CRÔNICAS

A MANIÇOBA DO SEVERINO

Em: 29 de Maio de 2005
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Os empresários paraenses, reunidos num almoço no Clube de Lojistas (CDL) de Belém, devoravam gulosamente uma maniçoba completa, com folha de maniva, charque, toucinho, mocotó, costela, paio, chouriço, orelha e rabo de porco. Quem se encontrava no meio deles, enchendo também sua pança, era o presidente da Câmara de Deputados, Severino Cavalcanti, se sentindo como pinto, ou melhor, como porco no lixo. Depois da sobremesa, sob aplausos gerais, ele se levanta, arrota o creme de cupuaçu e perpetra longo discurso, narrando o início de sua carreira como camelô pobre em São Paulo.
- Comecei comprando coisas na rua 25 de Março e na avenida Pajé pra vender na estação ferroviária. Com três meses, já tinha seis pessoas vendendo pra mim. Passava só de manhã e de noite para pegar o apurado. Virei empresário”.
Gargalhadas na plateia. Entusiasmado, Severino pega corda, relatando como traiu sua classe de origem e se tornou dono de uma fábrica de estojos em Pernambuco, de onde viajava a Belém para vender seus produtos aos joalheiros locais. Entre seus clientes estava o empresário Jaime Pontes, vice-presidente do CDL.
- Com esse negócio dos estojos, passei a vir aqui no Pará tirar o dinheiro do Pontes, falou, apontando o empresário sentado a seu lado durante o almoço.
As peripécias de Severino Cavalcanti, o espertalhão, que confessa como passou a perna nos outros, são festejadas pelo público local, que não tem o menor pudor em ser puxa-saco-de-severino. Crente que estava abafando, o orador sorri, fecha o punho direito aproximando-o da boca como se fosse um microfone, e disfarça mais um arroto, com aquela fineza que o caracteriza. Passa, então, a criticar a demarcação das terras indígenas, garantida pela Constituição que ele, como presidente da Câmara, devia obrigatoriamente defender.
- As terras devem ser dadas para quem trabalha e não para os índios, que não pensam em trabalhar, porque não aprenderam a trabalhar”. No final, é aclamado como se fosse um estadista: “Vamos trabalhar juntos para construir esse Pará, usando essas terras que estão dormindo o sono da inocência quando poderiam ser usadas para produzir”.
Festival de boçalidade
Diante desse festival de boçalidade, os índios reagiram prontamente. Dezenas de organizações, encabeçadas pela COIAB – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – assinaram um manifesto que começou a circular na internet. A Arlete recebeu e enviou pra irmã dela, a Sirlene, que mandou pra Malu, minha amiga de exílio, que passou pra mim, pro Felipe, pra Zezé e pro Renato, pedindo a este último que enviasse pro Ziga. Aproveito e repasso parte dele pra ti, leitor (a), pedindo que o envies a teus amigos.
O documento manifesta “profunda indignação” e uma “ponta de desgosto” em relação às declarações preconceituosas de Severino. “Os motivos de nossa indignação são vários. Em primeiro lugar, as terras em que vivemos não nos foram e nem nos são dadas. Muito pelo contrário, a maior parte das terras em que viviam nossos antepassados foi tomada pelos invasores e pelo Estado Nacional que aqui se formou. Hoje o direito sobre o pouco que restou delas nos é reconhecido pela vigente Constituição Federal. Estas terras, portanto, são nossas de fato e de direito”.
“Nós vivemos em nossas terras muito antes da existência do país chamado Brasil.Trabalhamos nestas terras antes mesmo que qualquer homem branco nelas houvesse pisado e continuamos trabalhando até hoje, mesmo quando o Poder Público mostra-se omisso no reconhecimento aos nossos direitos e no apoio às nossas atividades produtivas”.
“Em nossos trabalhos preservamos nossos hábitos, costumes e formas de organização social. Por isso, nossos trabalhos não prejudicam a terra, pois somos diferentes dos não-índios, que exploram a exaustão os recursos naturais para satisfazer sua ambição de riqueza e poder. Na aldeia, desde cedo nós aprendemos a amar, a respeitar e a tirar da terra somente aquilo razoavelmente ela pode nos dar ”.
“Nós não derrubamos a floresta, não poluímos os rios, não exterminamos os animais, não escavamos a terra, não explodimos as pedras, não comercializamos nossa biodiversidade, enfim, nossa relação com a natureza é de harmonia e reciprocidade, pois se não fossemos nós o meio ambiente em todo o mundo estaria em uma situação muito pior”.
Obsceno e malicioso
O manifesto dos índios revela a tragédia do processo que levou o esgoto do pais ao poder: “É, pois, uma terrível afronta ao Estado Democrático de Direito, que um líder do Poder Legislativo Federal ignore o que a Lei Maior desta nação prescreve em seu art. 231, quanto ao reconhecimento de nossos hábitos, costumes, formas próprias de organização social e às terras que tradicionalmente ocupamos desde tempos imemoriais. Pensar da forma como pensa o senhor Severino Cavalcanti é ser intolerante, é ser antidemocrático, é retroceder no tempo, é querer anular todas as conquistas obtidas com a evolução da humanidade”.
“Infelizmente, como chefe de uma das Casas do Poder Legislativo Federal o senhor Severino Cavalcanti não parece disposto a reconhecer e reverter essas omissões históricas, pelo contrário, recomenda aumentá-las, negando os direitos territoriais indígenas constitucionalmente estabelecidos”.
“Infeliz foi a declaração do Presidente da Câmara dos Deputados. Revelou ignorância e foi extremamente injusta. Numa mesma tacada, deixou de reconhecer a contribuição dos povos indígenas na construção da Sociedade Brasileira e inverteu o sentido das perdas territoriais que tivemos e continuamos tendo nesse processo penoso de homologação. Foi uma tentativa obscena e maliciosa de retratar nossos povos como privilegiados e preguiçosos. Ao fazê-lo, o senhor Severino Cavalcanti mostrou-se totalmente equivocado, estigmatizou o povo indígena, revelou seu preconceito e fez acusações graves sem nenhum conhecimento de causa”.
O manifesto conclui afirmando: “Por fim, lamentamos que essas palavras tenham saído da boca de um homem público. Repudiamos a evidente atitude antidemocrática, discriminatória e racista da autoridade Parlamentar de uma nação que se pretende democrática, multi-étnica e civilizada”.

Com seu discurso boçal, atrasado e burro, Severino, na realidade, cuspiu no prato em que comeu, porque ainda que ele desconheça, só foi possível encher sua pança com maniçoba, porque há 5.000 anos os índios do norte da Amazônia, com seu trabalho e sua inteligência, não apenas domesticaram a mandioca, cuja folha moída serve de base a esse prato regional, mas também descobriram o processo de neutralizar seu veneno. Ou seja, se não fosse a sabedoria indígena, Severino hoje estaria envenenado. Num certo sentido, ele está intoxicado, é verdade, mas com outro tipo de veneno, que ataca o cérebro e o coração. A mediocridade triunfante de Severino e dos empresários paraenses que o aplaudiram envergonham e ofendem a parte sadia e pensante de nosso país..

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