CRÔNICAS

O CHE PODE ESTAR VIVO

Em: 05 de Fevereiro de 2006
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Envio essa crônica de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, horas antes de tomar um ônibus para Vallegrande, situada a 260 km. de distância daqui. Foi lá perto, na quebrada del Yuro, nos arredores do povoado de La Higuera, que o exército boliviano, com assessoria norte-americana, prendeu e executou Ernesto Guevara, o Che, depois de desbaratar a coluna guerrilheira que ele comandava.
Naquele dia 9 de outubro de 1967, a notícia chegou aos jornais do mundo inteiro, via telex. Na redacão do jornal carioca O SOL, onde eu trabalhava, houve uma consternação geral. Ninguém queria acreditar, porque com o Che morreriam também nossas esperanças na construção imediata de um mundo melhor.
Segundo os primeiros despachos de uma agência noticiosa, era certeza certa: o Che morrera mesmo em combate. No entanto, outra agência acenava, sem muita convicção, para algumas ambiguidades que cercavam o fato. Era só o que a gente precisava para alimentar, com um fiapo de esperança, as nossas dúvidas.
No dia seguinte, todos os diários e emissoras de rádio e TV no mundo inteiro anunciavam em manchetes nas primeiras páginas a morte do comandante Ernesto Che Guevara, com exceção do bravo, valoroso e docemente panfletário O SOL. A nossa manchete foi a que aparece como título dessa crônica: “O CHE PODE ESTAR VIVO”.
Vida em vermelho
Na viagem a Vallegrande, levo comigo o belo livro “Che Guevara – A vida em vermelho”, do escritor mexicano Jorge G. Castañeda. Estou terminando de lê-lo. Foi editado no Brasil pela Companhia das Letras. É uma biografia do Che Guevara, escrita com muito cuidado, rigor e talento, que me servirá de roteiro.
Castañeda escarafunchou documentos em arquivos públicos da Argentina, Cuba, Bolivia, Estados Unidos, Inglaterra, Rússia e México. Mas também em arquivos privados: cartas de namoradas do Che, de amigos, de familiares, além de ter usado técnicas de história oral para entrevistar muitos protagonistas que participaram de perto dos acontecimentos.
O resultado é um livro gostoso de ler, que mostra aspectos da vida diária de Ernesto Che Guevara, revelando-o em sua dimensão humana, familiar e política, com seu gênio e suas imperfeições. Ele era romântico, generoso e irreverente, a tal ponto que como presidente do Banco Central de Cuba não hesitou em assinar simplesmente “Che” nas novas notas de dinheiro emitidas pelo governo cubano.
Castañeda entrevistou os pais do Che, tios, irmãos e primos. Dedicou longas páginas aos constantes ataques de asma e ao papel de Célia, a mãe, com quem ele tinha especial ligação. Recolhe depoimentos de sua professora, Elba Rossi, de um amigo de infância, o vendedor de doces Rosendo Zacarias, do garçon do hotel frequentado pela familia Guevara. Não escapa nem a empregada doméstica e babá do Che, Rosário Gonzalez.
As mulheres do Che
As mulheres que existiram na vida do Che vão surgindo ao longo do livro. Sua primeira namorada, a argentina Titina Ferreira; a amiga íntima da faculdade de medicina, Tita Infante; a assistente social de um leprosário no Peru, Zoraida Boluarte, com quem teve um romance fugaz durante sua passagem por Lima; a outra peruana que conheceu no México, com quem se casou e teve uma filha e tantas outras.
Uma delas, a guerrilheira Zoila Rodrigues Garcia, mulata de rara beleza, confessou: “Ele me olhava do jeito como os rapazes olham as garotas, e me deixou muito nervosa. Era um olhar um pouco travesso. Como mulher, gostei muitissimo dele, sobretudo do olhar. Tinha uns olhos tão bonitos, um sorriso tão tranquilo que mexia com qualquer coração, comovia qualquer mulher”.
Para quem gosta de fofoca, Castañeda, com muito respeito, conta que o Che teve vários filhos fora dos casamentos, um deles com Rosa Perez. Informa também sobre o barraco armado pela cubana Aleida March, sua segunda esposa e mãe de seus quatro filhos, quando soube do caso de Tânia, a guerrilheira com o Che, antes de ambos partirem para a Bolívia.
O martírio
Castañeda avalia a participação do Che na guerrilha da Sierra Maestra, em Cuba, a tomada do poder, suas atividades no Banco Central e no Ministério de Economia, a amizade com Fidel Castro, mas também as divergências e contradições ideológicas no contexto da disputa do movimento comunista internacional entre a União Soviética e a China. Discute a saída do Che para lutar na guerrilha do Congo, onde quase morre.
O livro termina com o Che e seus guerrilheiros - “um bando de esquálidos fantasmas barbados” - acuados pelo exército na quebrada del Yuro. O Che ainda pensava em tomar de assalto a cidade de Vallegrande para dai romper o cerco militar rumo a Cochabamba. Não conseguiu. Foi cercado. Com a pistola descarregada, ele grita: “Não disparem. Sou Che Guevara. Valho mais vivo do que morto”.
Preso, Guevara e seus homens percorrem lentamente os dois quilômetros até La Higuera, numa espécie de procissão da qual participaram centenas de moradores do lugar e os soldados armados. Quando lá chegaram, Guevara ficou preso na escola do povoado, em uma sala miserável com chão de terra batida. Naquele momento, em La Paz, o alto comando boliviano decidia que destino daria ao Che.
Na Bolivia, não havia pena de morte, nem prisão de alta segurança onde o Che pudesse cumprir sua pena. O governo do general Barrientos temia uma campanha internacional pela libertação do prisioneiro. Decidiram liquidá-lo o mais rápido possivel. Os soldados tiraram a sorte. O escolhido para assassinar o Che, preso e ferido sem gravidade, foi o tenente Mário Terán. Tomou várias doses de uísque e disparou seis tiros no tórax, um dos quais varou o coração.
O corpo, amarrado a uma maca preso ao trem de pouso de um helicóptero, foi levado para Vallegrande. Conta Castañeda: “Ali o Che foi lavado, arrumado e posto em exibição na lavanderia do hospital de nuestra Señora de Malta”. No inicio, o governo boliviano tentou encobrir o assassinato, mas os jornalistas descobriram facilmente, pelo laudo médico e através de testemunhas, que ele fora executado.
Todos os que participaram do assassinato do Che já morreram, com exceção de Gary Prado, hoje general. Ele conta que depois de amputarem as mãos do Che, seu corpo foi cremado e suas cinzas espalhadas pela região de Vallegrande.
Agora, leitor (a), me dá licença. Vou tomar o ônibus para Vallegrande. Quase 40 anos depois, quero conferir no teatro dos acontecimentos, com os meus próprios olhos, a manchete do jornal O SOL. Quem sabe, o Che ainda pode estar vivo? Te conto no próximo domingo o que verei nessa peregrinação em que me sinto como qualquer devoto de Nossa Senhora da Penha que sobe de joelhos as escadarias da igreja. Afinal, (desculpa a pretensão) todo Paulo Coelho tem o caminho de Santiago que merece.

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3 Comentário(s)

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Pablo Freitas comentou:
24/02/2013
Parei de assistir o filme “O Sol, caminhando contra o vento”, para pesquisar a matéria sobre a qual fazem referência, que afirma uma possível sobrevivência de Che Guevara, mesmo após o anúncio oficial de sua morte (“Che pode estar vivo”). Encontrei um artigo, na Internet, do professor Bessa Freire, com quem tive a oportunidade de cursar etnohistória, numa disciplina eletiva que fiz durante o bacharelado em ciências sociais. Depois, ao voltar para o vídeo, tive a boa surpresa de assistir o depoimento do professor Bessa no meio de tantas outras vozes conhecidas e pouco conhecidas de nossa cultura. Vale a pena ler o artigo completo no endereço ao final do texto e assistir esse filme sobre uma idéia genial que deu certo na hora certa. Salve, Pablo
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Pablo Freitas comentou:
24/02/2013
O texto ao qual me refiro no comentário anterior é este: "O Che pode estar vivo". Tinha divulgado o comentário como nota numa rede social e copiei de lá. Tenho dois estudos do professor Bessa sobre os índios no estado do Rio de Janeiro, que foram meu primeiro contato com seus textos, assim como a crítica literária dos escritores viajantes que estudamos em suas aulas. Uma grande satisfação poder acompanhar suas publicações, seja na Internet ou em revistas e livros. Reencontrei um texto seu, depois de terminar o bacharelado, em um livro que chegou até a escola onde eu lecionava através da distribuição de vídeos indígenas, acompanhados dessa publicação, que o Vídeo nas Aldeias distribuiu para escolas as públicas. Recomendo a todos a leitura do Guia para professores e alunos do Kit “Cineastas Indígenas: Um outro olhar”. Disponível no endereço: http://www.videonasaldeias.org.br/2009/noticias.php?c=33
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Leonard Costa comentou:
10/06/2012
Gostei da crônica. Che continua vivo!
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