CRÔNICAS

A MEDALHA DE OURO QUE FALTAVA

Em: 29 de Julho de 2007
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A cobertura dos Jogos Pan-americanos foi, na verdade, a cobertura dos jogos do Brasil no PAN. Os atletas dos EUA obtiveram um total de 236 medalhas, os cubanos 134, os canadenses 134, mas ninguém sabe como, porque nada foi mostrado, a não ser quando eles concorriam com o Brasil. A mídia deu um show de provincianismo. Perdemos uma grande oportunidade de conhecer um pouco as diferenças culturais e as políticas públicas relacionadas ao esporte em cada país. Por que uma ilha tão pequena como Cuba, que não possui uma gota de petróleo, é uma potência esportiva? 

Com seu ufanismo nacionalistóide, xenófobo e patrioteiro, o locutor da TV Globo, Galvão Bueno, se esgoelava, clamando:

- “Só falta uma medalha de ouro para o Brasil-sil-sil passar Cuba! Só uma! Quem vai ganhar essa medalha?”.

Estávamos no meio da semana. O futebol feminino, o vôlei masculino, o basquete, o hipismo e a ginástica de trampolim, entre outros esportes, ainda não haviam disputado a final.

Foi ai que a Câmara Municipal de Manaus (CMM), sempre sintonizada com o sil-sil-sil, ouviu o clamor de Galvão Bueno e decidiu que o Amazonas conquistaria medalhas de ouro para o país. Criou às pressas os jogos pan-municipais, com outras modalidades esportivas onde o Amazonas é imbatível, como nado sincronizado em pororoca de águas turvas, canoagem com tráfico de influência, ginástica em licitações, assalto ornamental, assalto triplo e corrida de 1.500m da Polícia. Depois disso, o ouro seria nosso.

O edil Ayr de Souza (PTB – vixe, vixe!) apresentou, então, um projeto, que considera o tri-atleta Amazonino Mendes (DEM, ex-PFL, vixe, vixe!), ex-governador do Amazonas, como hors-concours, concedendo-lhe a Medalha de Ouro Cidade de Manaus. Mas houve protestos. Um vereador do PT, Waldemir José, argumentou que o tri-atleta não merecia a comenda por acumular muitas acusações de corrupção. Em resposta, Ayr atacou Lula e desafiou: - “Amazonino nunca foi manchete por conta de escândalos, como tem sido o governo do PT”. José Ricardo (PT) sugeriu: “Busque nos arquivos os jornais da época”.

Segui o conselho. Busquei recortes de 1997, com as manchetes de jornais de circulação nacional, que tenho diante de meus olhos. Os dois diários de São Paulo foram contundentes. A Folha berrou: “Amazonino compra deputados do Acre em troca da nomeação do Superintendente da Zona Franca de Manaus. Pauderney era o intermediário: sondava quem estava disposto a negociar. Samuel Hanan levou o dinheiro”. O Estado de São Paulo, embora mais sóbrio, completou:“Empreiteira da família Cameli foi beneficiada por Amazonino”.

Durante todo o mês de maio, o tri-atleta não saiu das paradas. O Jornal do Brasil titulou: Zona Franca é pivô da discórdia. Escândalo da venda de votos traz à tona disputa pelo domínio da Suframa”. Já O Globo deu manchetão, anunciando: “Escândalo no Congresso: Ligações estreitas de autoridades com empresários não espantam ninguém no Amazonas. Poder cimentado com voto e brita: governador do Amazonas mora em casa de empreiteiro e chefe do DNER, Wellington Lins, irmão de Átila Lins, que é sócio de construtora”.

A notícia revelava o loteamento do Amazonas entre várias empreiteiras: a Planecon dos Lins, a Capital do Paus-derney e derley, a Exata e a Capa de Otávio Raman Neves e a Marmud Camelli, do governador do Acre. Mas a Câmara não lembrou o passado, porque o vereador Di Carlito (PDT), moço educado e de boas maneiras, talvez para proteger seu papi e se auto-defender, decretou que “é falta de educação um vereador relembrar fatos negativos da administração de um homenageado e desenterrar os defeitos da pessoa”.

O Comendador Negão

Di Carlito quer esquecer essas perguntas: Quem comprou, em 1997, os votos dos cinco deputados federais do Acre? Quem foi denunciado pelo Ministério Público por crime de corrupção, por ter recebido comissão na compra de geradores sem licitação para a Companhia Energética do Amazonas (CEAM), com superfaturamento de 363%? Quem lucrou com a compra de manduquinhas? A Econcel superfaturou a obra do posto de fiscalização da Suframa, conforme investigação do TCU? A reforma penitenciária do Acre foi superfaturada? Houve maracutaia na pavimentação da Br-174? Por que ninguém foi punido até hoje?

A CMM, cuja memória política é seletiva, aprovou a comenda com a oposição dos dois vereadores do PT e de Lúcia Antony (PC do B). Nessa quarta-feira, dia 25, numa cerimônia com muito foguetório, discursos inflamados, claque nas galerias e declaração de votos na tribuna, o tri-atleta Amazonino Mendes, também conhecido como Negão ou Big Black, subiu ao pódio, recebendo a medalha de ouro colocada em seu peito pelo presidente da CMM, Leonel Feitoza.

Depois de morder a medalha de ouro, sem danificar a perereca, provando o avanço da odontologia no Amazonas, Big Black fez um discurso de campanha, que pretendia esconder o seu pensamento e suas intenções. Derrotado nas urnas nas duas últimas eleições, o homenageado da CMM fingiu sobriedade, recusando-se a admitir sua candidatura a prefeito em 2008. Criticou a atual administração e jurou que está rezando pelo atual prefeito Serafim Correa, que o derrotou nas urnas. Ninguém pediu exame anti-dopping do tri-atleta.

Tentamos consultar o arcebispo de Manaus, Dom Luís, para saber se Deus dá trela às preces do Big Black, mas o telefone da arquidiocese estava sempre ocupado. Enviamos e-mail para bussunda@ceu.com.br, o humorista respondeu: “Reza de Amazonino? Fala sério!”.

De qualquer forma, existe um teste infalível para avaliar as chances eleitorais do novo comendador: a presença dos Braga. Assim como o gato Oscar, de um asilo inglês, se enrosca nos pés de quem vai morrer duas horas antes, os Braga puxam o saco, seis meses antes, de quem vai ganhar eleição. Na cerimônia, estava presente apenas o ex-reitor da UEA, Lourenço Braga. Se Berinho e João Coelho aparecerem, nos próximos eventos, Serafim pode encomendar seu mandato a Deus.

Há quem diga que conceder uma medalha de ouro a um candidato derrotado nas urnas, com o curriculum do Big Black cheio de acusações de corrupção por todos os lados, é um escárnio tão grande quanto conceder a medalha Santos Dumont ao presidente da Anac, Milton Zuanassi e à diretora Denise Charuto Abreu depois da tragédia com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas.

Por via das dúvidas, antes de terminar o PAN, um pé e uma mão foram imortalizados pelos feitos que realizaram. O pé habilidoso foi o de Marta, artilheira do PAN, a primeira mulher a gravar os pés na calçada da fama do Maracanã. A mão ágil e felina foi a do Big Black, o primeiro atleta a deixar, na mesma calçada, a marca dos seus cinco dedos.

P.S. Taquiprati, Berna - Tão menina, tão sensível, tão doce e tão terna, mas tão combativa. Militante comprometida com as lutas sociais, solidária com o sofrimento dos humildes. Artista refinada e inquieta, preocupada com o patrimônio cultural do Amazonas. Bernadete Mafra Andrade, professora de Educação Artística da UFAM e ex-diretora regional do IPHAN/Am, nos deixou ontem, quando essa coluna já estava escrita. Quem a conheceu, como eu, que fui seu professor, está sofrendo. A nossa menina querida vai fazer uma falta danada. Leva com ela as melhores lembranças de um tempo em que éramos felizes e não sabíamos. A coluna compartilha a dor da perda com seu pai Aurélio, seu filho Gabriel, de apenas doze anos, suas irmãs Magela, Socorro, Paula, Georgina e Ivone e seus amigos do ICHL velho de guerra.

 

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