CRÔNICAS

O PROFESSOR E SUAS GRAVATAS

Em: 25 de Junho de 2006
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Era o único cidadão do bairro de Aparecida que não tinha apelido, o que era um milagre. Também não tinha sobrenome, o que em Manaus é quase um crime. Chamava-se Guilherme. Simplesmente Guilherme.
 
Convivia com outros tantos xarás, como o Guilherme P.V., vulgo Porca Vadia, ou o Guilherme Catarrento. Mas como era invocado e cismou que dava aulas, as pessoas de boa vontade outorgaram-lhe o título, que ficou incorporado ao seu nome: professor Guilherme.
 
A banca de tacacá
 
De tardinha, esgotado da jornada fatigante, ele vinha, invariavelmente, descansar na banca de tacacá da Dona Alvina, na esquina da Xavier de Mendonça com a Alexandre Amorim, bem em frente à igreja velha. A turma do croquete de pirarucu fazia o jogo, tratando-o como catedrático: - “Muito trabalho, professor Guilherme?”
 
Se a pergunta era feita respeitosamente, sem deboche, ele colocava a pilha de livros e cadernos sobre o banco, ajustava – no pescoço – o nó da indefectível gravata, abotoava o paletó surrado e falava bonito: - “O sistema de educação é proclítico. Os alunos são anafiláticos. E ainda por cima (ele batia com os dedos nos cadernos), tanta tarefa pra corrigir... Vida de professor é dura como pupunha, você compreende?”
 
A turma do croquete compreendia.
 
O professor Guilherme falava horas, mesmo que ninguém o estivesse escutando. Sala de aula, para ele, era qualquer lugar: a praça, a banca de tacacá, a porta da igreja. Os alunos eram os moleques do bairro. Andava com os bolsos cheios de giz. Era um apaixonado. Acreditava – com ingenuidade? – que os conhecimentos que possuía deviam ser repartidos generosamente, democraticamente, com todo mundo.
 
Era, sobretudo, pontual. Interrompia a conversa para dizer: - “Com licença, eu vou chegando, os alunos me esperam”. Aí caminhava em direção ao Grupo Escolar Cônego Azevedo. Professor em regime de tempo integral e dedicação exclusiva, dava suas aulas imaginárias nos três expedientes. Dizia ter orgulho de seus ex-alunos, o poeta Luís Bacellar, o pintor Moacir Andrade e o senador João Bosco Ramos de Lima.  
 
Segundo o professor Guilherme, os meninos dos turnos matutino e vespertino eram “bastante irrequietos e desobedientes”. Gostava mais dos alunos da noite, porque eram adultos e “mais considerados”. Era de noite, justamente, quando ele se sentia mais realizado como pedagogo.
 
Mas não era qualquer noite. Quando a lua iluminava os buracos dos estreitos becos do bairro, ele também se sentia iluminado. Dava aulas – uma atrás da outra - obedecendo rigorosamente os horários. Quando a sineta soava lá dentro do ´Cônego Azevedo´, aqui fora, ele também terminava suas aulas.
 
O ser e o nada
 
-“A contra-história se escreve de noite” – ele costumava repetir, entre profético e enigmático, sem que ninguém compreendesse o profundo significado da frase, até o momento em que foi dado o golpe militar na madrugada do dia 1º de abril de 1964.
 
O professor Guilherme só se esquecia do tempo no dia em que tinha aula de filosofia. Esquecia até de fazer a chamada e perdia o controle da classe. Ele adorava filosofia. Nas noites de lua cheia, ficava horas e horas discorrendo sobre a vida, o tempo, o espaço, o infinito, a fenomenologia do espírito, a crítica da razão pura, o ser e o nada.
 
- “O ser é. O não-ser não é” – ele ensinava com um estranho brilho nos olhos. Didático e metafísico, oferecia, de quebra, um exemplo para ilustrar sua tese, retirando do pescoço a inseparável gravata:
 
- “Isto aqui é. É uma gravata. O que é uma gravata? É uma gravata. Ela é. Agora, se desaparece (escondia-a rapidamente no bolso), deixa de ser. Não é mais. Ou melhor, ela passa a ser o Nada. O que fica no lugar dela? O Nada. E o que é o Nada? Nada. A ausência do ser é angustiante” – gritava ele, já completamente enrouquecido, iluminado pelo luar.
 
Tinha boa formação, esse professor Guilherme! Lia tudo o que caía em suas mãos, desde os almanaques do Capivarol e Biotônico Fontoura, até um exemplar ensebado do Tesouro da Juventude, com algumas páginas faltando, que trazia sempre debaixo do sovaco. Tinha excelente memória e uma capacidade impressionante para armazenar informações.
 
Sua inspiração, no entanto, cessava na lua nova. Aí, ele que era tão responsável, faltava às aulas. Nas noites escuras de Manaus do Cabo “C”, ninguém sabia onde se escondia o professor. Estaria ele procurando, no forno do lixo do Plano Inclinado, alguma gravata velha -  sua eterna fixação?
 
Nas noites escuras, o professor ficava quietinho, sentado no porto das catraias, chorando mansamente porque não via a lua refletida nas águas do igarapé de São Raimundo. Quando o primeiro galo cantava, longe, lá na colina, ele se levantava e ia pra sua casa – um barraco feito de restos de caixote, detrás da taberna do Mário Soeiro, onde vivia sozinho. Houve tempo em que morou com Fernando Gogó, de quem parecia ser parente.  
 
Os loucos de rua
 
Depois de educar tantas gerações, o velho guerreiro se aposentou. Perdeu a paciência. Sentado na banca da Dona Alvina, ele sentia, pelo tom de voz, quando havia deboche ou aspas na palavra professor: “- Oi, ´professor´, muito trabalho hoje?”. Ele revidava em cima da bucha: -“É a tua mãe, filho duma égua”.
 
Numa terra onde até boto é mestre, Guilherme jamais ganhou um centavo por suas aulas. Enfrentava, agora, duros momentos de incompreensão. Os alunos da nova geração o abandonaram, não fingiam mais que eram seus discípulos. Escondidos detrás das árvores, gritavam: - “Guilherme Doido! O seu Urbano vai te levar pro Hospício”.
 
Aí ele se enfurecia. Jogava pedras, gritava palavrões e corria detrás da molecada.  Ofegante, ansioso, o coração bate-que-bate, sentenciava entre uma pedrada e outra: “Estudante do Brasil, tua missão é a maior missão. Batalhar pela verdade, impor a tua geração!” Depois disso completava: “Assim, não tem professor que agüente”.
 
O professor Guilherme não agüentou. Seu corpo amanheceu um dia balançando numa árvore, na rua Wilkens de Matos, detrás de seu barraco. Enforcou-se, usando as 88 gravatas velhas amarradas em nós complicados. O magistério perdeu um de seus baluartes. As ruas e becos de Aparecida, um dos seus doidos mais mansos.
 
P.S. – Rogelio Casado, psiquiatra, fundador da Associação Chico Inácio - uma ong de familiares, usuários e técnicos de saúde mental - participou da comemoração do Dia Nacional de Luta Antimanicomial, na Câmara dos Vereadores de Manaus. Com a vereadora Lúcia Antony (PC do B), Rogélio luta pela inclusão dos loucos na vida da cidade. No seu blog (www.rogeliocasado.blogspot.com/), lançou um desafio: “Quem se habilita a escrever lembranças sobre os loucos da nossa infância?”.

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