CRÔNICAS

SERÁ O BENEDITO?

Em: 25 de Novembro de 2007
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Ilmo. sr. General-de-Exército José Benedito de Barros Moreira,
Secretário de Política, Estratégia e Relações Internacionais do Ministério da Defesa.

Saudações

Inspirado em modelo epistolar cantado por Waldick Soriano em um de seus boleros, escrevo essa carta, mas não repare os senões, para dizer o que sinto sobre suas recentes declarações a Folha de São Paulo (20/11/07) em defesa dos fazendeiros que ocupam, ilegalmente, as terras indígenas da região Raposa Serra do Sol, em Roraima. Lembro que há dois meses seu antecessor na Secretaria, general Maynard Santa Rosa, foi demitido, porque negou apoio à Polícia Federal para expulsar os invasores.

Já o senhor consegue se segurar no cargo, porque declara – ainda bem! - que as Forças Armadas, em obediência à Constituição, vão colaborar com a PF, cumprindo decisão irrecorrível do Supremo Tribunal Federal. No entanto, faz isso a contragosto, reclamando que tirar os arrozeiros da área é “um retrocesso para a integração regional”, para “o desenvolvimento do país”, e para a “Segurança Nacional”, e que deixar os índios lá é “retornar ao estado tribal da chegada dos portugueses aqui”.  

A comunidade acadêmica, perplexa e estupefata, não acredita no que leu. Afinal, o senhor é respeitado no meio universitário, porque pertence à elite da inteligência militar brasileira. Quando foi comandante da Escola Superior de Guerra - uma espécie de reitor fardado - convidou o líder do MST, João Pedro Stédile para fazer palestra sobre reforma agrária aos alunos da ESG, mostrando que tem a cabeça arejada. Por isso, ao ler a declaração, nós nos perguntamos: “Será mesmo o Benedito?”.

Aguardamos ansiosamente um desmentido. Por favor, general, diga que o repórter não reproduziu com fidelidade a sua fala. Esclareça que essa história não tem pé nem cabeça. Veja bem: se a presença dos índios naquelas terras é um atraso e ameaça a Segurança Nacional – como dizem que o senhor disse – então por que as Forças Armadas vão expulsar os arrozeiros - como dizem que o senhor disse? Nesse caso, o general Maynard, que está errado, está certo. O senhor, que está certo, é quem está errado.

Os índios Makuxi, Ingaricó, Wapixana e Taurepang estão lutando há 300 anos para manter suas terras. Percorreram todas as instâncias do Poder Judiciário, que levou trinta anos para decidir de forma inapelável. Decidiu. Depois disso, o presidente Lula, submetido a pressões dos mozarildos, levou mais de 800 dias para homologar. Homologou. Passaram-se dois anos e meio e até agora a Polícia Federal não marcou a data da desocupação. O senhor, general Benedito, diz que as Forças Armadas apoiarão a PF, mas lamenta o retrocesso, o que nos leva, no mínimo, a desconfiar de tal decisão.

General Benedito, ajude a tirar os arrozeiros de lá e deixe os índios em paz, protegendo nossas fronteiras, como sempre o fizeram, conservando suas línguas, suas culturas, seus saberes, sua literatura, seus cantos, sua poesia e a biodiversidade, ameaçada pelos arrozeiros, que não estão preocupados com o desenvolvimento do país, mas apenas com os lucros que podem auferir. Eles exterminaram até o joão-de-barba-grisalha, um passarinho inofensivo, que sobrevive escondido nas terras indígenas.

Quem pensa que os índios representam atraso e retrocesso é preconceituoso e desconhece a produção de conhecimentos nesse campo nos últimos cinqüenta anos. Quando a ignorância é de um pé-rapado qualquer, vá lá. Mas torna-se extremamente perigosa, quando é do titular de uma Secretaria responsável pela formulação da política de defesa nacional. Se o que disseram que o senhor disse, general, representar efetivamente o pensamento das Forças Armadas, então os índios estão fritos, o Brasil está condenado a ficar culturalmente mais pobre e adeus sociodiversidade.

Depois de tanto preconceito, um renomado sociólogo concluiu que “uma das conseqüências mais graves do colonialismo foi justamente enterrar ou congelar experiências milenares, ao taxá-las de primitivas, opondo-as à modernidade. Tudo aquilo que não é do âmbito do Ocidente, que não segue o paradigma ocidental é visto como retrocesso. Os costumes e as tradições, embora adequados para a sobrevivência, são descartados como estratégia de futuro, porque são ou estão no passado. Essa é uma noção equivocada em relação aos povos tradicionais e ao seu espaço na história”.

Quem escreveu isso, general, foi um intelectual respeitado, um índio com pós-graduação na Universidade de Maryland (EUA), falecido há quinze dias em Manaus. Seu nome: Jorge Terena. Construtor da ponte entre ciência e conhecimento tradicional, ele tem razão, segundo Darrell Posey, um phd em biologia, que ficou maravilhado com o conhecimento Kayapó acerca de plantas medicinais, astronomia, agricultura, classificação e uso do solo, reciclagem de nutrientes, manejo da pesca e da vida animal, melhoramento genético de plantas, reflorestamento, pesticidas e fertilizantes naturais.

Posey está convencido de que “o conhecimento tradicional oferece algumas das opções mais viáveis e promissoras para uso de recursos sustentáveis nos trópicos. Por isso – diz ele - se o conhecimento indígena for levado a sério pela ciência moderna e incorporado aos programas de pesquisa e desenvolvimento, os índios serão valorizados pelo que são: povos engenhosos, inteligentes e práticos, que sobreviveram com sucesso por milhares de anos na Amazônia. Essa posição cria uma ‘ponte ideológica’ entre culturas, que poderia permitir a participação de povos indígenas, com o respeito e a estima que merecem, na construção de um Brasil moderno”.

Por que não criar essa ponte, general Benedito? Os conhecimentos indígenas podem ajudar nossos filhos a terem uma vida melhor. Pergunte ao antropólogo Roberto Da Mata. Ele lhe dirá que é preciso estudar as sociedades indígenas não apenas para repararmos as injustiças que sofrem, “mas para aprendermos com elas as lições que não sabemos”. Não se trata, portanto, de “uma atitude condescendente superior com uma espécie de humanidade em extinção, liquidada por seu próprio atraso cultural, mas de uma troca igualitária de experiências humanas, baseada no fato de que podemos realmente aprender a nos civilizar com os índios”.

O psicólogo uruguaio Nestor Ganduglia concorda com essa troca de saberes: “Em tempos de crise identitária e da quebra, agora definitiva, da onipotência do conhecimento acadêmico para a solução de problemas sociais básicos, é preciso buscar novas sínteses entre saberes. Não se trata mais de ‘estudar a natureza do homem primitivo’ ou ‘os produtos da ignorância popular’, mas de reconhecer o saber quase clandestinamente oculto nas entrelinhas de nossas narrativas populares, numa postura de abertura para aprender com o outro”.

Se tivesse mais espaço, reproduziria aqui a opinião de dezenas de pesquisadores que criticam essa idéia obscurantista de que os índios representam atraso ou retrocesso. Alguém poderia objetar, com razão, que todas essas coisas já foram ditas e eu respondo, citando André Gide: - “É verdade, mas como ninguém me escuta, é preciso recomeçar tudo de novo e repeti-las infatigavelmente”.

 

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