CRÔNICAS

BETÃO E OS PÁSSAROS AZUIS

Em: 18 de Fevereiro de 2007
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O menino nasceu num sofisticado hospital americano, onde todo mundo mascava chiclete e falava inglês. Quem fez o parto não foi a tia Mimita, mas uma obstetra americana, gorda  e peitudona, chamada Judy. Quando ele abriu os olhos pela primeira vez, viu uma placa: “Maternity. Silence, please”. Aí, em vez de chorar escandalosamente “buá, buá”, emitiu discreto pranto: “sniff, sniff”. Estava, indubitavelmente, dentro de território americano. Podia, portanto, ser gringo, se chamar Big Bob e ter passaporte dos Estados Unidos.

 

No entanto, ele se chama Roberto, de apelido Betão, é brasileiríssimo e, mais precisamente, mocorongo. Acontece que esse hospital americano ficava em Fordlândia, Belterra, no Pará. Havia sido construído pelo empresário Henry Ford para os seus funcionários, entre os quais se destacava Antônio Gomes, chefe do Almoxarifado, que é de Santarém e vem a ser o pai do Betão.

 

Na época, os trabalhadores da Fordlândia haviam plantado um milhão de seringueiras, mas todas elas foram devoradas por uma praga agrícola. O gringo ficou naquela de “nem ford nem sai de cima”, e sua empresa faliu. Desgostoso, Ford morreu em abril de 1947, dois meses depois do nascimento do Betão, cuja família migrou, então, de mala e cuia para Manaus.

 

Os Gomes de Sá vieram morar na rua Boa Sorte, ali perto da Estação de Água da Castelhana, e depois no bairro da Glória, vizinho ao Matadouro. Foi aí que Betão adquiriu sua identidade de ‘bucheiro’. Vivia pescando bodó no igarapé de São Raimundo, na jangada da serraria Hore, com seus primos Arnaldo, Arnoldo, Agnaldo e Aldo Gomes da Costa. Dia sim e outro também saía na porrada com o pessoal do bairro de Aparecida, que naquela época tinha um rixa interminável com os bucheiros.

 

- “Sai do sereno, menino!”. Era a voz da dona Chiquinha, sua mãe, que lhe deu surras memoráveis, porque ele era muito danado, só queria empinar papagaio e correr atrás do boi: - “Pisei, pisei, pisei / pisei torno a pisar / pisei ´Mina de Ouro´ / na esquina do boulevard”. Aos seis anos, pegava escondido o violão do pai, e tocava de ouvido “no rancho fundo”. Seu Antônio decidiu, então, matriculá-lo na escola de violão de Domingos Lima, lá no Beco do Macedo. Estava definida ali sua vocação.

 

Big Bob: o músico

 

 “Com meu grande mestre Domingos Lima, aprendi a ser um harmonizador, o que serviu para o resto de minha vida de músico” – reconhece Betão, que aos treze anos começou a tocar violão no Conjunto Regional da Rádio Rio Mar, convidado por seu diretor na época, o saudoso Erasmo Linhares.

 

O sucesso estourou. Foi aí que Betão recebeu proposta irrecusável para tocar no ‘La Hoje’, um cabaré famoso e popular de Manaus. O salário era o dobro do que ganhava o seu pai na Padaria Mimi, distribuindo pão e bolacha em toda Manaus. Mas o menino era ainda de menor idade e seus pais tiveram que tirar uma permissão especial no Juizado de Menores. Afinal, música é música, mas zona é zona.

 

Durante um ano e meio, todas as noites, de domingo a domingo, das 22:00 às 04:00 horas da madrugada, Betão animava as meninas do ‘Lá Hoje’, tocando no conjunto ‘Os Tropicais´, formado pelo baterista Agenor Rio Branco, sargento do Exército; pelo saxofonista Ribamar Lima, sargento da briosa Polícia Militar; pelo contrabaixista Nonato Saraiva e pelo guitarrista André do Amazonas que não eram nem soldados.

 

É o próprio Betão que avalia essa fase de sua carreira: “Para mim, o ‘Lá Hoje’ foi uma escola de vida e de aprendizagem musical. Os componentes do conjunto eram músicos profissionais, com grande conhecimento técnico e muita paciência para me ensinar, no momento em que começava minha carreira de músico”.

 

Mas essa escola de vida começou a prejudicar a outra escola – o Instituto de Educação do Amazonas, onde Betão cursava o ginasial. Sem dormir, ele começou a desmaiar em sala de aula. O doutor Hosana, médico da família, aconselhou dona Chiquinha a não deixar que seu filho continuasse trabalhando de madrugada, sob o risco de ficar ´tísico´, contraindo a tuberculose, uma doença temida na época. Assim foi feito.

 

Os Tropicais deixaram o ´Lá Hoje´ e ficaram tocando na noite de Manaus, apenas nos fins de semana, alegrando as festas nos clubes da cidade. Dali Betão saiu para tocar com ‘Os Diplomatas´, do bairro do Céu, depois para o ‘Blue Star’, que substituiu a banda ‘The Good Boys´, do bairro de Educandos e, finalmente, para o “Blue Birds”.

 

Blue Birds: a banda

 

Nos anos 70, a Blue Birds era a mais famosa banda de yê yê yê em Manaus, idolatrada pela juventude, em grande medida por causa de um baixinho, o Wandler Cunha, aquele da música ´Jogo da Calçada´, composta com Wilton Oliveira e gravada pelos ´Mutantes´. Wandler é, fisicamente, um pindobinha, mas, espiritualmente, é uma sumaumeira. Ele saiu da banda, deixando seu lugar na guitarra base pro Betão.

 

Era uma responsabilidade muito grande dirigir o vôo daqueles pássaros azuis, mas Betão deu conta do serviço. Ocupou seu lugar na banda, fez os arranjos de base do grupo, dando mais peso e consistência ao som, com profissionalismo, ética e companheirismo. De lá pra cá, a banda descobriu novos talentos, contribuiu para a formação de mais de duzentos músicos, alguns dos quais estão tocando no eixo Rio-São Paulo, como o contrabaixista da Gal Costa, Adriano Giffoni.

 

No dia 17 de junho do corrente ano, a Blue Birds completa quarenta anos. Nessa data, a banda vai apresentar no Largo de São Sebastião um show – Blue Birds in Concert -  com a gravação de um CD e de um DVD, com os grande sucessos musicais: Thunderball, Love is All, San Francisco, Roberta, New York New York, Besame mucho, Emoções, Menina Linda e quase todo o repertório de Renato e seus blue caps.

 

Enquanto tocava, Betão não esperava a banda passar. Cursou o científico no Colégio Estadual do Amazonas, graduou-se em Educação Artística pela UFAM e fez pós-graduação em Gestão Cultural na ISAE/FGV. Hoje, concilia suas atividades na banda com o trabalho de consultor cultural, em projetos no Conselho Municipal de Cultura da Prefeitura de Manaus e da Assembléia Legislativa, o que lhe permitiu organizar o maior banco de dados sobre o movimento cultural no Amazonas.

 

Betão morou sempre em Manaus, onde foi acolhido pela tribo dos Spener, casando-se com Regina, com quem teve três filhas: Roberta, que é designer, a psicóloga Renata e a jornalista Ramona. Olha só, leitor (a), quantos aniversários juntos! Betão se torna sexagenário, a banda faz quarenta anos, Regina aniversaria, e ambos completam trinta anos de casamento. Hoje, eu tinha de lhe render uma homenagem, não é mesmo?

 

Meu amigo Betão, cujo primeiro travesseiro foi os peitões da Judy, é amazonense de coração. Pelos poderes que me foram concedidos por Tuta, Rubem Rola, Aguimar, Armindo, Leonor, Teca Freire de Alencar e dona Vera Margarida, em nome do bairro de Aparecida, concedo ao Betão, que hoje completa 60 anos, o título de Cidadão Honorário dos Tocos. O referido é verdade e dou fé.

 

P.S. – Clarice Beça (1919-2007) nos deixou na manhã do dia 12 de fevereiro, levando com ela, no seu coração, um belo poema do filho, o poeta Aníbal Beça, cujo texto integral está no blog do Rogelio Casado (http://www.rogeliocasado.blogspot.com/).

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