CRÔNICAS

A SABINADA E O NEGÃO

Em: 09 de Julho de 2006
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Na década de 1970-80, na França, cada vez que um machão covarde espancava uma mulher, o Movimento de Libertação Feminista (MLF) fazia manifestações de protesto nas ruas.  Às vezes, as manifestantes organizavam comandos de ação e davam o troco, surrando o agressor. Testemunhei um caso desses no boulevard Saint Michel, ao lado da minha amiga Marilza Mello. Se duvidas do que te conto, leitor (a) incrédulo (a), vou te mostrar.
Vem. Embarca comigo num avião da Varig – não, da Varig não, da Air France – com destino a Paris. Lá chegando, te apresento um cidadão francês chamado Raymond Sabinô Chateau Blanc Méchant. Ele é aquilo que os franceses chamam de “un vrai con”. Foi eleito vereador de Paris por um partido conservador e corrupto – a UDR (merde, merde!).
Entrevistado por nós, o nobre edil Sabinô conta que um dia sentou a porrada em sua esposa. O que aconteceu? As militantes do MLF, reforçadas por alguns homens com sensibilidade feminina e democrática, gritaram na porta de sua residência: “Sabinô, salaud, le peuple aura ta peau”. Ele levou um sabacu arretado, foi preso, processado e cassado.
Meter a colher
Mais de trinta anos depois fato similar acontece em Manaus. O vereador Raimundo Sabino Castelo Branco Maués (PFL – vixe, vixe!), principal cabo eleitoral de Amazonino Mendes, encheu de alegria a cara de sua mulher, Vera Lúcia. Como é que foi a história? Relembro o que saiu nos jornais.
Era segunda-feira, 3 de julho, 15:00 horas. Havia calma no condomínio Residencial Ponta Negra I, na zona Oeste. De repente, moradores e alguns operários em construção ouviram gritos. Na rua Equador, viram Sabino Maués, com uma mangueira de jardim na mão, cobrindo a própria mulher de porrada. Sabino Maués, mau és, mau foste, mau serás.
A seqüência de fotos publicadas por esse Diário é impressionante. Dona Vera, que é delegada da Polícia, está com a cara arrebentada, o olho direito inchado e alguns dentes quebrados. Socorrida por vizinhos, foi atendida no hospital com ferimentos na cabeça, pescoço e braços, além de escoriações no ombro por ter sido arrastada no asfalto.
O delegado-adjunto da Polícia Civil, Lázaro Ramos – o Foguinho – confirmou que dona Vera foi atendida em dois hospitais, mas assegurou que ela não havia registrado a agressão na Delegacia Especializada de Crimes contra a Mulher. Dois dias depois, em entrevista coletiva, Sabino jurou: “Foi tudo um acidente”. Dona Vera concordou.
Ninguém acreditou. Ai, né, o advogado de Sabino, José Fernandes Jr, justificou: mesmo que seu cliente tivesse espancado a esposa, isso é um problema privado, do casal e ninguém tem nada a ver com isso. Não é uma questão pública. Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher, não é bebé?
Taí. Vale a pena discutir isso. Pode um cidadão, parlamentar ou não, espancar a mulher, machucá-la, feri-la, comprometendo sua integridade física? Se o faz, isso pertence ao campo do privado, da mesma forma que o ato amoroso? Ele é dono do corpo dela? Um jornalista que registra o fato está invadindo a intimidade do casal?
Socorro, Papoula!
Alguns machões defendem a porrada, desde que “criteriosa”, na intimidade do lar, nunca publicamente, e apenas “quando a mulher merecer” ou, inspirando-se em Nelson Rodrigues, “se ela gostar de apanhar”. Mas eles só são machões quando enfrentam mulheres indefesas. Por isso, não querem que outros se metam na história, para não mudar a correlação de forças. Na Delegacia de crimes contra a mulher ficam todos encagaçados.
Várias mulheres corajosas, dignas do MLF francês, resolveram meter a colher, sim senhora. A coordenadora estadual da União Brasileira de Mulheres (UBM), Vanja Andréa Santos, encaminhou à Câmara Municipal um pedido de cassação do Sabino, que é também candidato a deputado federal pelo PFL (Vixe! Vixe!). O pedido foi reforçado por Socorro Papoula, presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. Grandes mulheres, temos orgulho de vocês!
O documento delas será lido no plenário da Câmara, amanhã, dia 10 de julho, uma data simbólica para nós amazonenses, porque nesse dia, em 1884, o governo da Província, Theodureto Souto, decretou a extinção da escravidão no Amazonas. Esperamos que nessa data, a Câmara renove seus ideais libertários e nos livre do Sabino e de todos machões, amém.
São caras como Sabino Castelo Branco Maués que – imagina só! - fazem as leis que eu e tu, leitor (a), somos obrigados a cumprir. Essa é uma razão a mais para que a gente meta a colher nessa história. Além de prestar solidariedade com o mais fraco, o que está apanhando, se trata de um comportamento político sobre quem nos representa.
Afinal, quem é esse Sabino Maués no jogo do bicho? O site da Câmara informa que é investigador da polícia e radialista. Em dois mandatos eletivos, se tornou membro da 10 ª Comticc, da 9 ª Comcph; da 5 ª Comagri, da 12 ª Comet, da 13 ª Comdih, além de ser suplente da 2 ª CCJR e da 14 ª COMVIPAMA e chegou, imaginem só, a presidir a CEC.
O site não informa que diabo é Comticc, Comcph e outras mumunhas, mas boa coisa não deve ser para ter como membro um cara que já foi preso, em janeiro de 1990, num ônibus na fronteira com a Bolívia, acusado de carregar 10 quilos da pasta base e 60 gramas de pó de cocaína. Truculento e inescrupuloso, foi ele que, na qualidade de cabo eleitoral de Amazonino Mendes (PFL – Vixe! Vixe!), inventou nas últimas eleições um filho para Serafim Corrêa (PSB).
Sabino vai ser cassado? Ouçamos a voz do dono, seu chefe, Amazonino Mendes, candidato derrotado a prefeito de Manaus nas últimas eleições e, agora, outra vez, candidato a governador. Em entrevista a Rádio Nova Olinda, em fevereiro, Amazonino declarou: “Compra-se a consciência de políticos, compra-se juiz, desembargador. Compra-se tribunais de um modo geral: tribunal de contas, ministério público”.
Fala a voz da experiência. Ninguém sabe se o Negão estava fazendo uma denúncia ou um relatório de suas atividades. Afinal, ele tem conhecimento de causa, porque atua no mercado de compra e venda de consciências e sabe do que está falando. Tem até tabela de preço. Quem somos nós, humildes servos do Senhor, para desmenti-lo? Só esperamos que aqueles juizes, desembargadores e políticos que são honestos tomem providências para lavar a honra ultrajada.

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