CRÔNICAS

O SENADOR E O PROFESSOR

Em: 22 de Julho de 2007
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Podia até ser título de filme exibido nos anos 1950 no Politeama: Duas vidas, dois destinos. Um – ACM - nasceu na Bahia e se tornou senador da República. Tinha insaciável sede de poder. Truculento e inescrupuloso, fez coisas que até Deus duvida, para ficar por cima da carne seca. Morreu aos 79 anos. Seu nome está em todos os jornais de circulação nacional. O outro – HSB - nasceu no Acre e se fez professor. Nenhum jornal fala dele. Quer distância do poder. Completou 70 anos no dia em que o primeiro morreu.  Só por isso os dois estão aqui, juntos, nesse espaço.

Não comentarei a morte do senador Antônio Carlos Magalhães (ex-PFL, vixe, vixe!) porque se escrever o que penso, serei extremamente deselegante, com frases do tipo “já vai tarde”, o que não parece apropriado para o momento, em virtude da dor da família. Por outro lado, seria muita hipocrisia somar minha voz ao coro dos fingidos para chorar a “grande perda política”, etc e tal, jurando que o capiroto, só porque morreu, virou santo.

É melhor mesmo calar sobre o ACM e contar quem é esse discreto e quase anônimo HSB. Sempre desejei escrever uma crônica, contando as lições de vida que com ele aprendi. No entanto, fui empurrando com a barriga, talvez por pudor, talvez por preferir escrever algumas linhas póstumas como fiz com alguns amigos. No entanto, como sua saúde é de ferro, corro o risco de bater as botas antes dele, mandando a crônica pro beleléu. Por isso, é melhor escrever agora. Então, lá vai.

Os avós paternos de HSB, originários de Quixeramobim (CE) e de Pau dos Ferros (RN), fugiram da seca e foram para o Amazonas no período áureo da borracha. Tiveram uma penca de filhos. O mais velho, Eduardo, conheceu Zulita, que tocava piano dentro de um seringal de Sena Madureira, no Acre. Foi lá que HSB nasceu, em 1937: o primogênito de uma outra penca de filhos.

Devido à profissão do pai, a infância de HSB foi uma verdadeira romaria pelo Norte e Nordeste onde os irmãos foram nascendo como coelhos: Ceará, Piauí, Maranhão, até voltar para Manaus. Menino de inteligência extraordinária aprendeu a ler sem professora. Aos quatro anos, surpreendeu a família, soletrando em voz alta o nome de uma rua: E-pa-mi-non-das. No ano seguinte, já lia em voz alta, com sonoridade correta, as manchetes do Jornal do Commércio sobre a segunda guerra mundial.

Nessa época não havia esse negócio de jardim-de-infância ou pré-escolar. “Ele era um menino precoce, não foi estragado pela escola”, diz sua irmã Dodora, que lembra de tudo, apesar de ser muito, mas muito mais nova que ele (e bota MUITO nisso!). Na adolescência, sem haver estudado música, HSB tocava violão. Fazia serenatas, encantando as meninas, até que uma delas, de nome Rose, que se tornaria mãe de seus três filhos, enciumada, espatifou o violão na cabeça dele. Sobrou-lhe o piano no qual, fazendo jus à herança materna, ainda hoje improvisa toadas.

No entanto, mais importante do que aquilo que ele aprendeu quase sem-querer foram as lições que deu pela vida afora. Ensinou Física na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e na Escola Técnica Federal de Manaus, ministrando aulas inesquecíveis, segundo seus alunos, que o homenagearam dando o nome dele ao Laboratório de Iniciação Científica. Foi professor de três de seus irmãos - Gugu, Eduardo e Geraldo, reprovando o último, que era o cão chupando manga de danado. Os gêmeos Pauderney e Pauderley também foram seus alunos, mas ele não tem culpa dos resultados.

No entanto, a lição mais importante que com ele aprendi está relacionada a como lidar com o poder. O conceito de poder é uma das chaves para entender os labirintos da ética. Na oposição, usamos uma retórica desafiante, cobrando mundos e fundos, somos puros impecáveis e intolerantes. Mas quando trocamos de lugar, perdemos o senso do equilíbrio e fazemos tudo o que criticávamos. Talvez por acreditar, como os anarquistas, que o poder é uma fonte permanente de corrupção, HSB se manteve, ao longo de sua vida, deliberadamente distante dele.

Lembro que nos anos 1970, um ex-colega seu do curso de Pós-Graduação da Universidade Federal do Paraná, de quem se tornara amigo íntimo, assumiu o cargo de reitor da UFAM.  “O HSB vai lavar a égua, no mínimo abocanha um sub-reitoria” – disseram os arautos do meu-pirão-primeiro. Mas ele se afastou temporariamente do amigo “para não confundir amizade com puxa-saquismo”. Só voltou a procurá-lo, quando não exercia mais a função. Dessa forma, estrangulou o berinho e matou a semente de acm que existe dentro de cada um de nós.

Essa lição me foi muito útil, numa das encruzilhadas da vida. Tento segui-la, nem sempre com sucesso. Exemplo de integridade e honestidade, sem qualquer alarde, HSB, por princípio, não rouba nem em jogo de dominó, nem por brincadeira. Eu queria muito seguir seu exemplo, mas confesso meu fracasso. As influências do Amazonino Mendes, nesse caso, foram mais poderosas. É mais forte do que eu: ‘passar um gato’ no dominó constitui uma fonte indescritível de prazer.

Na época da ditadura militar, em que o direito à livre associação não era respeitado, ele contribuiu decisivamente para fundar a Associação de Docentes da Universidade do Amazonas (ADUA), com seus colegas Rafael Novellino e Marcilio de Freitas, criando assim um dos poucos espaços de interlocução política em Manaus. Sempre discretamente, longe dos holofotes.

HSB é o primogênito não só porque nasceu primeiro na nossa tribo, mas por sua exemplaridade. Ele é um daqueles líderes discretos que não usa o patrimônio público para fins pessoais e ainda por cima não se gaba disso, até porque seu humor refinado e seu senso crítico não lhe permitem adotar esse tipo de discurso moralista. No tempo de namoro, Rose Cabral lhe disse: “Fala alguma coisa que faça bem ao meu coração”. Ele não pensou duas vezes: “Coramina”.

Um dia, o fundador do Partido Comunista Francês, Jean Jaurés, morto em 1914, escreveu uma coisa muito bonita, que serve de diretriz para o trabalho pedagógico: “A gente não ensina o que a gente quer. Eu diria que a gente não ensina sequer o que a gente sabe ou o que acredita saber. A gente só ensina – e só pode ensinar – aquilo que a gente é”.

Com 70 anos de idade, já aposentado, HSB é um grande homem, de 1:66 m. Continua nos ensinando não necessariamente aquilo que sabe, mas aquilo que ele é. Simboliza tudo aquilo que nós queremos e sonhamos para o Brasil. São pessoas como ele, técnica e eticamente, que gostaríamos de ter para pilotar nossos aviões, para controlar os nossos aeroportos, para dar aulas, para presidir o senado, para construir viadutos, para vender e comprar um carro usado. Tenho orgulho de tê-lo como primo mais velho. 

P.S. – Ih, já ia me esquecendo. HSB são as iniciais de Heyrton Bessa, o primeiro neto da velha Maria Elisa. Coloquei o S, de Souto, para lembrar o piano e a família materna. Mas esse nome – Heyrton – é único e singular. Só existem duas pessoas no mundo chamadas assim: ele e o filho que herdou seu nome. Procurando no Google, descobri que a única exceção vive em Louvaine, na Bélgica, onde existe um cachorro também chamado Heyrton.

 

 

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