CRÔNICAS

UM FILHO CHAMADO MANUEL

Em: 26 de Novembro de 2006
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Escrevo de Quito. Vim participar de um congresso internacional e lançar o livro “Rio Babel – a história das línguas na Amazônia”, que pode – quem sabe? – despertar algum interesse por essas bandas. Afinal, Quito se gaba de haver descoberto o rio Amazonas, conforme se vê escrito em letras garrafais na fachada da sua catedral.
Foi daqui, de Quito, por volta de 1540, que saiu Francisco Orellana, descendo o rio Napo até o oceano Atlântico. O cronista da expedição, frei Gaspar de Carvajal, escreveu que Orellana organizou um pequeno vocabulário em língua Omagua do alto Solimões.
Mas meu tema de hoje não é Quito, nem as línguas indígenas e nem sequer um fato jornalístico da atualidade: a eleição para presidente do Equador, que se realiza neste domingo. Quero conversar sobre o Chile e sobre os donos da memória.
Lembranças perdidas
Acontece que o voo que fiz saindo do Rio fez escala em Santiago, onde fiquei um dia matando as saudades do exílio. Para falar a verdade, o que eu queria mesmo era comprar um cd da Violeta Parra, que tem uma música em homenagem a Manuel Rodríguez.
Com sua maravilhosa voz de taquara rachada, Violeta começa a música manifestando sua vontade de ter um filho para chamá-lo Manuel:
- Quisiera tener un hijo, brillante como un clavel, ligero como los vientos, para llamarlo Manuel y apellidarlo Rodríguez, el más apreciado laurel.
Em busca dessa voz e dessa música, fiz uma peregrinação teimosa por lojas que vendem cds. Explorei, primeiro, o comércio chique do bairro da Providência e, depois, as bancas de camelôs nos arredores da Praça de Armas e do mercado do Mapocho.
Não dei sorte. Não encontrei o que procurava. Até ai, dá pra entender. Mas o surpreendente é que os vendedores, quase sempre jovens, não conheciam a música, o que me deixava numa situação incômoda. Então, tentei avivar a memória deles cantarolando, com minha voz de cantor de banheiro, alguns trechos da letra de Violeta.
Escolhi os versos mais revolucionários em que a autora declara o que gostaria de ensinar, desde pequeno, pro seu filho Manuelzinho:
- De niño le enseñaría, lo que se tiene que hacer, cuando nos venden la patria, como si fuera alfiler. Quiero un hijo guerrillero, que la sepa defender”.
Ai, ansioso, eu perguntava:
- Você lembra?
Não. Os vendedores não lembravam. Não conheciam. Juravam que nunca tinham ouvido. Uma moça de pernas bem torneadas, Vanesa – o nome estava escrito no crachá – confessou: "Acabo de escutar pela primeira vez na sua voz”. Noutra loja, um cara de babaca, ironizou, duvidando: “Essa música existe mesmo?”
Minha santa periquita! Se eu pudesse voltar no tempo, convidava esse cara para uma daquelas noitadas, nos anos 1969-1970, na casa chilena de Thiago de Mello, e ele veria que todos cantávamos, brasileiros e chilenos, com mais entusiasmo ainda quando estava presente o saudoso Manduca – o filho do Thiago que se chama Manoel (em homenagem, é verdade, ao poeta Manoel Bandeira).
O ladrão da memória
Mas o que mais me chocou foi quando descobri que os vendedores, de ambos os sexos, jovens, ignoravam não apenas a música. Alguns não sabiam sequer quem havia sido Manuel Rodríguez, uma figura lendária da história chilena, que cruzou várias vezes a cordilheira dos Andes, levando mensagens secretas de San Martin, na luta pela Independência.
De uma família que tinha grana, Manuel Rodríguez foi advogado, deputado e capitão do Exército, antes de se tornar o homem mais procurado do Chile. Escapou muitas vezes de ser preso, disfarçado de bispo, de camponês e até de mulher. Mas acabou morrendo assassinado pelos espanhóis em Til Til,com a idade de 33 anos.
Esse guerrilheiro do início do século XIX, com sua figura romântica, inspirou músicos, compositores, cineastas, poetas, entre os quais Pablo Neruda. Na luta recente contra Pinochet, a esquerda revolucionária criou a Frente Patriótica Manuel Rodrigues, que era um símbolo da luta contra o opressor. Ele era venerado pelos chilenos. Como foi possível esquecê-lo em apenas trinta anos?
Lembro que com meu amigo exilado Euclides Coêlho de Souza, o maior titiriteiro da América Latina, assistimos em 1969, no Estádio Nacional, uma partida entre Santos, de Pelé e Coutinho, e o Colo-Colo., no mesmo local onde a ditadura de Pinochet matou o cantor Victor Jara. No estádio, não cabia uma agulha. Antes do jogo, os alto-falantes começaram a tocar, e a multidão se levantou para cantar o poema musicado de Pablo Neruda, como se fosse o hino nacional.
Passa a mão, leitora, aqui no meu braço. Olha só como fico arrepiadinho com a lembrança de 60 mil pessoas entoando:
- Señora, dicen que donde, mi madre dice, dijeron (…) que ahí viene galopando, Manuel Rodríguez (…)En Til Til lo mataron, los asesinos, su espalda está sangrando, por el camino. La tierra está llorando, vamos callando.
 
Os versos de Violeta e de Neruda, poetas do povo chileno, contam quem foi Manuel Rodríguez. Dessa forma, ajudam a preservar sua memória, o que é uma das funções do conto e da poesia em sociedades oralizadas como as nossas. Por isso, quando existe censura, como na ditadura de Pinochet, o povo deixa de cantar e se rompe um elo na cadeia de transmissão de uma geração à outra.  É como se matassem o guerrilheiro uma, duas, dez, mil vezes. 
O general Pinochet é, portanto, um ladrão do tempo. O povo chileno deve recuperar não apenas os milhões de dólares que ele roubou, mas as lembranças que ele apagou, retomando assim o elo perdido. Aí, o povo voltará a cantar. A música e a poesia inundarão, outra vez, os estádios, fixando na memória coletiva a saga do herói popular.  
P.S.1  - Se tiver um neto, vou chamá-lo Manuel, para que seja “ligero como los vientos”, ouviram dona Maria e seu Ed?
P.S.2 -  Por falar em memória, está acontecendo em Manaus a I Mostra Amazônica do Filme Etnográfico, realizada pelo NAVI – Núcleo de Antropologia Visual, coordenado por Selda Valle e Narciso Lobo, com uma equipe da pesada: Tomzé, Fernanda Bizarria, Erlan Moraes, Gustavo Soranz, Elione Benjó e muitos outros. A presidente do Júri é Patrícia Monte-Mor, da UERJ. No encerramento, será exibido o documentário sobre Cosme Alves Neto. Também o Aurélio Michilles, que participa do júri, está trabalhando num projeto – Tudo por amor ao cinema – destinado a homenagear a geração de Cosme.
 P.S.3 – Gente, a repórter Ariranha me manda uma notícia que me deixou de queixo caído: o Berinho fez transfusão de sangue. Mandou o Luiz Hely enviar um release para os jornais dizendo que desde o dia 16 ele está homenageando o Cosme Alves Netto com uma exposição. A repórter Ariranha conferiu a programação da SEC do dia 16 e nada constava da tal exposição. Berinho está igual o Pinochet, quer mudar o passado. Luiz Hely, meu filho, não faça isso não. Papai do céu não gosta de mentiroso.

 

P.S. 4 - Finalmente, encontrei: https://www.youtube.com/watch?v=xMF578SDs88
 
 

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2 Comentário(s)

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Ana Stanislaw comentou:
30/03/2016
Linda crônica, Bessa. Sois um exímio escritor e contador de causos. Felizmente, todos parte de tua linda trajetória de vida. Parabéns!!!!
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Manoel Lopes Costa comentou:
04/10/2010
Obrigado por abrigar, entre tantos comentários importantes, o de um provinciano dos rincões nordestinos, que sofre o calor do sol na pela e a geada do abandono no coração. Li a crônica. Talvez Sr. não tenha encontrado “vestígios” desse herói que buscou com tanto afinco entre, principalmente, jovens de “mentes sadias”.Não sei se os meus pais tiveram a mesma idéia da cantora Violeta Parra, que lamentavelmente não cheguei a conhecer as suas obras, com certeza, de grande estilo, pela forma como está
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