CRÔNICAS

BYE-BYE BIBI

Em: 05 de Junho de 2016 Visualizações: 3815
BYE-BYE BIBI

O amor ao Botafogo salvou da morte prematura o jornalista amazonense Jefferson Marques de Souza (1935-2016), o Bibi. Não fosse ele torcedor apaixonado e fiel, teria morrido aos 27 anos, no Constellation da Panair prefixo PP-PDE que caiu perto de Manaus, na madrugada do 14 de dezembro de 1962, matando todos os passageiros embarcados no Rio. Mas adiou a viagem para poder ver a final do campeonato carioca, no dia seguinte (15), no Maracanã. Valeu a pena. Garrincha endiabrado fez três gols e Manga pegou até mosquito ensebado. Botafogo 3x1 Flamengo. Com isso, Manaus conheceu as sandálias havaianas e eu ganhei cinco sobrinhos.
Uma semana depois, vivinho da silva, vestido com a camisa do bicampeão carioca, Bibi descia, glorioso, de mala e cuia, no aeroporto de Ponta Pelada, trazendo uma surpresa na bagagem. Nessa época, ninguém em Manaus conhecia chinelo de dedo. Ninguém. Os playboys locais, incluindo o Inezildo, só usavam alpercata-de-arigó feita de pneu usado. Tudo mudou quando Bibi desfilou pelos becos do bairro de Aparecida com a novidade nos pés: uma sandália havaiana azul, leve e confortável, que acabava de ser inventada com o nome de "sandália japonesa".
Embora o polêmico radioeletricista Inezildo Bate-Papo reivindique para si a façanha, testemunhas fidedignas garantem que foi o Bibi quem introduziu no Amazonas as havaianas até então desconhecidas dos 175 mil habitantes de Manaus. Ele apareceu com elas na banca de verdura da Nilza, em frente ao Grupo Escolar Cônego Azevedo, no natal de 1962, ao lado de sua mãe Otávia, dona Dondon, que calçava outro par. O bairro fascinado, magnetizado, caiu aos pés do jornalista. Ninguém me contou, eu vi com esses olhos que a terra há de roer.


O radialista


As pessoas pediam para ver e sentir a textura daquela sandália. Queriam comprar uma, mas não encontravam nem na Harrods Baré - a  Sapataria Onça, "os melhores calçados do Brasil", nem sequer na nossa Galeries Lafayette - a Casa Tem-Tem, "a casa do pobre e do rico também". Só meses depois é que chegariam os ambulantes em kombis estacionando nos pontos de venda anunciados pelas rádios. Ninguém podia ver a propaganda da marca, que não era nada fashion, feita pelo personagem Didi Mocó - com quem, aliás, Bibi parecia fisicamente e no humor - porque a cidade ainda não tinha televisão. 
O introdutor das havaianas no Amazonas, o Bibi - ouviu Inezildo? - fez de tudo na vida. Combateu os mosquitos da malária como funcionário da SUCAM, mas considerando sua experiência de repórter na Agência de Notícias Asapress, no Rio, foi contratado pela Rádio Rio-Mar como cronista esportivo para comentar os lances dos jogos do campeonato amazonense. Criativo, engenhoso, inventou bordões e metáforas, que tinham mais charme ainda porque ele caprichava no chiado do sotaque carioca adquirido nos anos em que morou no quartinho em Laranjeiras cedido pela amiga Rute Freire Borges.
Por anos a fio, Bibi colaborou voluntariamente com a paróquia no "Serviço de Amplificação a Voz Quermesse de Aparecida", lendo os telegramas no ar e os anúncios comerciais. As meninas suspiravam ao ouvi-lo: “Vai casar? O seu problema é móvel? Procure o Mundo dosch Móveissch, de Antônio M. Henriquessch”. Ele dizia, de pura sacanagem, que envolveu três irmãs minhas. Deu em cima da Teca, a Dile é que estava afinzona, mas quem acabou se aproveitando foi a Helena, com quem se casou, nos dando cinco sobrinhos: Paulo, Sérgio, Mauro, Ana Paula e Luciana.
No jornal A Crítica, Bibi atuou como repórter da editoria de Esportes comandada por Belmiro Vianez. Cobriu o jogo da Seleção Brasileira 4 x 1 Seleção do Amazonas, em abril de 1970, no Vivaldão, e aproveitou para tirar uma foto histórica do seu filho de 5 anos no colo do Pelé. Criou a primeira revista esportiva mensal do Amazonas - A Bola - com Manuel Muniz, Haroldo Furtado e outros.


Big Fish


A Bola, porém, não rolou muito tempo. Bibi fez o curso de Estudos Sociais, em Tefé, num convênio com a Universidade Federal de Juiz de Fora. De lá, saiu como professor da rede estadual de ensino. Polifacético, deu aulas de história, geografia, português e até de inglês, embora nunca tenha adquirido a fluência de seu filho, com quem teve aulas, mas seu inglês de Joel Santana deu para substituir por um semestre o teacher que se aposentara. Good morning, students, the book is on the table.
Foi justamente o table soccer ou button soccer que consumiu suas energias de aposentado. Fundou a Associação Manauara de Futebol de Mesa (FAFM), organizou campeonatos, participou de torneios nacionais, conquistou títulos. O atual presidente da FAFM, Marcos Oliveira, em nota de pesar, anunciou a realização em outubro do corrente do torneio Jefferson Marques de Futebol de Mesa, destacando seu papel na difusão da prática do jogo de botão no Amazonas.
Bibi era um gozador. No humor, era rápido no gatilho. Tinha o dom de contar histórias, misturando expressamente realidade com fantasia, como o velho Ed, do filme Big Fish com quem o filho se concilia no leito de morte. O interlocutor que se virasse para separar o joio do trigo. Foi assim que um dia, no Parque Dez, ele me contou essa história do acidente aéreo. Nunca mais a repetiu. Pensei que era mais uma de suas armadilhas. Mas agora, para escrever essas linhas, fui no Google e descobri, assustado, que o Botafogo foi bicampeão no dia seguinte à tragédia com o PP-PDE. Será?
Ele foi enterrado nesta quinta-feira (2) no cemitério São João Batista, vestindo a camisa do Botafogo e com a bandeira da Estrela Solitária sobre o caixão. Com o radialista Bibi se vai um pedaço da Manaus da era do Rádio, dos jingles, um dos quais ele gostava de cantar:
- A gente pensa que ao nascer do dia, / o galo canta pra saudar o sol / Mas quando canta o galo diz somente / se eu tivesse dente / só usava eucalol.
Foi impecável como pai, avô, tio e cunhado. Os filhos saudosos, a viúva, os sobrinhos, os netos e netas, choraram sua partida. A missa de sétimo dia será na igreja de Aparecida, às 18h30, nesta segunda (6). Lembro que ele recortava e arquivava as crônicas dominicais publicadas neste Diário do Amazonas e que certamente aprovaria, com humor, o esclarecimento sobre as sandálias havaianas. Inezildo, não precisa Temer nem tergiversar, foi golpe sim, ouviu? 

P.S.1 - Fotos de Sérgio Souza, entre outros, diagramadas por Amaro Junior.

P.S.2 - Outra perda que nos deixa saudosos: H. Dias, advogado, companheiro de lutas, desde o movimento da oposição sindical dos metalúrgicos em 1978. Transcrevo aqui nota de seu amigo Alfredo Lopes: "Tu não morrerrás", diria Martin Bubber para descrever o sentido radical do Amor. Você permanecerá com a gente, HILDEBERTO, todos os DIAS, especialmente quando a solidariedade humana se fizer mais urgente, quando alguém quiser ilustrar o sentido do termo decência, acolhida, dignidade, FRATERNIDADE!!', amigo querido. Grato por seu testemunho, pela partilha do Old Parr, Miles Davis, Autumm Leaves, e tantas lições de vida!


Ouça o jingle eucalol: https://www.youtube.com/watch?v=h6NCfLQ33XY

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9 Comentário(s)

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Taquiprati comentou:
12/06/2016
DEU NA FOLHA DOMINGO, 12 DE JUNHO, DIA DOS NAMORADOS JEFFERSON MARQUES DE SOUZA (1935-2016) Mortes: Levou as Havaianas para as ruas de Manaus FOLHA DE SÃO PAULO 12/06/2016 00h00 Era final de 1962, e Jefferson Marques de Souza retornava para Manaus após um período no Rio de Janeiro. Trazia duas novidades: o sotaque carioca carregado no chiado e suas sandálias Havaianas. Não tem como saber se elas foram as primeiras sandálias do tipo a chegar à cidade, mas geraram o interesse das pessoas, que olhavam, tocavam. \"Todos queriam uma igual, mas não existia aqui\", lembra sua mulher, Helena. Manauara, Jefferson havia deixado a cidade natal com apenas 16 anos, sozinho, atrás de mais oportunidades no Rio. Fez de tudo um pouco. Trabalhou em uma loja de cal, nas famosas lojas Mesbla, antes de fazer amizade com jornalistas da agência Asapress, onde também foi trabalhar. Arquivo Pessoal Jefferson Marques de Souza (1935-2016) Jefferson Marques de Souza (1935-2016) Voltou para Manaus após 12 anos, já apaixonado pelo jornalismo e pelo Botafogo. Passou por rádios e jornais da região, sempre atuando na área de esporte. Fazia matérias, narrações, comentários. Um dos momentos que mais recordava é a cobertura do jogo entre Santos e Cosmos, nos anos 70. Exibia a foto do filho ainda criança no colo de Pelé como prova do encontro. Problemas de saúde levaram Jefferson à aposentadoria ainda em 1985, quando começou a se dedicar a outro tipo de futebol: o de mesa. Fundou a federação amazonense da modalidade, promoveu campeonatos, buscou patrocínios e chegou até a fazer troféus para premiações. Sempre alegre, ele gostava de fazer piadas, dar apelidos às pessoas e reunir a família nos almoços de sábado. Morreu dia 1º, aos 80, devido a problemas pulmonares. Deixa a mulher, duas irmãs, cinco filhos e 11 netos. coluna.obituario@grupofolha.com.br
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Roberto Cintra (via FB) comentou:
07/06/2016
É uma das poucas vezes que leio a noticia sobre a morte de alguém, me emociono, mas também começo a rir. Não conheci o jornalista que morreu, mas ele devia ser mesmo uma pessoa muito alegre.
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Raymisson Mendes (via FB) comentou:
05/06/2016
Que história linda, sobretudo importante para nossa história de manauaras. Esses tempos vinha acompanhando a luta de Seu Bibi através do seu filho e nosso primo distante Sérgio Freire, e torcia tanto para que desse tudo certo e que o mínimo de sofrimento fosse dado a esse senhor descrito por todos com as qualidades mais importantes para embasar um bom ser humano. Quando li Sérgio falando \"meu velho está indo\" me arrepiei como se fosse tão próximo, e senti uma vontade de chorar, natural a quem sabe o que é o amor. E agora? Agora só desejo paz e que os ensinamentos desse brilhante homem, que conheci mais através do que li aqui, continuem servindo para rodear ações e atitudes. Grande abraço a essa família!
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francisco Carlos comentou:
04/06/2016
Valeu. Gosto muito quando você escreve sobre os personagens de uma Manaus um tanto esquecida. Este senhor H. Dias, eu costumava ouvi-lo aos domingos participando do programa radiofônico do Joaquim Marinho.
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Socorro Castelo Branco (via FB) comentou:
07/06/2016
Tem muita gente boa se despedindo da vida e muito pilantra que continua vivo.
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Lana comentou:
04/06/2016
Que bom saber mais sobre uma pessoa tão importante para a cidade de Manaus, e pai de professores tão maravilhosos.
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Augusto Sarmento (via FB) comentou:
04/06/2016
Pois é, caro professor Bessa, vosso texto me faz lembrar as práticas do cunhadismo dos tupinambás. O cunhado passa a ser parte integrante da família de forma plena e os filhos do cunhado com vossa irmã passam a ser também vossos filhos, ou seja filhos do tio irmão da mãe. Embora não tenha conhecido o vosso cunhado, me emocionou vosso texto amoroso.
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Ana Stanislaw comentou:
03/06/2016
Que lindo texto e emocionante homenagem!! Mais uma estrela que sobe aos céus.
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Ronney Feitoza comentou:
03/06/2016
Lindo texto. Que vida bonita, aqui decantada em afetos.
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