CRÔNICAS

O ERRO E A ‘PAUDAGOGIA’

Em: 24 de Outubro de 2004
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.Sei que o leitor, às vésperas de uma eleição difícil para a prefeitura de Manaus, está esperando que eu comente a luta do dragão da maldade contra o anjo guerreiro. No entanto, há quinze dias, não leio jornais, não vejo televisão, não ouço rádio, não abro a internet, não posso me comunicar por telefone com ninguém. Nesse momento em que o leitor percorre essas mal digitadas linhas, estou numa aldeia dos índios Tuyuka, a cinco quilômetros da fronteira com a Colômbia, na região da Cabeça do Cachorro, no alto Rio Tiquié.

Na realidade, estou escrevendo esse texto em São Gabriel, no Rio Negro, duas semanas antes de atravessar várias cachoeiras, entre as quais Pari Cachoeira, Cachoeira do Jabuti e Cachoeira do Caruru, para só então chegar à aldeia São Pedro, onde vou ministrar um módulo num curso de formação de professores Tuyuka. No ano passado, no mês de novembro, fiz uma viagem até lá para avaliar o desenvolvimento da escola Tuyuka.
Normalmente, escrevo monitorado pelos leitores, compartilhando a preocupação transmitida pela maioria, através de cartas enviadas para o site. Hoje, mesmo num momento tão decisivo para os destinos da cidade de Manaus, peço ao leitor que compartilhe comigo algumas preocupações decorrentes do meu trabalho como professor. Na próxima semana voltaremos aos assuntos de política regional.
Sociedade sem escola
Gostaria de bater um papo e trocar umas ideias com o leitor sobre um problema que durante algum tempo ocupou minha atenção. As sociedades indígenas produziram saberes sofisticados sobre a floresta, os animais e as plantas, criaram música, dança, pintura, poesia, religião, medicina, farmácia, narrativas míticas. Como é que esses saberes eram transmitidos, se não havia escola, nem biblioteca?
Os colonizadores que mantiveram os primeiros contatos com as sociedades indígenas acharam, de forma equivocada, que a falta de escola significava falta de educação, o que foi criticado por Florestan Fernandes, em artigo publicado na Alemanha, em 1964, ano do golpe militar no Brasil. Nesse artigo intitulado ‘Aspectos da educação na sociedade tupinambá’, o autor comprovou que os índios tupinambá, como todos os demais grupos, desenvolveram uma filosofia da educação e um pensamento pedagógico.
A educação indígena não-escolarizada se baseava em três valores: o valor da tradição oral - uma espécie de arquivo dos saberes da sociedade capaz de orientar as ações e decisões dos indivíduos em qualquer circunstância; o ‘valor da ação’, levando pessoas adultas a envolverem crianças e adolescentes em suas atividades, tornando o ‘aprender fazendo’ a máxima fundamental da filosofia educacional indígena; e finalmente o ‘valor do exemplo’, dado por pessoas adultas e, sobretudo, pelas mais velhas.
Nas sociedades indígenas, sem escola, onde não havia situações sociais exclusivamente pedagógicas, a transmissão de saberes era feita no intercâmbio cotidiano, por contatos pessoais e diretos. Não havia um lugar onde se aprendia. A aprendizagem se dava em todo momento e em qualquer lugar. Na divisão do trabalho, não havia um especialista – um professor. Qualquer indivíduo era um agente da educação tribal, mantendo vivo o princípio de que “todos educam a todos”.
No entanto, embora uma pessoa madura pudesse aprender algo novo até envelhecer, cada agente social devia ser potencialmente capaz de se tornar preceptor das pessoas mais jovens ou menos experientes, como um “mestre da vida”. Portanto, o que tipificava uma ação como educativa era a sua natureza, e não a pessoa ou a entidade que a realizava.
Essa síntese aqui apresentada foi elaborada por Florestan Fernandes. Ela é passível de crítica por seu esquematismo e pela idealização quase inevitável num tipo de abordagem como essa. No entanto, seu grande mérito reside em ter chamado a atenção para a existência de um discurso construído pelos povos indígenas sobre suas próprias práticas pedagógicas, discurso encontrado ainda hoje na tradição oral de muitas etnias, como os Tuyuka do alto rio Tiquié. É o caso, por exemplo, do conflito entre indígenas e europeus relativo aos procedimentos para corrigir o erro no processo de ensino/aprendizagem.
No século XVI, o princípio educativo indígena mais criticado foi aquele detectado por um missionário jesuíta, o padre Fernão Cardim, quando registrou, surpreso, que pais e mães indígenas “amam os filhos extraordinariamente”, lamentando, porém, que eles não castigassem os seus filhos. Outros cronistas observam comportamento similar. É o caso de Pero de Magalhães Gandavo, provedor da Fazenda na Bahia entre 1565 e 1570. Ele criticou que “pais e mães indígenas criam seus filhos viciosamente, sem nenhuma maneira de castigo”.
Esse tipo de relação, na qual as crianças são socializadas sem porrada, é observável ainda hoje, no século XXI, em muitas aldeias indígenas. Na aldeia Sapukai, localizada em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, uma índia guarani Mbyá, mãe de três filhos, resumiu numa frase: “Mbyá puro não bate em criança. Nunca. Não precisa bater nem brigar. É só falar”.
Nos dias atuais, essa proposta indígena contra castigos físicos aplicados às crianças é vista com simpatia e parece ser universalmente aceita por todas as correntes de pensamento. No entanto, a pedagogia europeia da época – a “paudagogia” – acostumada com o uso da palmatória e com outras formas de violência física, considerou a ausência de castigo como uma “omissão”, um “atraso”, um “vício”, porque no seu entender não corrigia o erro e, por isso, obstruía o processo de aprendizagem. Aos olhos do colonizador, tratava-se de negligência e de falta de princípios pedagógicos, e não do resultado de uma reflexão coletiva sobre a natureza do processo de aprendizagem, com a construção de uma filosofia da educação.
Hoje, ninguém defende a porrada, a violência física, os castigos corporais como métodos de educação. No entanto, ninguém – salvo Florestan Fernandes – teve a humildade de dizer para os índios: “Há 500 anos, vocês é que tinham razão. Os europeus é que estavam errados”.
P.S. 1 – Se o leitor tiver interesse em aprofundar essa questão, o IBASE acaba de publicar um livro intitular “Educação Escolar Indígena em Terra Brasilis”, com artigos de vários autores: esse que você está lendo agora, Luiz Donizete, Marinha Khan e Marta Azevedo.
P.S. 2 - Lula preside o Brasil há 662 e até agora não teve força política para cumprir sua promessa de campanha de homologar a Terra Indígena Raposa/Serra do Sol.

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