CRÔNICAS

NÃO ALMOÇO COM QUEM QUER ME JANTAR

Em: 09 de Outubro de 2005
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Se o presidente Bush quiser comer jaraqui frito, pode até importá-lo de Manaus, mas vai ter de comê-lo sozinho, porque não conseguirá comprar ninguém decente para sentar-se ao seu lado à mesa. As pessoas de bem estão fugindo dele como o capiroto foge da cruz, condenando-o como criminoso de guerra.
Foi o que aconteceu há duas semanas com a escritora Sharon Olds. Convidada a almoçar na Casa Branca, ela recusou afirmando algo mais ou menos assim: “Não almoço com quem quer me jantar ”. Sharon Olds é uma mulher corajosa, inteligente, sensível e bonita. Com 63 anos, apresenta ainda uma beleza outonal, como pode ser comprovado em foto recente. Escreveu poemas, ganhou prêmios e já publicou oito livros de poesia, entre os quais, “Satanás diz”.
Além de poeta, Sharon Olds é professora da Universidade de Nova York, e lá ministra um curso de literatura criativa. Leva seus alunos universitários aos hospitais, onde trabalham com pacientes várias horas por semana, fazendo exercícios de redação com deficientes físicos e doentes com limitação motora. Usa a poesia como terapia, provando que poesia cura vítimas de apoplexia, faz cego ver e paralítico andar .
Há quinze dias, ela escreveu carta à primeira dama Laura Bush, mandando-a, com muita classe, lamber sabão, e aconselhando-a, com muito respeito, a cheirar seu pé. Fiz uma tradução livre da carta para compartilha-la com os leitores do Diário do Amazonas. Ai vai o que ela escreveu.  
Carta a Laura Bush
Cara senhora Bush,
Escrevo para lhe dizer porque não posso aceitar o seu amável convite para participar, no dia 24 de Setembro, do Festival Nacional do Livro, nem comparecer ao almoço na Biblioteca do Congresso, nem muito menos ao café-da-manhã na Casa Branca.
De certo modo, trata-se de um convite extremamente tentador. A ideia de poder recitar poemas e de falar para 85.000 pessoas que assistem ao Festival muito me atrai. A possibilidade de encontrar novos leitores é apaixonante para um poeta, não apenas por razões de ordem pessoal, mas também pelo desejo de que a poesia sirva aos que a escolhem, a todos aqueles que, como nós, necessitam do prazer e da inspiração, interior e exterior, que a poesia proporciona.
Além do mais, pensar na formação de uma comunidade de leitores e escritores é, há muito tempo, algo que alegra o meu coração. Como professora de criação literária na faculdade de uma importante universidade, tive a sorte de organizar algumas oficinas fora de série, nas quais os professores eram justamente os meus alunos. Durante anos, eles deram aulas em vários lugares, entre os quais diversos institutos públicos da cidade de Nova York, uma prisão de mulheres e uma sala de oncologia infantil. Há vinte anos desenvolvemos atividades num hospital público com 900 camas, destinadas a pessoas gravemente incapacitadas e deficientes físicos, propiciando com isso o nascimento de sólidas amizades entre jovens doutorandos em Belas Artes e os seus alunos, hospitalizados crônicos que com o seu humor, a sua coragem e a sua sabedoria acabaram se convertendo em nossos professores.
Nós convivemos com pessoas que não podem falar e quase não podem se mover, mas que são capazes de escrever o seu novo poema apenas com um dedo do pé, letra a letra, num grande tabuleiro alfabético de plástico. Foi assim que conhecemos de perto a paixão pela escrita e descobrimos sua essência. Diante de uma mulher completamente paralítica que não pode falar, e só consegue mover os olhos, um de nós segura um pequeno quadro alfabético de cartolina, e mostra para ela primeiro o A, depois o B, a seguir o C, o D, até chegar a uma letra, que é a primeira letra da primeira palavra da primeira linha do poema que a mulher ficou redigindo na sua cabeça durante toda a semana. Ela, então, levanta os olhos para dizer que sim quando vê que tocamos a dita letra. Quando isso acontece, surge para nós imediatamente a certeza de que o ser humano deseja criar e quer se expressar, de forma pessoal, com precisão, honradez e engenho, da mesma forma que percebemos a importância da escrita, que celebra o valor da história singular e da música que toca dentro de cada pessoa.
Por isso, a perspectiva de participar de um festival de livros me pareceu maravilhosa. Era uma oportunidade única que me ofereciam para falar das nossas experiências de criação literária. Pensei na possibilidade de vender e autografar alguns livros e de conhecer alguns cidadãos de Washington, DC. Pensei também que poderia tentar encontrar uma maneira respeitosa – já que sou sua convidada – para manifestar minha firme convicção de que não deveríamos ter invadido o Iraque. Podia aproveitar o seu convite para denunciar publicamente que invadir outra cultura e outro país – com a conseqüente perda de vidas e mutilações dos nossos bravos soldados e também da população civil iraquiana em seu próprio território – não surgiu como uma vontade da nossa democracia. Ao contrário, foi uma decisão tomada ‘de cima' e imposta ao povo americano com uma linguagem manipulada e com informações falsas. Esperava mostrar o meu medo por estar vivendo nas sombras da tirania e do chauvinismo religioso, que é o extremo oposto daquilo que a nossa Nação aspira: a liberdade, a tolerância e a diversidade.
Tratei de me convencer que devia participar do Festival, para aproveitar essa oportunidade e protestar – como uma americana que ama o seu país, os seus princípios e a sua escrita – contra esta guerra não declarada e devastadora.
No entanto, desisti. Não aceito o convite, dona Laura Bush, porque não poderia suportar a idéia de ter de compartilhar o pão com a senhora. Sei que se me sentasse a seu lado para comer, me sentiria como se estivesse perdoando o que considero ações selvagens e arbitrárias da Administração Bush.
Aquilo que me vinha à mente era que eu estaria recebendo os alimentos da mão da Primeira Dama de um governo, cuja administração detonou esta guerra e deseja a sua continuação a qualquer preço, a ponto de permitir a ‘rendição extraordinária': o transporte de pessoas para outros países onde serão torturadas por ordem nossa.
Muitos norte-americanos que tinham orgulho do nosso país sentem agora vergonha e angústia pelo atual regime de sangue, mutilações e fogo. Imaginei as toalhas limpas da sua mesa, os talheres brilhantes e as chamas das velas e não pude agüentar.
Atenciosamente

Sharon Olds
 
P.S. Numa entrevista aos jornais, Sharon Olds fez uma declaração que merece ser transcrita aqui: “Acho que a comunidade humana é para os poetas como a comunidade de pássaros é para os pássaros, quando cantam uns para os outros. O amor é um dos motivos pelos quais cantamos uns para os outros, amor à própria língua, ao som, ao próprio ato de cantar e aos outros pássaros”.

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