CRÔNICAS

Na ONU, ele não: museus e línguas indígenas

Em: 29 de Setembro de 2019 Visualizações: 1962
Na ONU, ele não: museus e línguas indígenas

Louvado seja Nhanderu que, nesta terça (24), me poupou de ouvir a transmissão ao vivo do discurso inculto de Bolsonaro na ONU. No exato momento em que ele dava um show de barbárie e atacava com impropérios outros países e nações indígenas - Bolsonaro idjaywu rii waipá -  eu estava refugiado na cidade de Tupã (SP), escutando a fala civilizatória dos Guarani, Krenak, Kaingang e Terena em defesa da humanidade, da vida, da natureza, da diversidade. Foi no Museu Índia Vanuíre, no VIII Encontro Paulista sobre Questões Indígenas e Museus, uma forma de celebrar 2019 como o Ano Internacional das Línguas Indígenas, conforme decreto da ONU.

Cerca de 323 pessoas se deslocaram de suas aldeias nas terras indígenas Vanuíre, Icatu e Araribá, no Oeste Paulista, e participaram do evento, que durou dois dias. Contaram experiências dos velhos, que foram proibidos de usar suas línguas ancestrais e narraram o que fizeram para recuperar a língua silenciada: atividades na escola, no museu e no cotidiano da aldeia. Crianças e jovens de 8 a 15 anos deram depoimentos auspiciosos sobre a revitalização. As mesas foram intercaladas com cânticos e danças, numa delas o velhinho aqui participou, ofegante, movendo o esqueleto.

Na abertura, o linguista Wilmar D’Angelis, da Unicamp, que acaba de lançar o livro “Revitalização de Línguas Indígenas”, destacou a função simbólica das línguas, inclusive daquelas que foram silenciadas e que agora estão sendo retomadas: “O que se deve fazer com uma ferramenta que perdeu o fio não é abandoná-la, mas afiá-la, torná-la cortante e necessária novamente”. A museóloga e educadora Marília Xavier Cury abordou o processo de descolonização e indigenização do museu etnográfico e este locutor que vos fala discutiu o lugar das línguas indígenas no museu.

Avós: a língua afiada

Foi aí que entraram os indígenas descrevendo como afiaram a língua:

- Para nos destruir, proibiram que a gente falasse Borun, meu pai apanhou muito porque não obedecia -  disse Helena Damasceno, Krenak, que só aos 30 anos voltou a usar sua língua no cotidiano, com ajuda de um gravadorzinho, caneta e caderno. Casada com um falante de Kaingang, ela aprendeu esta língua com sua sogra. Seus cinco filhos falam Borun, Kaingang e Português: “Somos como capim tiririca, quando pisam fica amarelo, mas depois renasce e se reproduz”.

Cândido Mariano, Terena, 66 anos, cuja mulher é Kaingang, quando chegou em SP só falava Terena e sofreu muito para falar português. Lucilene Kaingang disse que a vó Jandira é sua eterna professora. Dirce ensina Kaingang para crianças que hoje estão com celular na mão. Lidiane usa o vocabulário unificado Português-Krenak do séc. XIX editado pelo Projeto de Revitalização coordenado pela antropóloga Juracilda Veiga. Susilene conversa em Kaingang até mesmo com bebé recém-nascido.

O papel das avós parece crucial na recuperação da voz ameríndia, conforme relatos de algumas delas. Maria Rita Rodrigues conta histórias para suas três netas na língua Kaingang.  Claudete Lipu só fala com os netos em Terena, que é entendida, mas não falada por seus filhos. Gleyser Marcolino, ao contrário de suas duas filhas, “não fala de berço” o Guarani Nhandewa, que aprendeu nas celebrações tradicionais religiosas.

- O Português é dominante na mídia, no supermercado e por onde você anda, por isso o Nhandewa deixou de ser primeira língua de muitos Guarani, que agora a estão aprendendo como segunda língua – disse Tiago de Oliveira, professor na escola da Aldeia Nimuendaju. Ele usa o método “Soletrando na língua guarani” para ensinar as crianças a ler e escrever. Seu colega Vanderson Lourenço vai na mesma direção com a palavra de ordem “Nheengatu sim!” como resposta à proibição da língua desde o Marquês de Pombal.

Futebol feminino

Os depoimentos das crianças e jovens reverenciaram as guardiães da língua:  – Minha avó Deolinda é meu dicionário – disse Camila Kaingang. – O que aprendemos com as avós não tem nos livros – afirmou Kaline, que não conseguiu prosseguir sua fala porque chorou com a lembrança da avó Nhandewa recém falecida.

Creiles Nunes, vice-diretora da Escola Nimuendaju, com 14 anos de magistério, relatou que ouvia histórias de sua avó Awá Poydju, falecida aos 115 anos. Hoje, ela ensina o que aprendeu contando histórias, em rodas de conversa, no acampamento cultural, cantando, rezando e até em atividades culinárias e troca de receitas de comidas típicas e de preparo de ervas medicinais.

- Não sei falar fluentemente o Nhandewa, mas estou afiando a língua com as meninas que jogam futebol feminino dentro da escola. Os comandos são todos em nossa língua que as adversárias não entendem: Emboatsa Txupe (passa a bola pra ela), Edjopy (aperta a marcação), Enupã (chuta, bate forte).

Muitas situações comunicativas, corriqueiras e familiares, foram criadas dentro e fora da sala de aula, de forma a suscitar interesse e exercitar práticas sociais e lúdicas na língua ancestral. – Na escola, até para ir ao banheiro ou beber água, temos que pedir em Borun – falou Gabriel Krenak. A revitalização começa na escola, mas não pode ficar restrita a ela, se espalha pela aldeia que é uma grande escola de línguas e se consolida no museu – disse Lidiane, professora da aldeia Vanuire.

Os museus

A valorização das línguas e das culturas vem sendo trabalhada por cinco museus indígenas no Oeste Paulista: Museu Worikg Kaingang e Museu Akãm Orãm Krenak, ambos na T.I. Vanuire, Museu Nhandé Manduá Rupá na Aldeia Nimuendaju, Museu Ekeruá Terena na T.I. Araribá e Museu de Icatu Kaingang e Terena: “Dois povos, uma luta”.  Uma mesa formada por indígenas e mediada pela museóloga Marília Cury discutiu a relação desses museus de território com a língua.

- Nossa cultura estava adormecida, o Worikg, no coração da aldeia, ajudou a despertá-la – comentou Lucilene Kaingang, gestora do Museu.  A professora Dirce explica as peças na língua Kaingang e caminha pela trilha com os alunos para ensiná-los a respeitar a natureza.

A mesa de encerramento – A língua indígena na pauta dos museus – contou com José Carlos Levinho, diretor do Museu do Índio (Funai-RJ), Marília Cury, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Lidiane Damasceno Cotui, professora da T.I. Vanuire, Andressa Anjos de Oliveira e Valquíria Cristina do Museu Índia Vanuire.

As falas indígenas revigoraram as esperanças na luta contra a bestialidade, que desrespeita um líder da estatura de Raoni, agride a natureza, a ciência, o meio ambiente e a cultura, manipulando uma índia que não representa nem ela mesma.

Meu Deus do céu, como foi vital estar entre os índios para não adoecer com o discurso fedorento e mentiroso dirigido aos porões da fábrica de fake News.  Com a humanidade envergonhada, escrevi três frases em português e pedi a meus amigos guarani para traduzi-las: Bolsonaro Pinochio, idjaywu tse wa. Também o grito da torcida no Maracanã exigindo que o atleta que joga mal peça para sair: Bolsonaro, etsẽ tereó ka’a. É isso aí: Bolsonaro, etũ nderewikwá.

P.S. – O VIII Encontro Paulista sobre Questões Indígenas e Museus foi organizado pela ACAM Portinari, dirigido por Angélica Fabbri e pelo Museu índia Vanuire, gerenciado por Tamimi Borsatto.

Participantes Indígenas do VIII Encontro Paulista sobre Questões Indígenas e Museus

 

Terra Indígena

Povos

Nº participantes

Vanuire

Kaingang

Krenak

28

56

Araribá

Guarani 

Terena

90

55

Icatu

Kaingang e Terena

94

                                                                                                                                                    Total ...... 323

Fotos do evento: Ingrid Ribeiro
Tradução das frases para o Guarani Nhandewa -  Tiago Oliveira e Vanderson Lourenço

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17 Comentário(s)

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Eunice Dias de Paula comentou:
03/10/2019
Que beleza ver essas experiências de revitalização linguística acontecendo e sendo conduzida pelas próprias indígenas! Grata por compartilhar, José Bessa
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comentou:
03/10/2019
Muito bom, Bessa. Como sempre na linha de frente pelo reconhecimentos dos indígenas brasileiros. #ELENÃO.
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Ana Silva comentou:
02/10/2019
Excelente crônica, Bessa. Pesadelo, assim que defino esse desgoverno. Cara despreparado, grosseiro, estúpido e ignorante. Vergonha!!
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Rodrigo Martins Chagas comentou:
30/09/2019
Boa tarde professor Bessa, tudo bem? Professor, o senhor fez muito bem em participar do VIII Encontro Paulista Sobre Questões Indígenas e Museus na cidade de Tupã em São Paulo. Diria que ouvir o "presidente" é tão tenebroso quanto ouvir o bispo Macedo dizendo que suas filhas até o casamento estudariam até ensino médio, pois se fizessem faculdade, fosse doutoras o casamento seria um fracasso, elas têm é que casar "com macho" segundo ele (mais sobre essa barbaridade nesse link: https://revistaforum.com.br/brasil/em-show-de-misoginia-e-machismo-edir-macedo-diz-que-proibiu-filhas-de-fazerem-faculdade-quero-que-minhas-filhas-casem-com-macho/). Mas voltando para as coisas boas, adorei saber sobre o futebol feminino Nhadewa, como amante do futebol (masculino, feminino, de praia, fut 7 ou futsal) fico encantado em saber de uma notícia tão boa como essa. No próximo jogo do Vasco que passar na TV, vou fingir ser o pofexô Luxemburgo e gritar até ficar rouco: Ribamar, Enupã, Enupã por favorrrr!! E para finalizar, gostaria muito de ver o Raoni como candidato a presidente ou vice em 2022, seria o máximo!!! Um abraço querido professor!
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Combate Racismo Ambiental comentou:
29/09/2019
Publicado em https://racismoambiental.net.br/2019/09/29/na-onu-ele-nao-museus-e-linguas-indigenas-por-jose-ribamar-bessa-freire/
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Enzo Lauriola (VIA fb) comentou:
29/09/2019
Coitado do Collodi... A terra tremeu na província de Lucca, tremores percebidos até Firenze... O autor do Pinocchio se revirando no túmulo ao ver seu nome encostado ao do inominável. Pinóquio é um mentiroso inocente, que aprende na pele a lição da Fada azul: mentiras são de dois tipos, nariz cumprido e pernas curtas. Urge maximamente no mundo hoje uma releitura profunda do capolavoro literário do escritor toscano do século 19
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MAURICIO NEGRO comentou:
30/09/2019
Tem razão quanto ao Collodi. Mas muitas vezes os autores não tem controle sobre sua obra ou personagens. É como filhos. Não são nossos. São da vida. É o ponto do Prof. Bessa é outro, naturalmente. E que frescor participar desse encontro, contraponto ao horror institucional brasileiro. É tal negócio: ignorância tem cura. Estupidez, não. Obrigado pelo testemunho, professor!
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Adriana Calabi comentou:
29/09/2019
Boa, professor! Que bom que esteve lá!
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Celeste Correa comentou:
29/09/2019
Um viva as avós indígenas que foram instrumentos para que os seus netos afiassem a língua e recuperassem a voz ameríndia. Depois de passar tanta vergonha com as inúmeras barbaridades do discurso do Bolsonaro, é revigorante saber que existe um outro Brasil que luta e resiste para manter viva a nossa cultura.
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Lucia Helena Rangel comentou:
29/09/2019
Que evento bonito!!! Que crônica bonita!!! Fiquei emocionada.
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Ivânia Neves comentou:
29/09/2019
Nos relatos de povos indígenas de norte a sul deste país, este processo de necropolítica linguística e as formas de resistência são uma recorrência. E o que é pior, agenciado pela República brasileira. Também são recorrentes as narrativas envolvendo as avós, mas aí, eu acredito que ouvir histórias contadas por nossas avós ultrapassa as fronteiras étnicas. Tem alguma coisa neste carinho de avó que nos aconchega neste planeta e nos anima a continuar a luta! Que bom ler esta crônica em meio à cafonice e à trogloditice desses dias!
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Creiles Marcolino (via FB) comentou:
29/09/2019
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Marília Xavier Cury comentou:
29/09/2019
Obrigada pela crônica elevando as relações entre Indígenas e museus. Também lembrando ao Brasil que há Indígenas no estado de São Paulo. Que venha a política pública que valorize a presença Indígena nos museus paulistas e os museus Indígenas.
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Vanderson Lourenço (WhatsApp) comentou:
28/09/2019
Li tudo, achei muito legal, ficou joia, já compartilhei com o grupo da aldeia para dar uma olhada. Quero contextualizar o grito "Nheengatu sim"" simbolicamente estou dando a resposta ao primeiro projeto de branqueamento do Marques de Pombal e que agora seus discípulos empregam o mesmo método e desprezam as culturas que existiam e que existem ainda. Hoje com muito vigor estamos dizendo sim às línguas nativas em nome de todos aqueles que sentem amor à Pátria. Esses governos fantoches do Brasil obedecem a um sistema macro. e nós combatemos porque damos importancia à causa da vida e da mãe terra.
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Tiago Oliveira (via FB) comentou:
28/09/2019
...Arrasou José Bessa!!! Uma crônica, a lá crônica, boa para ler! Enquanto uns "ka'a" na ONU, nós refletindo sobre as Línguas Indígenas no VIII Encontro Paulista de Museus em Tupã-SP (Museu Índia Vanuire)!!!
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Pedro Saldanha Vasconcelos (via FB( comentou:
28/09/2019
https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/checamos-o-discurso-de-bolsonaro-na-assembleia-geral-da-onu-veja-o-resultado/
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Sabrina Gonçalves Cruz (via FB) comentou:
28/09/2019
Professor, vc ou qualquer outra pessoa pode traduzir pra gente as frases em guarani?
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