origens humildes criadas à farinha d´água e jaraqui frito, na clara ocultação de um racismo contra si mesmos, camuflando os ancestrais brancos cruzados com índios e negros, raquíticos por séculos de patrimonialismo.
Também gosto muito do vocabulário dos velhacos e tartufos. É delicioso ver a ciranda das caras indignadas na TV, as juras de honestidade. É delicioso ouvir as interjeições e adjetivos raros: ‘ilibado’, ‘estarrecido’, ‘despautério’, ‘infâmias’, ‘aleivosias’.... São palavras que ficam dormindo em estado de dicionário e só despertam na hora de negar as roubalheiras. São termos solenes, ao contrário das gravações em telefone, onde só rolam palavrões.
Amo também ver o balé jurídico da impunidade. Assim que se pega o gatuno, ali, na boca da cumbuca, ali, na hora da mão grande, surgem logo os advogados, com ternos brilhantes, sisudos semblantes, liminares na cinta, cínica serenidade de cafajestes e, por trás deles, vemos as faculdades malfeitas, as chicaninhas decoradas, os diplomas comprados. E logo acorrem os juízes das comarcas amigas, que dão liminares e mandados de segurança de madrugada, de pijama, no sólido apadrinhamento oligárquico, na cordialidade forense e freguesa, feita de protelações, desaforamentos, instâncias infinitas, até o momento em que surge um juiz jovem e decente, que condena alguém e é logo chamado de ‘exibicionista’...
Adoro tudo, adoro a paisagem vagabunda de nossa vida cabocla, adoro esses exemplos de sordidez descarada, que tanto nos ensinam sobre o nosso amazonas velho de guerra. Sou-lhes grato pelas sujas lições de antropologia.
Só um sentimento me atormenta o coração: não sei porquê, também me passa pela cabeça a imagem dos corruptos chineses condenados e ajoelhados no chão, com o soldado alojando-lhes uma bala de fuzil na nuca. Penso nestas cenas e sinto uma grande inveja da China”.
P.S. – Esse texto do Cecezinho lembra o Arnaldo Jabor nos seus melhores momentos, quando ainda não era anti-comunista raivoso. Parabéns, Cezário Camelo. Eu estava querendo escrever sobre “o ferrão da caba”, aquela história de quem vota em abelha quer se ferrar, um texto que está também circulando na Internet. Queria escrever também sobre a 1ª Parada do Orgulho Louco, organizado em Manaus pela Associação Chico Inácio, entidade que defende a inclusão de portadores de transtorno mental na cultura dos novos tempo. No entanto, o texto do Cecezinho não deixou. Valeu.

P.S. 2 - Lula governa há 634 dias e parece que esqueceu sua promessa de campanha de homologar a Terra Indígena Raposa Serra do Sol..

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