CRÔNICAS

SILÊNCIOS E OMISSÕES (O ESTADO DE S.PAULO)

Em: 10 de Janeiro de 2016
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O INCÔMODO DA PRESENÇA INDÍGENA NO BRASIL

http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,silencios-e-omissoes,10000006595#

Embora estarrecidos, temos de admitir que pertencemos à mesma família humana do jovem que degolou o bebé Kaingang de dois anos na rodoviária de Imbituba (SC). Compartilhamos, envergonhados, a mesma identidade nacional do suspeito do crime, Matheus Silveira, o Teto, 23 anos, que está preso. Já para a Polícia, esse é apenas o caso de um "usuário de drogas, que sofre de distúrbios mentais". Será? O delegado ouviu familiares e ex-colegas do Colégio Caic. Não concluiu o inquérito, mas já adiantou não ter visto conotação racista no crime, embora admita que o assassino estava "incomodado com a presença dos indígenas no local".

Parece legítimo ir além do fato policial ou do diagnóstico médico e indagar a origem de tal incômodo. Para isso, convém identificar o lugar do índio na sociedade nacional, na visão do brasileiro médio, o que é definido na fala e no silêncio, nas ações e omissões de entidades como escola, mídia, museu, família, igreja, partidos políticos, associações de classe, tribunais, polícia, monumentos e até nas comemorações que definem o que deve ser lembrado ou esquecido.

A presença incômoda do índio não é só na rodoviária, mas no âmbito nacional. Isso foi explicitado, em 1900, pelo presidente da Comissão do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil, o engenheiro Paulo de Frontin. No discurso oficial de abertura, ele falou como representante da nação:

“O Brasil não é o índio; os selvícolas, esparsos, ainda abundam nas nossas magestosas florestas e em nada differem dos seus ascendentes de 400 anos atrás; não são nem podem ser considerados parte integrante da nossa nacionalidade; a esta cabe assimilá-los e, não o conseguindo, eliminá-los”.

Não houve qualquer contestação à proposta anunciada diante do cardeal que celebrou missa campal na Praia do Russell, depois da inauguração do Monumento ao Descobrimento, na Praça da Glória, integrado pelas estátuas de Cabral, Caminha e Frei Henrique. Afinal, sem índios, suas terras ficam disponíveis no mercado.

O Estado neobrasileiro assumia, desta forma, a política colonial que originou no continente americano a "maior catástrofe demográfica da história da humanidade", segundo os demógrafos da Escola de Berkeley, que calculam em 10 milhões a população indígena, em 1500, no território que é hoje o Brasil. No primeiro século de colonização houve 90% de despovoamento, segundo W. Borah, com refinados métodos de análise.

Os dados são confirmados na documentação do Guia de Fontes para a História Indígena, da USP, organizado por Manuela C. da Cunha e John Monteiro que trabalharam com 120 pesquisadores em arquivos das capitais brasileiras(1994). Uma carta, de 5 de janeiro de 1654, do vigário do Pará, cônego Manoel Teixeira, de 70 anos, escrita no leito de morte, calcula que "mais de dois milhões de índios de mais de quatrocentas aldeias" foram extintos "a trabalho e a ferro". Seu autor confessa "grandes injustiças e crueldades contra os índios", povoações incendiadas, "tirando-os de suas terras com enganos".  

Como qualquer documento histórico, este deve ser submetido à crítica, mas não pode ser ignorado, como querem os que o acusam de "vitimismo" ou de "fantasioso". A cifra de 2 milhões não é para ser tomada como um dado estatístico, mas como revelador de um embate de grande magnitude que permanece ignorado ou minimizado pela sociedade nacional, que não se posiciona diante dele. 

Pesquisa do Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ) avaliou o papel da escola, da mídia e de outras instituições na imagem que os brasileiros têm dos índios. Foram mais de 200 entrevistas com pessoas que nunca visitaram uma aldeia, mas têm opinião firme sobre o lugar dos índios no Brasil. Para um deles, com curso universitário concluído, os índios são "preguiçosos", "bêbados", "entrave para o progresso", "um câncer que deve ser extirpado do Brasil".

O curioso é que essa imagem não coincide com a da própria mãe do entrevistado, dona de casa com apenas o ensino fundamental. Algumas respostas nos permitiram verificar que o preconceito se manifesta, talvez com mais força, naquelas pessoas com escolaridade avançada, que tem mais acesso à mídia. Se isso se confirma, quanto mais escola e mais mídia, maior é o preconceito.

Esse é um dado a ser pensado no momento em que se discute a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e se pretende abrir uma brecha para a história indígena, tradicionalmente ausente da escola. Uma oposição histérica berra na mídia: - E a Mesopotâmia? E o Egito? - como se fossem temas incompatíveis. Esse discurso recebe o apoio do Clube Militar do Rio de Janeiro, para quem o BNCC quer "esculpir um Brasil descontaminado de heranças europeias", invertendo assim a questão. O silêncio cúmplice da escola e de parte da mídia evidencia que o discurso de Paulo de Frontin continua sustentando ideologicamente a virulência. No confronto entre os que não podem esquecer e os que não querem lembrar, é preciso construir "outro tipo de memória", como quer Boaventura Santos.

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2 Comentário(s)

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Josue Carvalho Kanhgág comentou:
01/03/2016
Num país anti indígenista. UM DOUTOR KAINGANG. Um título contra o racismo, o preconceito mas a favor da igualdade. JOS KANHGÁG·TERÇA, 1 DE MARÇO DE 2016 Em 29 de Fevereiro de 2016, encerrei quatro longos anos que passei em processo de doutoramento. Acordo hoje, com o título de DOUTOR EM EDUCAÇÃO, pela Universidade Federal de Minas Gerais, sob a orientação da Drª. Ana Maria Rabelo Gomes, que generosamente aceitou o desafio de me acompanhar. Na pesquisa busquei percorrer os caminhos que levam as crianças, especificamente as CRIANÇAS INDÍGENAS KAINGANG da Terra Indígena Nonoai (RS), seus anseios, suas vontades. Busquei representar no papel quem são as crianças kaingang e como elas aprendem entre elas mesmas e com os adultos. Foi uma caminhada e tanto e agradeço a Deus, por nunca ter me abandonado e por ter acalmado o coração de meu filho, da minha mãe e meu pai, da minha família quando tanas vezes não pude estar perto fisicamente. Agradeço os de perto e os de longe, meus mestres representados nas figuras da Professora, amiga, irmã, Marília Xavier Cury e o Professor José Bessa, vocês me inspiram, juntos os sábios kaingang no Educador que hoje titulado, sou. Agradeço a Terra Indígena Nonoai, nas figuras do cacique José Oreste do Nascimento e do Kujá, Jorge Garcia e a parteira Maria constante que tenho como meus avós. Mas, dedico essa tese a minha raiz, minha avó, Dona Fia, que em Abril, completa 108 anos, uma índia kaingang. E em memória de VITOR PINTO KAINGANG. Vitor Pinto, em 30 de Dezembro de 2015, foi assassinado, enquanto era amamentado no colo da mãe, após ter recebido ironicamente o carinho de seu assassino, Vitor tinha apenas dois anos, era um UN XÎ (como são chamadas as crianças pequenas na aldeia), ele não chegou ser um KÃXIT (como são chamadas as crianças maiores). Nesse final de tese, eu não sabia mais o que escrever, o que dizer, porque as letras nunca saberiam traduzir a dor, a indignação. Passei quatro anos, aprendendo com outros Vitor Kaingang na Terra Indígena Nonoai, mas esse que eu nem cheguei a conhecer, me fazia tanta falta. Uma dor de pai, uma dor de quem perdeu um parente. A morte de Vitor manchou as casas de cada povo indígena de sangue. A morte de Vitor Kaingang foi um crime bárbaro, e eu me pergunto: o que significa essa morte hoje? Um aviso do preconceito, do racismo? Qual é afinal de contas o sentimento que o Brasil tem por sua raiz? Qual a cara do Brasil afinal de contas em relação aos originários dessa terra? Cresci numa região de fronteira entre índios e não índios, cresci, ouvindo que índios não prestam, que índios são sujos e preguiçosos, fui obrigado desde cedo a estar com o sinal de alerta ligado o tempo todo e olha que eu nem me parecia fisicamente com um índio, pelo fato de meu pai ser um italiano. Um italiano kaingang com muito orgulho. No discurso popular, político, governamentista (ainda que camuflado através de discursos ridículos), que índios não contribuem com a economia nacional e por isso precisavam ser moldados conforme os parâmetros que os façam ser cidadãos civilizados, do contrário teriam que desaparecer. Quando entrei na escola, tudo que aprendi foi para deixar de ser índio ou para ter preconceitos contra os índios. Eu quero dizer que, a vida inteira disseram que os índios não são capazes, são inferiores. Bom, eu sou DOUTOR, e não entrei na universidade como minoria (defendo as cotas, mas não entrei por elas) e não sou o único doutor, outros indígenas de outros povos também o são. O que penso desse título? Um grito de guerra, contra o preconceito, e todos aqueles que acham que índios são ninguém, somos alguém, SOMOS VITOR PINTO KAINGANG, SOMOS GUARANI-KAIWOA, SOMOS TERENA, SOMOS XOKLEN, SOMOS A RAIZ, TEMOS DIREITOS E DEVERES E NÃO VAMOS NOS CALAR. A MORTE DE VITOR E DE TANTOS OUTROS ÍNDIOS NÃO PODE FICAR IMPUNE OU ESSE É O RETRATO DE UM PAÍS ANTI INDÍGENISTA. Convido a cada indígena de todos os cantos do país a continuar de cabeça erguida e lutando, convido aqueles não indígenas que acreditam num futuro igualitário a caminhar junto. O índio nunca foi contra os não índios, tudo que fizeram e fizemos até aqui desde 1500, foi defendermos as nossas culturas, nossos costumes, contra um sistema capitalista que cria robôs ao invés de homens. Estudantes indígenas, nós somos a voz de nossos ancestrais, somos a voz de nossas crianças que estão vivas e principalmente das que foram impedidas de serem crianças, foram tiradas dos seios de suas mães brutalmente. HOJE CONTO COM UM TÍTULO DE DOUTOR DADO PELA ACADEMIA, MAS MEU MAIOR GANHO NUNCA SERÁ O CANUDO E SIM TUDO QUE APRENDI COM MEUS VELHOS, COM MINHAS CRIANÇAS, O CONHECIMENTO DELES ME DÁ O TÍTULO DE GUERREIRO, DE UM HOMEM KAINGANG.
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María Stella González comentou:
11/01/2016
¡Es terrible! Los educadores de toda América tenemos una gran responsabilidad...
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