CRÔNICAS

O DESEMBARGADOR FURUNFADO

Em: 16 de Julho de 2006
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A grande pergunta, intrigante, que não quer calar, que está entalada na garganta, que permanece sem resposta, mesmo depois da morte de tia Gertrudes, e que ainda hoje domina as conversas nas reuniões, nos aniversários e na ceia de natal da nossa família nos últimos trinta anos é a seguinte: tio Nelson e Hilda furunfaram ou não furunfaram?
Leitor(a) amigo (a), para que ajudes minha família a decifrar esse enigma inquietante, te apresento os personagens, sem máscaras. Tio Nelson era um bode erótico, lúbrico e libidinoso. Um galinha. Ele não podia ver uma saia, especialmente a saia justa que modelava o corpo de violão da Hilda, sua empregada doméstica.
Em matéria de sensualidade, Hilda dava de dez a zero na patroa – a tia Gertrudes, que era meio guenza e além disso mui piedosa. Tia Gege, quando comungava, se recusava a cumprir suas obrigações matrimoniais, dando um empurrão no marido: “Sai pra lá. No dia em que recebo o corpo de Cristo, nenhum pecador entra ni mim”.
O diabo, se me permitem a força de expressão, é que titia comungava diariamente, nos 365 dias do ano. Por isso, tio Nelson passou a fazer justiça com as próprias mãos. Toda vez que Hilda entrava no banheiro, ele ficava brechando pelo buraco da parede. Tornou-se um delinqüente sexual. Buzinava nos peitinhos das sobrinhas menores de idade, pegava na bunda das primas maduras e acochava as cunhadas velhas. Era um tarado.
Actio furunfactorum
Até aqui tudo é fofoca familiar. Mas eis o que eu queria dizer de transcendental: existe outro tipo de furunfagem que não pode ser tratada levianamente como disse-me-disse, porque fere fundo o coração da sociedade amazonense. Estou me referindo às declarações do ex-governador Amazonino (PFL – viche, viche!), em entrevista à Rádio Nova Olinda, de que no Amazonas se compra juizes, desembargadores e procuradores.
O Negão, em princípio, presta um grande serviço à Pátria, quando revela, publicamente, delitos cometidos por membros do Poder Judiciário. O que dá legitimidade ao seu discurso é precisamente o lugar de onde fala, é sua experiência acumulada como prefeito, senador e governador. Afinal, não é um bosta qualquer que denuncia. É o Negão, que conhece os bastidores do poder. Ele sabe o que está falando.
 
No entanto, seu discurso está incompleto, capenga, porque ele publica o milagre, mas oculta o nome do santo, o que - como qualquer estudante de advocacia sabe – contraria o direito romano. Cícero, em célebre polêmica com Catilina no Senado de Roma, criou jurisprudência: “Nulla actio furunfactorum sine homo furunfactor et sine homo furunferractus. Quousque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?”
Essa frase do tribuno romano foi traduzida com precisão por Orozimbo Nonato, eminente jurista do Piauí: “Não enche o saco, Catilina! Sem furunfador e sem furunfado, não há furunfagem”. Diante disso, indagamos: como é que o Amazonino denuncia a compra de juízes, sem dizer quem compra e quais foram os desembargadores comprados?
Homo furunfactor
São necessários dois agentes ativos para que ocorra a furunfagem. Um é o ‘homo furunfactor’ – o furunfador, isto é aquele que paga; o outro é o ‘homo furunferractus’ – o furunfado, ou seja, aquele que embolsa a grana. Nesse caso, quem são eles? O Negão não diz. Prefere usar o sujeito indeterminado, que oculta o agente da ação. “Compra-se juízes”. Mas quem é que compra? Quais são os juízes comprados?
Omitindo os nomes dos compradores, o Negão pode estar legislando em causa própria, protegendo seus coleguinhas de ofício, já que em 1997 ele, Amazonino, foi envolvido em denúncia de compra de deputados na votação da emenda constitucional que permitiu a reeleição do presidente FHC. Vocês se lembram?
Quando menciona juízes, desembargadores e procuradores, assim em abstrato, sem dar nome aos bois, o Negão desmoraliza a categoria. É como se ele colocasse anúncio na página de classificados: “Vende-se juiz novinho em folha e desembargador de segunda mão, capazes de redigir sentenças cheias de latinorum, de acordo com o gosto do freguês. Aceita-se cheque, cartão de crédito, vale transporte, ticket refeição e similares”.  
O Judiciário merece respeito porque é garantia de uma sociedade democrática. Ou o Negão sabe que existem mesmo alguns juízes venais e é legalmente obrigado a entregar os nomes dos corruptos e de seus corruptores, ou então ele caluniou os magistrados e merece ser severamente punido, da mesma maneira que o advogado Abdalla Sahdo, condenado nessa semana a cinco anos de prisão por difamar três desembargadores.
Homo furunferractus
Respeitar e defender o Judiciário significa, de um lado, identificar os juízes íntegros e honestos, que procuram saciar a sede de justiça dos brasileiros, e de outro, denunciar os corruptos. Não foi isso o que o Negão fez. Ele colocou no mesmo saco o joio e o trigo, balançou o saco e misturou tudo, dizendo que o saco estava cheio de joio, que juizes e desembargadores eram todos um bando de furunfados. Ora, não há magistrado furunfado sem um ex-governador furunfante.
O meu vizinho aqui do andar de cima, desembargador Arnaldo Carpinteiro Peres, protestou indignado: “comigo não, violão, eu sou trigo”. Foi apoiado por seu colega Ari Moutinho: “quem cala consente". Eles conseguiram que a Corte do Tribunal de Justiça do Amazonas, por maioria, mas estranhamente não por unanimidade, aprovasse nota de repúdio.   
A nota do TJA é necessária, mas no entender desse modesto escriba furunfólogo, é insuficiente. Quem redige nota e deixa ficar por isso mesmo é sindicato. Juiz, desembargador e procurador têm outros instrumentos de defesa: a aplicação da lei. A sociedade amazonense espera que seus magistrados saibam defender a dignidade do cargo e a honra enxovalhada, processando o Negão, como fizeram com Abdalla Sahdo.
O Negão tem que ter compostura de homem público. Numa entrevista a rádio, quem está falando é o ex-governador e novamente candidato a supremo mandatário do Estado, não é o parceiro do Pinduca cantando um carimbó: “Comadre, cadê o compadre, compadre foi furunfar”. O que que é isso? Dessa forma, me parece que o Negão, como o tio Nelson brechador, está tentando fazer justiça com as próprias mãos.  
Moutinho e Carpinteiro Peres decidiram interpelar judicialmente o ex-governador Amazonino. Ou ele indica quem são os furunfadores e os furunfados, ou então quem se furunfa é ele. Se todos os juízes, desembargadores e procuradores do Estado do Amazonas agirem da mesma forma, prestarão um grande serviço ao povo amazonense, porque aí, como diria Cícero, sem tradução de Orozimbo Nonato, “Justitia sin macula salvat et Negonis enrabatus est”.
P.S.1 – Meu Deus do céu, nunca pensei que meu latim de missa, aprendido no seminário de Coari, ia ter tanta serventia, numa coluna intitulada “Ecce tibi”. Quanto ao caso do tio Nelson, confirmo minha opinião: “Nelsus brocha erat et Hildam non manducavit”. Peço ao João Mauro e ao Públio, que são do ramo, que traduzam para o resto da família.
P.S.2 – Leitores cadastrados no Taquiprati.com.br estão reclamando porque houve interrupção provisória no envio das crônicas. O webmaster, responsável pela manutenção, está resolvendo o problema, com a ajuda de São Sebastião, o padroeiro dos internautas, que vai adubar o nosso site. Quando Sebastião ara o justo terreno, a situação se regulariza.

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