CRÔNICAS

O GENERAL E O PAJELÔMETRO

Em: 07 de Outubro de 2007
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Ilmo. Sr. General de Divisão Maynard Santa Rosa

Saudações

Escrevo essa carta, mas não repare os senões, para dizer o que senti quando li sua declaração em favor dos fazendeiros que ocupam, ilegalmente, as terras indígenas da região Raposa Serra do Sol, em Roraima. A Polícia Federal, seguindo ordem judicial, pediu apoio ao Exército para expulsá-los, mas o senhor declarou que a operação exigida pelo Poder Judiciário era inadequada, porque haveria resistência armada. Há quem diga, com todo o respeito, que o senhor amarelou e que por isso foi, justamente, demitido do cargo.

“O general está certo” – berrou um economista puxa-saco, num texto que está circulando na Internet com o título ‘Não ao desmembramento do Brasil’. Não acredite nele, general! O senhor está errado! Sua declaração, além de contrariar o hino nacional – verás que um filho teu não foge à luta – foi reprovada no teste do pajelômetro, uma tecnologia infalível inspirada no asfaltômetro.  Este último, como o senhor sabe, foi inventado para vigiar as empreiteiras que fazem o recapeamento das malhas viárias das cidades e cobram somas astronômicas, alegando gastos que o olho humano não pode verificar.

O asfalto que o prefeito Adail Pinheiro diz ter usado nas ruas de Coari (AM), por exemplo, dá para pavimentar cem estradas em volta do globo terrestre e ainda sobra para tapar todos os buracos do Cabo Pereira, ministro dos Transportes. Como comprovar isso? É simples. Um vereador de Manaus, Paulo De Carli, depois que foi excluído das bocas, trouxe de Miami um equipamento que vê o que está embaixo do asfalto e mede o perfil da pavimentação das pistas, com indicações precisas sobre a quantidade de asfalto, de base, sub-base, leito e drenagem.

Só mesmo o Decarlito para encontrar essa geringonça! Também, pudera, sua esperteza vem do berço! Seu pai, agraciado com a Medalha de Honra Renan Calheiros, sabe por experiência própria o que é superfaturar. Trata-se do ex-senador De Carli, a quem os tribunais conferiram, nos anos 80, o diploma de trapaceiro. Mas não era do De Carli que eu queria falar e sim da invenção do pajelômetro, uma espécie de sonda que revela o que está escondido no subsolo da alma brasileira e mede a espessura das culturas indígenas presentes no ethos nacional, ou seja, no nosso jeitão de ser.

Falsos índios

Quando o pajelômetro foi testado em Roraima fez tanto “bip, bip” que quase explodiu. O teste permitiu identificar profundas camadas arqueológicas que provam a ocupação daquele território há mais de cinco mil anos pelos índios Macuxi, Wapixana, Ingarikó e Taurepang. Essas provas foram decisivas para que o Supremo Tribunal Federal expedisse, há mais de um ano e meio, uma sentença de-fi-ni-ti-va, determinando a retirada da reserva de todos os invasores recentes. Mais de cem já deixaram a área, depois de receberem R$12 milhões em indenizações, pagos pela Funai.

No entanto, sete fazendeiros subversivos, apesar de indenizados, permaneceram na terra invadida. Em junho, um deles, Paulo César Quartiero, caloteiro que tem uma grande dívida com o IBAMA por crimes ambientais, agrediu os índios e destruiu um barracão mandando furar tambores de óleo diesel e misturar o combustível à comida estocada pelos Macuxi e Wapixana. A Polícia Federal pediu, então, apoio ao Exército para expulsá-los. Foi aí, general Maynard, que o senhor pulou fora.

Foi ai, também, que um tal de Benayon divulgou um texto, garantindo que os índios da Serra do Sol são falsos índios, pois estão vestidos, “são aculturados, muitos têm cartão de identidade e título de eleitor”. Não merecem ter uma reserva localizada “exatamente sobre subsolo dos mais ricos do planeta”. Segundo Benayon, as potências estrangeiras usam os falsos índios para desmembrarem a Amazônia do Brasil. Exibe como prova a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas, votada pela Assembléia Geral das Nações Unidas, em 12 de setembro de 2007, a favor da autodeterminação: “Querem que o Exército faça derramar muito sangue para separar do território nacional mais uma região estratégica”.

O texto do Benayon, de apoyo ao general Maynard, é cheyo de ypycylones e parece muito com o asfalto que as empreiteiras juram que gastam na pavimentação de ruas. Ou seja, é superficial e falso, finge que atende aos interesses nacionais, mas foi produzido, na realidade, para enganar os trouxas e enriquecer os espertalhões. Não resiste ao teste do pajelômetro.

Falsos portugueses.

Com os mesmos critérios, podemos provar que os portugueses também não são autênticos, porque em vez de caravelas, usam carros e aviões, não se vestem mais como Pedro Álvares Cabral, nem escrevem como Caminha. Meu amigo, o Armando português, do Bar da Bica, embora nascido em Coimbra, embora tenha sotaque, é falso português. Aliás, os brasileiros também não são autênticos, porque embora estejamos quase todos enforcados, nenhum de nós se veste e se comporta como Tiradentes, o mártir da Independência.

Como, então, identificar quem é índio ‘verdadeiro’ com direito à terra? Segundo o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, “no Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é”. Ou seja, não são os Macuxi que têm que provar que são índios. O Benayon é que tem que provar que ele, Benayon, não é índio. Com esse critério, o próprio Quartiero pode até dizer que pertence à tribo dos Quartiero, mas terá que admitir que está em terra errada. Vai ter que procurar a terra onde viveram seus ancestrais, porque essa que ele invadiu é dos índios de Roraima. E tem que se comportar como índio, sem cometer crimes ambientais. 

Prezado general, o teste do pajelômetro evidenciou também a falsidade do argumento de que terra de índio é presa fácil dos estrangeiros. Na verdade, as Terras Indígenas, pela Constituição, pertencem à União, o que significa que são partes integrantes do território nacional. Essas terras, de posse dos índios, constituem uma garantia de que permanecerão dentro do território nacional, muito maior do que se for propriedade particular. Os índios não podem vender a terra, mas o Quartiero pode. E ninguém duvida que venderá para os gringos, porque para ele a terra não passa de uma mercadoria que dá lucro.  

Por último, o Benayon seria reprovado também em dois testes: o do pajelômetro, mas também o do bafômetro. Devia estar de porre, quando atacou a ONU. A Assembléia Geral da ONU aprovou efetivamente o direito dos índios à autodeterminação, não para estimular o desmembramento do Brasil, mas para garantir aos povos indígenas o direito de praticar suas tradições, costumes e ritos religiosos, de falar suas línguas, de reproduzir seus saberes, seus cantos, sua literatura, suas danças. Foram 143 votos a favor e apenas 4 contra (Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia). Mas isso o Benayon omite.

Meu prezado general, não duvido que como todos os bons brasileiros, o senhor quer efetivamente a paz. Mas só há um caminho para conquistá-la em Roraima: retirar os invasores, os fora-da-lei, que se recusam a obedecer as decisões irrecorríveis do STF. Enquanto a tribo dos Quartiero lá permanecer, aquilo será um barril de pólvora. Os que se omitirem serão responsabilizados pelos crimes que porventura forem lá cometidos.

 

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