CRÔNICAS

OS SANGUESSUGAS E A FLOR

Em: 28 de Maio de 2006
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Ele e ela, em Brasília, na Câmara de Deputados. Nascido em Eirunepé, ele assessorava um parlamentar envolvido com a venda de ambulâncias superfaturadas via emendas orçamentárias. Ela, mineira de Uberaba, trabalhava na Comissão de Orçamento. Os dois não se conheciam. Já haviam se cruzado várias vezes no labirinto dos corredores do Congresso Nacional, sem despertar qualquer tipo de atração mútua. Não podiam imaginar que os deuses conspiravam para que o rio Juruá desaguasse no Jequitinhonha.
Restaurante da Câmara. Na hora do almoço, ele ocupou uma mesa detrás dela. Ficaram de costas um para o outro. Ela conversava com uma amiga. Frases cochichadas entre risos, quiquiquis e piscadelas cúmplices. Ele começou a prestar atenção na conversa. Ficou sabendo que ela era divorciada, estava sem faxineira, não perdia um capítulo de ‘Cobras e Lagartos’ e estava encantada com o ‘Foguinho’. Gostava de batom sem brilho, em tom marrom. Usava gel transparente de extrato de tomate e pepino para eliminar as olheiras. Tinha medo de ficar com microvarizes. Há dias, chorou de dor, depilando o sovaco e a virilha com cera quente. “Para ficar bonita, é preciso sofrer”.
Sei os teus seios
De vez em quando, ela baixava a voz e ele escutava pedaços truncados do diálogo, quase inaudíveis. Ela estava zangada, muito zangada, com alguma coisa - “uma baixaria”, cometida por uma funcionária da Planam, de Mato Grosso do Sul, uma tal de Iris, Isis ou Ibis, a quem ela chamava, com ironia, ora de “Ex-gostosa”, ora de “Quase-Linda”. Ele demorou deliberadamente a sobremesa e prolongoooooou o cafezinho, coletando mais informações. Ela era mãe de, pelo menos, dois filhos, um deles, vendo-a trocar de roupa: - pô, mãe, você tem uns peitinhos lindos. E o outro: - cara, você é maluco? Ela é nossa mãe!!!
Ela baixou o tom de voz para terminar de contar a história. A amiga incentivava, pedia mais. Ele se sentia como um “voyeur”, brechando pelo buraco da fechadura. Levantou-se, saiu do restaurante, mas ao passar por ela conferiu, discretamente, com o rabo do olho, tentando adivinhar o que estava escondido debaixo da blusa decotada. Confirmou: os filhos da mãe haviam feito uma avaliação correta.
Dias depois, encontro casual no elevador. Ele reconferiu a avaliação filial, espionando através da manguinha frouxa da blusa. Tentou puxar papo: - Que calor horrível! Ela confirmou sem olhar prá ele: - É. E ele, cujo olhar tentava, como um periscópio, penetrar pelo decote: - será que amanhã vai fazer mais calor? Ela: - é possível. Ele: - o calor de ontem parecia pior. Cledimir, o ascensorista, anunciou: - Quinto andar! Ela desceu antes que ele fizesse o prognóstico do tempo para a próxima semana.
Quinze dias depois, a Comissão de Orçamento criou um Grupo de Trabalho (GT) para elaborar, no prazo de um mês, um relatório sobre as emendas orçamentárias. A Portaria nomeava dez assessores, entre os quais ele e ela. Na instalação do grupo, os dois foram formalmente apresentados e ele, constrangido, descobriu que ela, sinceramente, até então nem havia reparado na existência dele.
O GT começou discutindo a estrutura e o conteúdo do relatório. Ela tomou dois cafezinhos, opinou alguma coisa sobre gráficos, tabelas, licitações e venda de ambulâncias que ele não conseguiu entender porque não via outra coisa, estava com idéia fixa, pensando obsessivamente nos versos do poeta português Alexandre O’Neill: “sei os teus seios, sei-os de cor”. Concordou com quase tudo. Discordou apenas de uma proposta dela: a de que a Comissão devia realizar uma única reunião semanal.
- Nunca! Um trabalho sério exige pelo menos quatro encontros semanais, e ele frisava o pelo menos com fervor, olhando de soslaio os peitinhos. Defendeu a proposta com tal eloqüência que conseguiu sua aprovação. O zelo, a seriedade e a dedicação dele foram objetos de elogios dos colegas e do Doutor Almeida, chefe de Gabinete. Ele não se sentiu culpado. Afinal, se o nariz de Cleópatra modificou a história do Império Romano e interferiu nos destinos de César e Marco Aurélio, porque os peitinhos dela não poderiam influenciar na qualidade de um relatório? Considerasse a Administração, em todos os seus atos, a beleza de todos os peitinhos, e a eficiência burocrática certamente aumentaria.
Momoge e Pitchuca
As reuniões semanais rotineiras passaram a ser esperadas com crescente ansiedade, mas ele não conseguia fixar-se no conteúdo das discussões. Os dados estatísticos sobre as emendas orçamentárias soavam aos seus ouvidos como ruídos estranhos e perturbadores. Ela foi soltando a língua e tagarelando. Ele bebia todos os gestos dela, uma coroa de beleza outonal, beirando os quarenta anos. “Para quem nasceu em Eirunepé, era um filezão” – pensava, sem qualquer censura.
Ele procurava sentar-se sempre num ângulo que favorecesse a contemplação dela. Em cada reunião descobria um detalhe novo: o jeito de rir, a forma de demonstrar preocupação mordendo levemente o lábio inferior, as mãos alisando os cabelos castanhos, enrolando-os detrás do pescoço sinuoso. Aí emergiam os versos de O’Neill: “Para a frente, para cima, despontam, alegres, os teus seios. Vitoriosos já, mas não ainda triunfais” ...
Quando o GT concluiu seu relatório, os dois já estavam envolvidos seriamente num caso amoroso. Na intimidade, ela o chamava de ‘Momoge’ e ele a tratava de ‘Pitchuca’, segundo as gravações telefônicas. Mas estavam também envolvidos com uma quadrilha. Participaram do esquema que desviou mais de R$ 110 milhões em todo o País, manipulando licitações e comprando ambulâncias superfaturadas, em conluio com mafiosos de prefeituras corruptas.
Momoge’ e ‘Pichtuca’ foram presos pela Polícia Federal, na chamada Operação Sanguessuga, com outros assessores de parlamentares, empresários, ex-deputados e uma funcionária do Ministério da Saúde. Da quadrilha fazem parte também um senador e dezenas de deputados, que recebiam antecipadamente até 15% do valor das emendas. O dinheiro chegava aos gabinetes, no prédio do Congresso, dentro de malas, metido na cueca e nas meias dos chefes do esquema, Darci Vedoin, dono da Planam e seu filho.
O crime abominável de desviar dinheiro da saúde para o enriquecimento pessoal foi cometido no horário de trabalho por pessoas que freqüentam igrejas evangélicas ou templos católicos, rezam, gostam de novela, casam, tem filhos, comemoram aniversários, são capazes de apreciar peitinhos bonitos e de amar, revelando dessa forma que, como no poema de Allen Ginsberg, uma flor pode nascer em cima de um montão de merda. Já que a Câmara e o Senado decidiram que os parlamentares criminosos ficarão impunes, fica a pergunta: nas próximas eleições, o eleitor vai puxar a descarga?
P.S. – Mario Diogo de Mello, 93 anos, lança no próximo dia 31 de maio, no Palácio Rio Negro, seu livro de memórias. Ele tem muita coisa pra contar. Foi vereador, prefeito de Boca do Acre, deputado estadual, e é avô de duas francesinhas lindas que vi nascer: a Maíra e a Tainá. Márcia Magrela, por favor, vai lá e compra um exemplar pro teu tio.

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