CRÔNICAS

NO MERCADÃO, SEM CONURBAÇÃO

Em: 03 de Junho de 2007
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Na semana passada, estive em Manaus participando de um seminário sobre o futuro da região do Rio Negro, organizado pelo Instituto Socioambiental (ISA) no Teatro Chaminé. Isso me permitiu acompanhar a discussão que ocorria, fora do evento, sobre o projeto que pretende criar a Região Metropolitana de Manaus (RMM). Pude ouvir o presidente da Assembleia Legislativa, Belarmino Lins – o Belão – meter o seu bedelho, jurando que “a conurbação de Manaus é inexorável”.
 
Há quinze dias, ele nem sabia que diabo era ‘conurbação’, achando que fosse algo assim como masturbação do cônjuge. Acabou de aprender esse termo técnico, pelo qual ficou fascinado e perdido de amor. (Depois dizem que não existe amor à primeira vista!). Agora, tudo pra ele é conurbação. É conurbação pra lá, conurbação pra cá. Acredita piamente que basta usar a palavra para que, num passe de mágica, ele deixe de ser provinciano e se torne um cidadão metropolitano e cosmopolita.
 
O presidente da Assembleia vive um momento crucial que pode definir o seu destino. Sem conurbação, ele será, pelo resto da vida, Belão, o cabocão do Solimões, identidade da qual se envergonha. Mas se for criada a Região Metropolitana de Manaus, ele passará a ser Big Beautiful, o alemão, que é seu grande sonho de consumo. Por isso, vive enchendo a boca com a palavra. Toma café, almoça, merenda e janta conurbação. Por isso, também, colocou o projeto de lei da RMM tramitando em regime de urgência.

Pra falar a verdade, eu também não sabia se conurbação se come com farinha ou com pirão. Perguntei às minhas irmãs. Das nove, apenas uma soube me explicar que o processo de conurbação ocorre quando duas ou mais cidades crescem tanto que se encontram umas com as outras, passando a formar um único aglomerado urbano. Segundo os cálculos do Belão, Manaus estaria conurbada com as populosas mega-cidades de Novo Airão (7.002 habitantes), Iranduba (14.369), Careiro (16.725), Presidente Figueiredo (24.781), Rio Preto da Eva (24.283) e Manacapuru (84.6656). 

Acontece que todos os núcleos desses municípios estão separados de Manaus por enormes florestas, não existindo continuidade espacial urbana, a não ser que Belão esteja considerando como população urbana as onças, antas, capivaras, cobras, jacarés e macacos. De qualquer forma, já que me encontrava em Manaus, decidir verificar pessoalmente, ‘in loco’, o tal do “processo inexorável de conurbação”. Pensei que o melhor caminho seria visitar a Manaus Moderna. Fui.
 
Um dia, no mercadão
 
No domingo passado, sai cedinho do Líder Hotel, onde estava hospedado, e passei um dia no Mercadão.  Minto. Não foi um dia, mas uma manhã.  Na verdade, uma manhã é ainda exagero, foram apenas duas horas, tempo suficiente, no entanto, para verificar que o mercado Adolpho Lisboa, construído em 1906, está em obras, que só ficarão concluídas em 2008. Apesar disso, foi possível realizar uma avaliação sobre os avanços do “processo inexorável de conurbação”.
 
Circulei pelo entorno do antigo Mercadão, observando atentamente as barracas e quiosques do lado de fora do prédio. Ninguém me contou, eu vi, com esses olhos que a terra um dia haverá de comer, uma construção de madeira onde está instalado o “Restaurante Encontro dos Labrenses”, comprovando que Manaus pode conurbar também com Lábrea. A “Banca da Japonesa”, bem em frente ao “Box do Bulachinha”, assim como a “Rainha das Malhadeiras”, na Barão de São Domingos, em frente ao Sadala Estivas, sugerem outras formas de conubarcionismo.
 
Mas a prova definitiva de que Manaus está completamente conurbada foi encontrada no box 28, da rua dos Bares n° 46, de propriedade de N. A. Colares, responsável por embalar os remédios da farmacopéia popular e as raízes medicinais provenientes dos municípios conurbados. Quero destacar cinco desses remédios: o Viagra Regional, as pílulas do Dr. Rossi, de Pinhão Jalapa, de Creolina e o Gel com castanha do Pará.
 
O Viagra Regional é um afrodisíaco e tônico neuro-muscular com a aparência de serragem. Sua fórmula secreta contém ginseng, nó-de-cachorro, guaraná, catuaba e mirantã. Basta colocar uma colher de chá num copo d´água e beber em jejum que os efeitos se farão sentir imediatamente, me explica o profissional conhecido como Perneta, que fica em frente ao Box, orientando os clientes sobre o modo de usar.
 
As Pílulas da Vida do Dr. Rossi, apresentadas em frasco cor-de-rosa com quinze cápsulas pelo preço de três reais, são indicadas como laxativo e purgativo. Adultos tomam uma pílula e crianças meia pílula. Diariamente. Sempre à noite, antes de dormir, confirmando o que recomendava a vovó Filó, para quem existia Deus no céu e o Dr. Rossi na terra.
 
Já as pílulas de Pinhão Jalapa também têm efeito laxativo e purgativo, com a mesma dosagem e modo de usar, enquanto as Pílulas de Creolina Bactericida, num frasco com rótulo amarelo contendo trinta drágeas, ao preço de quatro reais, são indicadas nos casos de gastrite, próstata, frieira e hemorróidas, segundo o sempre solícito Perneta.
 
Se o cidadão conurbado de Manaus desconfia desses remédios, é preciso esclarecer que estão todos com um lacre de segurança, foram produzidos sob a responsabilidade de farmacêuticos com inscrição no Conselho Regional de Farmácia e tem garantia dada por Perneta, que mostra a declaração de que o produto foi considerado isento pela ANVS, de acordo com a Resolução RDC nº 23 publicado no Diário Oficial da União de 06/12/1999, seja lá que diabo isso signifique.
 
O último remédio que comprei para ter comigo a prova da conurbação foi o Gel com Arnica, um massageador que alivia as dores musculares em geral. É feito com concentrado natural de arnica, que acalma o cansaço nas pernas, provocando uma sensação de frescor intenso, e com castanha do Pará, que revigora a batata-da-perna. Contém carbopol, mentol, salicilato de mentila, extrato de arnica, óleo de castanha do Pará e água deionizada. Quer mais conurbação do que essa?
 
Diante do exposto, há quem diga que Belão não está conurbado, mas conturbado. Isso porque, em vez de tomar pílulas do Doutor Rossi, ele ingeriu doses cavalares de panvermina, aquelas bolinhas que grudam uma na outra, provocam um arroto insuportável quando espocam na barriga da gente e dão uma caganeira medonha.
 
P.S. – Renán Calheiros desobedeceu a recomendação do papa e não usou camisinha, o que, felizmente, nos permitiu conhecer um pouco mais sobre as falcatruas e a promiscuidade entre empreiteiras e poder público. Se gritar pega Renan, não fica um meu irmão. Esse era o tema da coluna de hoje. No entanto, estou há alguns dias no interior do oeste do Paraná, ministrando curso a professores indígenas, sem acompanhar o noticiário. Por isso, preferi atacar de Manaus, com Belão e conurbação.

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