CRÔNICAS

O AMAZONAS DE CHUTEIRAS

Em: 23 de Abril de 2006
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“A seleção brasileira é a pátria em chuteiras”. Essa frase do escritor Nelson Rodrigues bastante conhecida, pretende destacar o futebol como elemento representativo da alma nacional, muito mais do que a literatura, a música, a política, a religião, a culinária, o humor ou qualquer outra forma de manifestação cultural.
Efetivamente, em algumas semanas, quando a seleção entrar em campo na Alemanha, estará acompanhada de 186 milhões de brasileiros. É como se houvesse uma trégua na luta de classes. De repente, se forma uma unidade, independente das diferenças sociais, etárias e sexuais, das origens étnicas, dos credos religiosos ou dos partidos políticos.
Sempre me incomodou compartilhar os mesmos sentimentos com Maluf, Amazonino Mendes, Collor de Mello, Antônio Carlos Malvadeza, enfim, esse time da pesada, reforçado recentemente com os Delúbios e os Silvinhos.  Mas é o que vai acontecer na Copa do Mundo. É o milagre do futebol. Sofreremos juntos e, juntos, festejaremos.
Quando o Ronaldinho Gaúcho der o primeiro chute na trave, os nossos corações baterão uníssonos: tuc-tuc. Com o gol brasileiro, todo mundo vai gritar de alegria no mesmo momento: Lula e Alckmin, Heloísa Helena e ACM, Serafim e Amazonino, o bom e o mau, o pobre e o rico, o velho e o menino, o negro e o branco, o índio e o caboco. É a Pátria em chuteiras.
A chuteira baré
Mas quem calçou chuteiras nessa semana foi o Amazonas com a homenagem feita pela Câmara Federal a Thiago de Mello, por iniciativa da deputada Vanessa Graziottin (PC do B). O poeta entrou na Câmara como a seleção brasileira entra em campo, juntando, pela primeira vez, a bancada do Amazonas no Congresso Nacional, independente das divergências e do vigor do combate político. E conseguiu emocionar a todos eles.
Até eu fui lá. No dia do índio, era dia do índio, 19 de abril, tirei do guarda roupa meu paletó abafa-banana cheirando à naftalina, troquei a sandália pelo sapato, peguei o avião e fui a Brasília dar um abraço no poeta amigo. Não fui barrado na entrada da Câmara, porque o companheiro Marinho, do Gabinete da deputada Vanessa, me emprestou sua gravata cinza, com palavras de ânimo: - “Está combinando”.
Já engravatado, caminhando pelos corredores da Câmara, perguntei ao jornalista Iram Alfaia: - “Quem foi convidado para o evento?” Dentro do espírito da pátria em chuteiras, ele respondeu: - “Todo mundo”.  Fez-se silêncio. Insisti: - “O Capiroto vem?”. Enigmático, Iram disse: “- ELE foi convidado”. 
- “Valei-me minha Santa Etelvina!” – pensei olhando para a ponta da minha nova gravata. Pedi à padroeira de todos nós, amazonenses, que me livrasse do Capiroto, responsável - segundo denúncias do vereador Ari Moutinho - pela agressão que sofri em 1997. Confesso que para não ter de encontrá-lo, rezei baixinho 853 vezes a jaculatória “Doce coração de Maria, sede a minha salvação”. Ela me salvou. O Negão não compareceu.
Tá certo. Torcer junto, ter o mesmo sentimento, tudo bem! Mas ele lá e eu aqui. A Heloísa Helena sente a mesma alegria do Toninho Malvadeza com o gol do Brasil. Mas cada um comemora em sua casa, com sua tchurma. Eles não se abraçam ou trocam gentilezas.
Acontece que se tratava de um evento político-cultural. Era certa a presença do Secretário de Estado da Cultura, Roubério Braga. No entanto, como ele é capirotinho, o santo dele é fraco. Para tirá-lo da jogada, bastou rezar vinte vezes a jaculatória que minha mãe me ensinou: “Jesus, Maria, José, minh’alma vossa é”.  Berinho também não botou o pé lá.
O terreno estava relativamente limpo. Restavam, no entanto, os parlamentares do PMDB (viche), do PP (viche! viche!) e do PFL (viche! viche! viche!), contra os quais não tinha oração que desse jeito. Decidi, então, pedir aos orixás humildade para encontrá-los numa boa. Para essas ocasiões – anota, leitor (a), pode te ser útil um dia – nada melhor do que a jaculatória “Sagrado Coração de Jesus, fazei o meu coração semelhante ao vosso”.
A bancada amazonense
Dessa forma, protegido e blindado, e na agradável companhia do poeta Élson Farias, presidente da Academia Brasileira de Letras e de sua esposa, assisti, ao som do “Raízes Caboclas”, a abertura da exposição que foi feita no hall da taquigrafia, em cujas paredes havia um grande painel com os artigos do Estatuto do Homem.
Depois, às 18:00 horas, no salão nobre, houve a solenidade em homenagem a Thiago, presidida pelo próprio presidente da Câmara Federal, Aldo Rebelo (PCdoB). Havia muita gente. Parlamentares de expressão nacional, dos mais diferentes partidos. Heloisa Helena e Babá, Fernando Gabeira, Luiza Erundina, além do ator Sérgio Mamberti, representando o ministro G. Gil, escritores e jornalistas, todo mundo querendo abraçar o poeta, o que dá a ideia da dimensão nacional de sua obra.
Aldo Rebello fez um belo discurso. Segundo ele, deputados são eleitos para representar o povo por quatro anos. Mas poetas, romancistas e artistas são representantes eternos do povo, com um mandato perene, porque sua obra tem o poder de encantar. Os discursos de Vanessa e Eron destacaram o milagre, pela primeira vez, da unidade da bancada.
Efetivamente lá estavam todos os parlamentares amazonenses: os três senadores Arthur Virgilio, Jefferson Peres e Mestrinho e todos os deputados, com exceção de Silas, que não se encontrava em Brasília. Eles fizeram um jogral, cada um lendo artigos do poema “Estatutos do Homem”. De Manaus vieram os deputados Eron Bezerra, Sabá Reis e Arnoldo Andrade, além de Flávia Grosso, da Suframa.
A importância latino-americana da poesia de Thiago pode ser dimensionada pelas presenças de pessoas como o embaixador de Cuba, Pedro Zambrano, e o Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados, Luis Varese, admiradores declarados de sua obra.
 A cidade de Manaus não podia ficar de fora. Esteve representada por Roberto Campainha, que falou em nome do prefeito Serafim Correa (PSB). No mesmo momento em que o poeta era homenageado em Brasília, no dia do Índio, o prefeito Serafim - que não pode sair de Manaus para evitar capirotices - ao lado do secretário de educação José Cyrino, assinava a contratação de doze professores indígenas. É a primeira vez que a nossa cidade se preocupa com os cidadãos indígenas que nela moram. Prometo ao leitor uma crônica especial sobre esse tema.

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