CRÔNICAS

BAMBOULA, RACISMO E NELLY, A GENGIVUDA

Em: 08 de Julho de 2007 Visualizações: 3084

De retorno ao Brasil, estava indeciso sobre o tema de hoje. Não sabia se contava aos leitores a edificante história de Bamboula, ocorrida numa escola pública da cidade de Epinal, em Lorena, nordeste da França, ou se dava um pau na Nelly, a gengivuda de Paraíso Tropical. Eis que recebo e-mail de um leitor que se apresenta com o pseudônimo de ‘Desarmado’. Ele não gostou das últimas crônicas enviadas da Alemanha e de Paris e disparou a seguinte mensagem:

“Caro Bessa, acho que você está ficando muito burguês. Em vez de ficar filosofando, você deveria continuar com o mesmo espírito revolucionário, buscando denunciar as arbitrariedades cometidas pelos políticos da tua cidade e do teu estado. Ou você se vendeu para a elite dominadora de corações e espíritos, atitudes típicas dos Amazoninos e Eduardos desse nosso querido Amazonas?”.

Discordo, mas acho que o ‘Desarmado’ merece explicações sobre minhas relações com o Amazonas, sua capital e seus políticos. Informo que não moro em Manaus. Há mais de vinte anos troquei a gloriosa cidade de São José da Barra do Rio Negro pela heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. No Rio, durante a semana, trabalho como professor em duas universidades públicas. Daqui, envio a coluna para o Diário do Amazonas e para o www.vejosaojose.com.br  de São José do Rio Preto (SP).

Sobre o que devo escrever cada semana? É aqui que o fiofó da cutia assovia. Acontece que meu corpo circula diariamente pelo Rio de Janeiro, mas minha cabeça e meu coração estão em Manaus, vagabundeando por suas ruas e becos. Por isso, a briga entre alunos do Dom Bosco e do Instituto de Educação do Amazonas (IEA) me afetam mais do que os assassinatos cometidos pela policia nas favelas cariocas. Acompanho mais de perto o que faz o prefeito de Manaus, Serafim Corrêa, do que as presepadas do prefeito do Rio, César Maia.

Quando derrubam um fragmento da floresta, em Manaus, para construir um shopping, isso me parece muito mais grave do que demolir o Pão de Açúcar, na Urca, para construir um estacionamento. No primeiro caso, estão apagando minha memória afetiva e degradando o ambiente onde vivem meus sobrinhos, que ficam sem espaço de lazer. Cantando com Cat Stevens,  pergunto: “Where do the children play eeeeeei?”

As obras do viaduto da Rua Recife e do V-8, que deixam minhas nove irmãs estressadas, são mais angustiantes para mim do que o engarrafamento, que às vezes sou obrigado a enfrentar pessoalmente, na ponte Rio Niterói ou na Linha Vermelha. E isso porque, como disse a nossa adorável poeta Astrid Cabral, ela também morando por essas bandas, “não sou eu que vivo em Manaus, é Manaus que vive em mim”.

Dessa forma, é natural que os assuntos locais e regionais ocupem esse espaço dominical, o que já me rendeu algumas acusações justificadas de provincianismo. No entanto, o predomínio desses temas, de interesse de quem escreve e de alguns leitores, não deve significar obrigatoriedade. É preciso, desarmado leitor, uma abertura para que a gente possa também, de vez em quando, “ficar filosofando”.

Portanto, vou “filosofar” um pouco, usando o espaço que me resta para contar o que aconteceu na última semana de junho em Epinal, uma pacata cidadezinha de 35.000 habitantes no Departamento de Vosges, distante duas horas de Paris em viagem de trem. Lá, funciona o Liceu Profissional Jean-Charles Pellérin, onde estuda Chouaib, o único negro de sua turma, que diariamente chega ao colégio cantando, gingando e dançando, com seu MP3 no ouvido.

Tanta alegria incomodou o professor de matemática do Liceu, um homem triste de 52 anos. Ele começou a discriminar o negão Chouaib com palavras ofensivas, tratando-o de ‘Bamboula’, que originalmente é o nome de um tambor e de uma dança africana, mas que passou a ser um termo ofensivo usado para designar os negros que vivem na França. Havia até uma fábrica de chocolate com esse nome, que fechou por ter sido considerada responsável por uma “injúria racista”.

Diariamente, quando o negão Chouaib entrava na escola com sua contagiante alegria, o babaca do professor lhe dizia: “Ih! Chegou o Bamboula. Volta pra teu país. Vai comer banana, macaco, vai”.  Durante as aulas, falava frases como:“Não toca no meu livro, porque tu vais sujá-lo”. Ou então: “Tu és negro, então és ladrão”.

Chouaib é um garotão tímido, muito respeitoso. Ouvia aquelas ofensas e calava, não dizia nada, mas em sua casa, seus pais sentiram que alguma coisa não ia bem, porque ele tirava notas altas em todas as matérias, menos em matemática. Foi aí que a bomba estourou. Os 35 alunos da sua turma, que não são negros, se solidarizam com ele. Indignados, assinaram um documento denunciando o professor racista à direção do Liceu.

O diretor considerou que efetivamente o comportamento do professor de matemática era “inaceitável”, mas explicou que em termos de sanção seus poderes eram limitados. Chamou atenção do professor racista e enviou o documento às instâncias superiores do Ministério da Educação Nacional. O processo está rolando agora na Justiça. Toda a turma vai testemunhar em favor do colega.

Os pais do negão Chouaib assinaram um documento, afirmando que não desejam nem a suspensão nem expulsão do docente, mas apenas que ele peça desculpas diante de toda a turma, o que ainda não foi feito. De qualquer forma, essa história serve para registrar, de um lado, o racismo abominável de alguns setores da sociedade francesa, mas de outro a coragem e a solidariedade dos alunos, que com sua atitude ensinaram uma lição de vida a seu professor. A mesma sociedade que produziu o veneno do racismo boçal foi capaz também de fabricar o antídoto contra ele.

O leitor desarmado que me perdoe, mas não era possível deixar de reverenciar esses meninos, lá no interior da França, pois o futuro da humanidade depende de gestos corajosos como esse, capazes desafiar a autoridade para reivindicar o que é justo. No momento em que no Rio de Janeiro alguns marginais da classe média agridem uma empregada doméstica, o comportamento dos meninos franceses é exemplar. Como escreveu Nelson Mandela, “ninguém NASCE odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”.

P.S.1 – Nelly gengivuda, tu não me escapas. O que você fez com tua filha, obrigando-a a casar por interesse, não tem nome. Eu te pego na próxima, se o leitor desarmado me deixar filosofar mais uma vez. Vou contar tudo sobre teu caso com o Jader cara-de-areia-mijada.

P.S.2 – Recebo e registro aqui a notícia muito triste da morte do Chico Nogueira, vítima de um acidente trágico e fatal, ocorrido no último dia quatro, quando a serviço do INCRA/AM ia tentar conciliar problemas de terra no km.230 da BR 319, no Careiro. À Nazaré e à família enlutada, a solidariedade da coluna.

 

 

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