CRÔNICAS

OLHA O CABOCO-EDUCADOR Aííí, GEEENTE!

Em: 13 de Fevereiro de 2005
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.- Alô mocidade dependente da Grande Família! Alô meu povão vermelho e branco do São José! Alô Zona Leste de Manaus! Olha o filho do Solimões aííííí, geeeente!

O grito que abriu o desfile da escola campeã do carnaval de 2005, aqui em Manaus, foi tão vigoroso, que atravessou todo o rio Solimões, ecoou pela cordilheira dos Andes e foi despertar o poeta Pablo Neruda lá em sua sepultura, na Isla Negra, provocando um tremor de terra em Santiago do Chile.
É que Neruda ficou visivelmente incomodado com a concorrência aos seus “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”. Afinal de contas, no último poema, chorando a ausência da amada, ele prometeu: “Puedo escribir los versos más tristes esta noche”. Ora, Neruda que me perdoe, mas não há versos mais tristes do que aqueles encomendados por Waldery Areosa para homenagear a si próprio. Vejam só como inspiram tristeza, desânimo e desalento:
- Filho do rio Solimões, da terra brotei, caboclo sou eu, educador me tornei.
Caboco educador
São versos tristes não apenas porque têm rima fácil, métrica descuidada e qualidade literária duvidosa, que os tornam incapazes de incitar no ouvinte o gozo estético. São tristes porque foram encomendados para puxar-saco de quem tem dinheiro, revelando que a criatividade popular é sempre assassinada, quando tentam subjugá-la e dominá-la. Foi o que aconteceu com os versos pagos por Waldery. Ele procurou comprar a alegria do povo, por um preço barato, para lucrar, vendendo-a por outro preço, muito mais caro. Fingiu que os moradores do São José o escolheram livremente, considerando o$ $eu$ mérito$.
- Fiquei muito surpreso com a notícia de que minha vida iria pra avenida -  declarou aos jornais na maior cara de pau.
Com todo o respeito, quem é Waldery no jogo do bicho para ser figura tão popular no bairro São José? Waldery Areosa Ferreira é empresário rico e bem sucedido, que compra e vende educação e, agora, cultura, para quem pode pagar, o que não é o caso dos integrantes da Grande Família. Dono do Centro Universitário do Norte (Uninorte), frequentador das colunas sociais, ele – elezinho – foi o tema do enredo, que gastou cerca de R$ 500 mil para colocar no sambódromo quatro mil figurantes, distribuídos em 25 alas e cinco carros alegóricos, todos eles cantando a saga heroica do ‘caboco educador’, que vem substituir o saudoso ‘caboco mamador’, conforme registram os “versos mais tristes” do samba-enredo.
Quais foram os mecanismos perversos que permitiram transformar tanta alegria em tristeza? Talvez seja possível descobri-los, discutindo a disputa pelo controle do carnaval entre duas grandes forças sociais, apresentadas aqui de forma esquemática e maniqueísta por razões didáticas: de um lado, o povo, que quer se divertir, de outro, os empresários, que buscam o lucro.
O carnaval é festejado em todos os países do mundo. No entanto, cada povo celebra a festa de uma forma diferente, imprimindo nela o seu jeitão de ser, a marca de sua identidade. O brasileiro fez uma mistureba maravilhosa com as contribuições de africanos, europeus e índios, para manifestar sua alegria coletiva, sua criatividade e seu dinamismo. Vendo um milhão de pessoas pulando no Galo da Madrugada, em Recife, ninguém duvida que toda essa energia poderia iluminar uma grande cidade, bastando apenas ligar um fio elétrico na bunda de cada passista e nos pés de cada sambista. As leis da termodinâmica nunca falham.
Muitos observadores da realidade nacional passam a acreditar no Brasil por causa do carnaval, que torna visível a força do povo, a capacidade de mobilização e organização popular, responsável pela realização de algo muito belo e rico. Pessoas com capacidade de liderança arregimentam parentes, vizinhos e amigos, confeccionam indumentárias, costuram fantasias, fazem esculturas, ensaiam, versejam, compõem música, tocam diferentes instrumentos, dançam, pintam e bordam, inventando a maior manifestação de cultura popular do planeta.
Banguça meu coreto
No entanto, o bicho pega quando a indústria cultural transforma o carnaval num negócio lucrativo, substituindo a comunidade que organizava a diversão por profissionais remunerados a peso de ouro, encarregados de conceber, gerenciar e vender o produto carnaval de acordo com a lógica do mercado. Isso vem acontecendo com as escolas de samba do Rio de Janeiro, que colocam 50 mil sambistas na Sapucaí, constituindo o maior show-business do mundo e servindo de modelo para outras capitais. No Rio, os bicheiros. Em Manaus, o caboco-educador, a Multibrás e outras empresas.
As escolas de samba, porém, constituem um dos espetáculos mais badalados do carnaval, mas não necessariamente o mais importante. Em todas as cidades brasileiras, começaram a surgir centenas de blocos de rua, sem patrocínio de ninguém, com gente mascarada e fantasiada, jogando confete e serpentina e cantando marchinhas, marchas-rancho, sambas antigos, frevo, maracatu. Mantém o espírito da irreverência, da crítica e do deboche, além de um certo caráter anárquico e subversivo, ao contrário dos desfiles do sambódromo, que são oficiais, com hora marcada, regulamento e manifestações de apreço ao senhor diretor.
No Rio, já são mais de 400 blocos. Um deles – o Bagunça meu Coreto - foi criado nesse carnaval por moradores da Praça São Salvador, vizinhos, familiares e amigos do bairro da Laranjeiras. O desfile, que terminou no coreto, foi comandado pela bandinha Lira de Ouro e contou com um público diferente do que aparece na televisão: não tinha silicone, lipoaspiração ou botox, ninguém ficou com vergonha de mostrar barriguinha, havia crianças de colo e bebés desfilando em carrinho, e até mesmo deficientes físicos em cadeira de roda.
Hoje, domingo, dia 13 de fevereiro, à tarde, haverá o último desfile de bloco no Rio de Janeiro. Trata-se do Barangal, organizado pela turma do Posto 9, que vai desfilar pelo calçadão de Ipanema, exibindo suas cores laranja e verde. Sambas irreverentes serão tocados por um aparelho de som, que fica dentro de um carrinho de gari - uma lixeira laranja da Columb, que vai sendo puxada ao lado do vendedor de cerveja. É, portanto, um equívoco, avaliar o carnaval apenas pelos versos tristes dos walderys, que roubaram a cueca do povo pra fazer pano de prato. Olhemos a BICA, sua criatividade, sua alegria e sua irreverência, lembrando o poema 20 de Neruda: “Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido”.
P-S. De um lado, agradeço a interlocução com os textos inspiradores de Welton e Mônica. De outro, insisto: mais de dois anos se passaram. O governo Lula completa hoje 774 dias, sem que tenha sido homologada a demarcação, em áreas contínuas, da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol.

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