CRÔNICAS

A FÁBRICA DE SARAPATEL

Em: 19 de Março de 2006
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Estou em Vitória. Fui convidado pela Universidade Federal do Espírito Santo para fazer parte de uma banca de doutorado. Já que estou aqui, aproveito para visitar a aldeia ‘Três Palmeiras’, que fica bem pertinho. Lá, sou recebido pelos meus amigos guarani. Os índios todos – velhos, jovens e crianças - se reúnem numa grande maloca. O papo rola. Ouço as histórias que eles contam de macacos safados, antas burras e outros bichos.
Anoto tudo, pensando: “Ôba! Já tenho assunto para a crônica desse domingo”. Pretendia compartilhar contigo, leitor, algumas dessas deliciosas narrativas. Mas de noite, ao retornar ao hotel, leio na Internet a manchete do Diário do Amazonas:
“AMAZONINO E MARCELO SERAFIM FAZEM A GUERRA DAS TARTARUGAS”.
Então, bicho por bicho, fico com a tartaruga, por causa da notícia. Hoje, portanto, nós vamos comer sarapatel.
Curral de tartaruga
O fato aconteceu mesmo, não é inventado. O aguerrido vereador Luiz Fernando (PTN- viche!), do grupo político derrotado nas últimas eleições de Manaus, demonstrando desassombrada coragem, denunciou o secretário municipal Marcelo Correia (PSB), filho do prefeito Serafim Correia, acusando-o de criminoso, autor de delito que brada aos céus e pede a Deus vingança.
Por causa desse crime hediondo e inafiançável, o destemido edil exigiu o afastamento do secretário e sua prisão. Que crime foi esse? Por acaso, Marcelo malufou, marcovaleriou, dudou ou negãozou? Não! Vai ver, então, ele melomerendou, cordeirinhou, belarminizou ou roberiou? Necas de pitibiribas! Bom, se não estuprou, matou, construiu mansão com dinheiro público ou comeu a merenda escolar das crianças, qual, afinal, é o seu crime?
É crime municipal, estadual ou federal? Dando uma de juiz, o vereador antecipou a sentença. Segundo ele, Marcelo transgrediu o artigo 29 da Lei dos Crimes Ambientais, porque mantinha em sua casa um curral clandestino de tartarugas, engordando-as com o objetivo – quem sabe? – de ter matéria prima disponível para uma fábrica clandestina de sarapatel enlatado, destinado à exportação, ou talvez para a produção de armação de óculos.
Os fiscais do IBAMA, que tem poder de polícia, foram na conversa do vereador e vasculharam a casa do secretário, pensando que iriam encontrar um exército de tartarugas, tracajás, jabutis, mata-matás, capitaris, iuraras, muçuãs e outros bichos de casco. Mas só viram mesmo a Tequinha Correia e a Preta Correia passeando, em passos arrastados, pelo jardim, depois de terem soprado as velinhas do bolo de aniversário.  
Preta e Tequinha
Tudo aconteceu justamente na quarta-feira, quando os Correia comemoravam dois aniversários: o da Tequinha, que completava 60 anos de vida bem vivida, e  o da Preta, que faz 54 anos hoje, dia de São José. Elas duas são tratadas como se fossem membros da família. O prefeito as considera como suas irmãs, a tal ponto que Marcelo, antes de sair, costuma pedir:
- Sua benção, titia.
Preta e Tequinha têm carteira de identidade, cpf, certidão de nascimento, de batismo e de crisma, passaporte brasileiro e português, estão com a documentação toda regularizada, reconhecida pelo Tabelião Lukita, com aquela mãozinha vermelha e o dedo indicador apontando: “Reco. O referido é verdade e dou fé”. Ah, também estão com o IPTU em dias e sabem o que é inclusão digital!
O chefe de fiscalização do IBAMA, Adilson Cordeiro, constatou que as duas tartaruguinhas – Preta e Tequinha - tinham Unimed e gozavam de perfeita saúde, salvo uma ligeira dispnéia que de quando em quando ataca a Pretinha, deixando-a ofegante. Depois de examinar toda a papelada e de ver que estava tudo em ordem, Adilson pediu desculpas e se despediu:
- Até logo.
- Até logo é o cacete! - protestou o secretário Marcelo Serafim, indignado com a armação que lhe aprontaram. Completou:
- Querem tartaruga? Pois bem, tartaruga terão.
Chamou a imprensa e os fiscais do IBAMA e levou todo mundo, em comitiva, até à mansão da Rua Belo Horizonte, bairro de Adrianópolis, onde reside dona Tarcila Mendes, mulher de Amazonino Mendes, o candidato derrotado à Prefeitura de Manaus.
Tracajás torturados
“Ai dentro tem tartaruga”, disse o secretário Marcelo, sustentando que quem criava muito tracajá de forma irregular era o ex-governador Amazonino Mendes, conhecido entre amigos como “Negão”. Marcelo mostrou documentação enviada ao IBAMA pelo advogado do PSB, Luciano Dávila, relatando os maus tratos que faziam com os bichos de casco.
Chamado às pressas, Amazonino declarou:
- Não precisa de mandado judicial para entrar aqui e cumprir a lei. Se minha mulher está criando tartarugas, o IBAMA deve apreender os quelônios. Deixo claro que é minha esposa que está criando, até porque eu nem gosto de comer tartaruga. (Data vênia, ele está mentindo. Ninguém despreza um sarapatel, ainda mais aquele preparado pela Chachá, que deixa neguinho e negão lambendo os beiços e emocionado como diante de um belo poema).
De qualquer forma, os fiscais entraram na mansão de Adrianópolis e aprenderam onze quelônios enormes que, ao contrário da Tequinha e da Preta, não tinham nome, nem identidade. Destinadas ao abate e consumo, eram mantidos em cárcere privado, estavam imundos, com colares de ceroto em volta do pescoço, unhas sujas de terra, além de caspa e chulé. O caseiro confessou que as bichinhas – tadinhas - eram torturadas ouvindo o cd “Cidadão”, com músicas cantadas pelo alferes Ronaldo Tiradentes.
O edil Luiz Fernando, inventor da fábrica de sarapatel, não tem nenhuma atuação em favor do meio ambiente, jamais defendeu qualquer animal. De repente, do nada, manifesta preocupação com a Preta e a Tequinha. Dá para desconfiar que sua denúncia foi feita em nome de interesses pessoais para sacanear o poder municipal e não em nome do interesse público. Isso revela que ele não está fazendo o papel de oposição que devia fazer e para o qual é pago: criticar as políticas municipais e fiscalizar o uso das verbas públicas.
Quem fica se preocupando com duas tartaruguinhas no quintal alheio é porque não tem mesmo o que fazer. Devoto de Santa Etelvina, Luiz Fernando, sem querer, deu atestado de idoneidade ao secretário municipal, porque vasculhou a vida do outro e nada encontrou de sério e relevante. O trambique virou contra o trambiqueiro. O Negão precisa mudar o seu meio de campo, porque com atletas como esse o seu time vai perder todas.
P.S. – Vocês viram a declaração do presidente da Assembleia Legislativa na quarta-feira? Para justificar o emprego sem concurso de sua parentada, Belão jurou que “os Lins e Albuquerques são competentes porque descendem de alemães e não de tribo indígena”. O Belão, filho de alemão? Quá-quá-rá-quá-quá!. Heil, Belão! Puité-munhangara!
 

 

 

 

 

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