CRÔNICAS

OS DESAFIOS DA AMAZÔNIA NO SÉCULO XXI

Em: 11 de Setembro de 2016 Visualizações: 3023
OS DESAFIOS DA AMAZÔNIA NO SÉCULO XXI

O estrondo da pororoca é sempre espantoso, mas nós não arregamos. Éramos apenas três amazonenses para enfrentá-la na mesa redonda "Os desafios da Amazônia no século XXI": o poeta Aldísio Filgueiras, a ex-reitora da Universidade Estadual do Amazonas, Marilene Corrêa e o tio do "Pão Molhado", que vem a ser este que digita aqui essas mal traçadas linhas. Foi no Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, quarta-feira, 7 de setembro, em pleno feriado, com público seleto que foi ouvir os palestrantes "présentes" no debate mediado pela jornalista Ana Lúcia Pardo.

O tio do "Pão Molhado", que é monotemático, definiu a Amazônia como o conjunto de línguas ali faladas, uma vez que historicamente língua e território, sempre de mãos dadas, são um binômio inseparável. Todo o território pan-amazônico cabe dentro das línguas que classificam, nomeiam, descrevem, avaliam, hierarquizam e dão sentido a tudo que lá existe: flora, fauna, rios, seres encantados, gente, narrativas, canções. Concluiu que o maior desafio da Amazônia é interromper o glotocídio de cinco séculos e manter seu atual patrimônio linguístico formado por mais de cem línguas indígenas e por várias línguas faladas em português. A Amazônia está enraizada nessas línguas que lhe deram sentido.

Raízes da Amazônia

O palestrante contou como iniciou seu interesse pelo tema, em 1966, quando saiu de Manaus para cursar jornalismo no Rio. Na primeira aula provocou estrondosa gargalhada da turma ao responder à chamada do professor. Intrigado, indagou o motivo do riso e uma colega esclareceu: "A forma certa de falar é "prêsente", com o "e" fechado". Quem fala "présente", com o "e" aberto, é pau-de-arara". Foi aí que o tio do Pão Molhado descobriu que trazia tatuado o mapa do Amazonas em seu sotaque e que qualquer pessoa ao abrir a boca exibe, além dos dentes, o fígado, as tripas, seus segredos íntimos, os recantos de sua alma, sua identidade.

Esta identidade regional começou a ser discutida em dois livros fundamentais mencionados que representam para a compreensão da Amazônia aquilo que "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque e "Formação do Brasil Contemporâneo" de Caio Prado Jr., significam para o país. O primeiro deles é O Complexo da Amazonia (1976) de Djalma Batista, que rompeu com a visão galvãobuenamente xenófoba de que a Amazônia é nossa e ninguém tasca e chamou a atenção para a pan-amazônia, território compartilhado por nove estados nacionais, laboratório histórico para comparar o processo colonial, na medida em que foi colonizado por portugueses, espanhóis, holandeses, ingleses e franceses.

O outro livro A Expressão Amazonense: do Colonialismo ao Neocolonialismo" (1977), de Márcio Souza, deu visibilidade às culturas indígenas criminosamente apagadas pela historiografia dominante. Para Márcio, A Amazônia é "um purgatório onde culturas inteiras se esfacelam no silêncio e no esquecimento A Amazônia só estará livre quando reconhecermos definitivamente que essa natureza é a nossa cultura, onde uma árvore derrubada é como uma palavra suprimida e um rio poluído é como uma página censurada".

Guardiões do atraso

O outro palestrante, Aldísio Filgueiras, que iniciou a apresentação, nos faz pensar que o olhar do poeta é sempre necessário para iluminar a realidade. Ele seduziu a plateia com discurso irônico e bem humorado:

- "O maior desafio da Amazônia no século XXI é o Brasil" - disse em tom provocativo, argumentando que "o Brasil não se tem como um projeto nacional. Se existe um Projeto Brasil, ele está sendo ditado há muito tempo pelo Fundo Monetário Internacional e outros bancos que já submeteram à sua política perversa de austeridade a Grécia, a Espanha, a França, a Itália e Portugal".

O poeta, que é membro da Academia Amazonense de Letras, considera que "Manaus ou Belém, como todas as capitais amazônicas, é a mais perfeita tradução do que hoje se reconhece como desastre ecológico ou ambiental. Não fora algumas sobrevivências dessa Amazônia que desaparece tanto do imaginário quanto aparece na realidade (o açaí, o tacacá, o tucupi, o tucunaré, a tapioca, etc), a cara de Manaus, que já se achou europeia, pode muito bem ser confundida com um acampamento de refugiados africanos".

Ele criticou o recente show "Amazonas Live" montado sobre palco flutuante em um braço do rio Negro, com Plácido Domingo e Ivete Sangalo, "que parecia mais uma líder de torcida do que uma cantora". O espetáculo visava criar condições para o plantio de três milhões de árvores no Xingu, "como se a solução fosse plantar e não parar de cortar".  Mas como parar de cortar - pergunta o poeta - "se o governo petista tinha Kátia Abreu, a musa do agronegócio no Ministério da Agricultura, e o governo golpista substituiu-a pelo campeão de desmatamento Blairo Maggi? Os dois não podem ver um pau em pé, uma árvore, sem pensar em madeira".

- A Amazônia é um arquipélago em que as ilhas não se comunicam, porque estão sob o poder dos guardiões do atraso - ele diz, acrescentando mais adiante que "A Amazônia, reflexo errado da realidade, foi criada por um erro de cálculo e sabemos que erro de cálculo derruba viadutos, passarelas à beira-mar e outros acidentes inflacionados pela propina".

Ato Criador

A terceira palestrante Marilene Corrêa usou seus conhecimentos de pesquisadora reconhecida e sua experiência como reitora e como secretária de ciência e tecnologia para apresentar uma visão global sobre o desenvolvimento da Amazônia e suas metamorfoses, a partir de uma perspectiva histórica e social, envolvendo a questão indígena e os projetos sobre a região. Mencionou uma série de pesquisas essenciais para conhecer a Amazônia profunda, ainda desconhecida dos brasileiros, sobre os biomas, os ecossistemas, a cosmovisão, os saberes ancestrais, a diversidade de línguas, ritos e manifestações culturais dos povos da floresta.

O debate sobre a Amazônia abriu a 10ª edição do Ciclo Ato Criador - Outros Possíveis, com uma extensa programação que inclui encontros, palestras, debates, oficinas, performances, saraus poéticos, instalações, intervenções e mostra artística que acontecerão de setembro a dezembro, com a parceria do Consulado da França, da Oi Futuro, da Petrobrás e de outras instituições. No mês de setembro, as atividades estão integradas ao Festival Nacional de Cultura Popular - Interculturalidades, realizado pelo Centro de Artes da UFF e o Ministério da Cultura.  

O evento que foi aberto pelo Diretor do Instituto de Arte e Comunicação Social e Superintendente de Artes da UFF, Leonardo Guelman, contou com uma apresentação musical de flauta de Michael Oliveira, nascido em Manaus, mas residente no Rio, que narrou sua trajetória em busca da identidade indígena.

P.S. - Nesta quinta-feira (8), aos 87 anos, morreu a professora Martha Aguiar Falcão, mestra querida, professora da Universidade Federal do Amazonas, pós-graduada em botânica, com vários trabalhos publicados imprescindíveis para a compreensão da Amazônia. Deixa-nos saudosos. (A PASTORAL DA FRUTA http://www.taquiprati.com.br/cronica/604-a-pastoral-da-fruta

FOTOS DE GUGA MELGAR

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7 Comentário(s)

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Walfredo Rego (via FB) comentou:
14/03/2017
Taqui, pra ti, minha cumplicidade Um dia desejei escrever com a mesma naturalidade, sutileza e sabedoria como o mestre José Ribamar Bessa Freire escreve. Muita pretensão para este caboclo lá de Itacoatiara; desejei, ainda, ter uma cultura tão universal quanto a do José Bessa, que conhece praticamente tudo sobre nativos e não nativos e diferentes culturas. Uma das características dos maninhos da Velha Serpa é achar que tudo é possível. Outra pura pretensão cabocla. Me contentei, depois que a \'ficha caiu\', que jamais seria um José Bessa. Contentei-me em ser um fã e leitor assíduo do escritor das mais inteligentes e transformadoras crônicas publicadas no Amazonas, sob o título tupiniquimbarelizado: Táqui, prá ti. Nelas encontramos o casamento perfeito da crítica política e social, escritas com o mais apurado e fino bom humor, de um mestre que não fez concessões, não medrou e disse o que queria dizer, e o que o povo precisava saber. De acordo com a informação em uma postagem no facebook, são mais de 1000 crônicas publicadas (a de número 2006 traz o título: Carta à Dilma anuncia o descobrimento do Brasil). Por fim, quero registrar que é uma honra estar compartilhando nossas ideias com o mestre Ribamar nesta rede social. Quero continuar aprendendo, mesmo via facebook, com este educador itinerante, que oficialmente atracou sua canoa em Niterói, mas deixou o coração livre para continuar convivendo, defendendo e amando os povos da floresta. Um amazônico abraço, companheiro da manhã, José Bessa!
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Maria Luiza Santos comentou:
22/10/2016
Meu muito querido Professor José Bessa, como gosto de ler o que é escrito pelo senhor. Essa aula a distância é gratificante. Um forte e caloroso abraço. Saudades UERJIANAS!!!
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Vinicius Alves do Amaral comentou:
10/09/2016
Invejo o povo de Niterói. Não é todo dia que se pode ver esses três grandes pensadores da Amazônia juntos. Para mim foi uma grande surpresa ver o nome de Aldísio Filgueiras nos cartazes do evento já que o poeta não costuma sair muito de Manaus. Tomara que mais eventos do tipo sejam realizados!
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Ana Stanislaw comentou:
10/09/2016
Excelente texto Bessa!! É sempre um.prazer ler as tuas linhas inteligentes, sempre escritas com muito esmero. Espero mesmo que os governistas conserve.m a Amazônia, respeitando e convivendo com os povos indígenas, seus saberes, línguas, que tanto enriquecem esse país.
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Falcão Vasconcellos Luiz Gonzaga (via FB) comentou:
10/09/2016
Frente a babaquice e o preconceito, um grande e espirituoso Baba.
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Sandra Benites (via FB) comentou:
10/09/2016
PENE MBARETE KE,PROFESSOR BESSA!
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Alessandra Marques comentou:
10/09/2016
Textos do professor Bessa são sensacionais, mas ouvi-lo passar todo esse conhecimento é muito melhor. Apesar desse momento temeroso em que estamos (acho que quase todos já começamos o dia preocupados com o futuro sombrio), senti grande felicidade ao assistir a palestra, alegria que um reencontro causa. Sempre admirei a habilidade que o Bessa tem com a fala, lembra-me muito a destreza dos contadores de história, daquelas pessoas que você vai ouvindo e não quer mais parar de ouvir. Obrigada pela palestra e por ter tanta vontade de passar seu conhecimento.
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