CRÔNICAS

O MILHO DA PINTOLÂNDIA

Em: 14 de Novembro de 2004
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Podia muito bem se chamar Pintópolis em homenagem à Grécia antiga, onde surgiu a primeira cidade ocidental, a polis grega. Ou então Pintoville, mostrando dessa forma um verniz gaulês e uma intimidade com as raízes francesas. Ou ainda Pintocity, cercada de um fog londrino e de um humor britânico. No entanto, isso não ocorreu.
É que Ottomar Pinto (PTB – viche! viche!) despreza a Grécia, a França ou a Inglaterra, mas em compensação idolatra a Disneylândia, nos Estados Unidos. Por isso, quando construiu um conjunto de casas populares em Boa Vista, deu-lhe o nome de Pintolândia, numa auto-homenagem, puxando dessa forma o seu próprio saco e o saco dos americanos.
Brigadeiro reformado da Aeronáutica, Ottomar foi governador biônico do então território de Roraima (1979-1983) e o primeiro governador eleito do Estado (1990), assumindo por duas vezes a prefeitura da capital, Boa Vista. Agora, com a cassação do governador Flamarion Portela, um dos chefes da quadrilha dos gafanhotos, Ottomar Pinto assume pela terceira vez o cargo de governador de Roraima.
Não é por mera coincidência que Ottomar, puxando o saco de si mesmo, denominou de Pintolândia o novo conjunto habitacional. Na realidade, ele trata Roraima como se o Estado todo fosse uma espécie de Pintolândia. Sua esposa, ex-senadora Marluce Pinto acaba de ser nomeada secretária do Bem-Estar Social. Uma de suas filhas, Otília Pinto (PTB) é prefeita de Rorainópolis. A outra, Marília Pinto (PSDB) é deputada estadual. Enfim, tem Pinto ocupando tudo que é poleiro.
Quando um jogador de dominó começa uma partida perdendo, para se consolar e encontrar ânimo declara solenemente: “O primeiro milho é dos pintos”. No caso de Roraima, depois que os gafanhotos comeram a folha de pagamento, os pintos não são os primeiros, mas os últimos a atacar. Candidato derrotado ao governo estadual, Ottomar foi acusado de ter usado uma Toyota pertencente à Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em sua campanha nas eleições de 2002. A toyota Bandeirante, modelo 1998, cor branca, foi apreendida por agentes da Polícia Federal, na cidade do Cantá, porque continha adesivos com o nome de Ottomar Pinto. O veículo, conforme a petição inicial do processo, teria sido repassado pela Funasa, através de convênio, ao município de Rorainópolis onde Otilia Pinto, filha do brigadeiro Ottomar Pinto, é prefeita.
Do ponto de vista dos interesses históricos dos índios, não há diferença entre gafanhoto e pinto. No primeiro dia de mandato, o chefe da Pintolândia reafirmou o seu ódio contra os índios de Roraima, declarando que é contrário à demarcação de forma contínua da reserva indígena Raposa/Serra do Sol, que tem 1,69 milhão de hectares. Desta forma, já assume acirrando ainda mais os conflitos entre arrozeiros e índios que vivem na região. “Se essa área for transformada em contínua, todo o poder sobre ela será federal”, declarou ele à Folha de São Paulo.
Na realidade, Ottomar Pinto só faz repetir as declarações que concedeu há cinco anos, quando era prefeito de Boa Vista. Naquela ocasião, em entrevista ao jornal Folha de Boa Vista (08.01.99) pregou abertamente o uso da violência contra os povos indígenas, criando um clima de medo e hostilidade na população. Isso porque o então ministro da Justiça, Renan Calheiros, havia assinado a portaria n° 820, declarando os limites da área indígena Raposa/Serra do Sol e ordenando sua demarcação. A publicação da portaria suscitou reações furiosas de interesses contrariados.
A reação mais violenta veio de um grupo de rizicultores instalados no sudoeste da Raposa-Serra do Sol, região do rio Surumu. Entre os dias 6 e 10 de janeiro, convocaram a imprensa para assistir à distribuição da produção de arroz, alegando que entregar a terra aos índios era destruir a economia roraimense. Foram apoiados pelos pequenos criadores de gado e por políticos locais. Entre eles, Ottomar Pinto, então prefeito da capital, Boa Vista, que chegou a citar Vladimir Illitch Lênin: "a violência é a parteira da história". Num discurso na Praça do Centro Cívico, ele vociferava: "Se não nos ouvirem, vamos destruir tudo". Como explica um documento do Conselho Indígena de Roraima (CIR), “eles não destruíram nada, mas criaram um fato político que repercutiu na mídia nacional”.
O assessor jurídico do CIR, Paulo Pankararu, naquela ocasião desmontou a argumentação de que a economia de Roraima entraria na falência, demonstrando que “os índios estão aptos a assumir a produção de arroz, já que os empregados das fazendas, em sua maioria absoluta, são indígenas e sabem muito bem fazer o seu trabalho”. No dia seguinte, o CIR - entidade que congrega a maior parte dos líderes das aldeias da Raposa-Serra do Sol - informou que uma comitiva de deputados e senadores estava em Brasília, pressionando o Executivo para que o ato declaratório fosse desfeito.
Depois disso, foi desencadeada uma verdadeira campanha de terror contra os índios. No dia 7 de dezembro de 1999, o índio Paulo José de Souza foi assassinado com dois tiros à queima-roupa disparado pelo invasor Roberto Rodrigues, irmão do vereador Francisco Rodrigues, de Uiramutã e do fazendeiro Tiago Rodrigues, que apoiou o ato criminoso. Três dias depois, um grupo de índios e o missionário Egon Heck, do CIMI, tiveram seu caminhão interceptado por 8 soldados da PM, armados com metralhadora, alguns dos quais estavam embriagados. Egon foi esfaqueado por Jared Batista da Silva, que trabalha para o fazendeiro Roberto Rodrigues.
Depois desses acontecimentos, outros índios foram assassinados. No dia 12 de fevereiro do mesmo ano, o índio Renan Almeida André, de apenas 14 anos, foi encontrado morto em sua casa, com uma rede enrolada no pescoço e hematomas espalhados pelo corpo. No mesmo dia, outro índio, Regelino Nascimento de Souza, de 18 anos, foi encontrado morto, também enforcado, na maloca Muturuca. No dia 16, o tuxaua Nazereno Macuki foi atropelado e morto numa estrada, e o motorista fugiu.
Num contexto em que o presidente Lula, ao contrário das promessas feitas, não homologou ainda a demarcação da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol, a volta de Ottomar Pinto ao governo do Estado pode significar um aumento da violência contra os índios. A Pintolândia parte com voracidade para comer o milho de Roraima.

P.S. - Lula governa há 683 dias e - meu Deus do céu - não homologa a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, o que estimula a voracidade da Pintolândia..

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