CRÔNICAS

O ARCO E A FLECHA DA MEMÓRIA

Em: 02 de Dezembro de 2007
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Quem conhece o igarapé Traíra, no rio Madeira, município de Humaitá (AM), fica encantado com suas águas escuras, de um negro retinto, em cujo leito estão submersos segredos e histórias narradas pelos velhos índios. É que o igarapé, situado em território dos Parintintin, testemunhou toda a saga desse povo: a invasão de suas aldeias, o incêndio das malocas, o trabalho forçado, o enfrentamento com seringueiros, as trapaças, as mulheres violadas, o queixume, a resistência, as narrativas, os saberes. Tornou-se, assim, o guardião de uma memória, que foi silenciada.
 
Agora, finalmente, essa memória submersa virá à tona, com ajuda da documentação que a Casa de Cultura Parintintin recebeu do Museu do Índio do Rio de Janeiro. A Casa, construída às margens plácidas do histórico igarapé, será inaugurada hoje, domingo, 2 de dezembro, com brados retumbantes dos índios. O diretor do Museu, José Carlos Levinho, está na área para assinar o Termo de Entrega dos acervos sonoros, visuais e impressos. Aí sim, o Traíra, vai poder falar e contar tim-tim por tim-tim tudo o que viu, vencendo uma batalha na guerra contra o esquecimento.
 
Foi o filósofo francês Giles Deleuze que um dia escreveu – cito de cabeça – algo assim como: “O contrário da memória não é o esquecimento, mas o esquecimento do esquecimento”.  A atual geração Parintintin esqueceu muita coisa – é verdade – mas não esqueceu que esqueceu. Por isso, correu atrás para recuperar a memória ferida. Na semana passada, dois deles, Roque e Valmir, viajaram ao Rio para buscar o material etnográfico. São os primeiros a participar de um ambicioso programa do Museu do Índio de devolver às comunidades indígenas os documentos que lhes interessa.
 
A documentação encontrada por Roque e Valmir, já digitalizada, é constituída por relatórios do SPI desde 1922, por notas do etnólogo alemão Curt Nimuendaju e por farto material coletado por dois antropólogos: José Carlos Levinho, que em 1985 chefiou a equipe de identificação da terra indígena e o pesquisador americano Waud Kracke, da Universidade de Illinois, que estuda esse povo desde 1966, e cujo acervo totaliza 67 horas de gravação, com dados valiosos sobre história, relações de parentesco, rituais, além de mais de mil registros visuais, entre fotografias e desenhos.  
A visita dos dois índios foi documentada pelo amazonense Felipe Martins, que acaba de fazer um curso de videografismo em after effect na PUC/RJ. Ele produziu um vídeo intitulado “O arco da memória”, que mostra as andanças de Roque e Valmir pelos diferentes setores do Museu do Índio. Na Reserva Técnica, os dois encontraram objetos confeccionados por seu povo: faca de madeira, cocar, braçadeiras, colares, arte plumária, trançados e “coisas que não se faz mais”, identificando as matérias primas usadas: paxiubinha, tala de palha, envira, algodão, dente de queixada e outras.
 
No Setor de Audiovisual, Roque e Valmir manusearam fotos da época do SPI e se emocionaram com uma delas: - “Esse daqui é o meu avô, aquela ali é Helena, a irmã do meu pai”, disse um deles, reconhecendo os parentes numa fotografia amarelecida pelo tempo. Na Biblioteca, encontraram livros raros que falam dos antigos Parintintin, e no arquivo tiveram a oportunidade de manipular um leitor de microfilme para acessar os relatórios do SPI.
 
Os velhos estão morrendo e com eles vai embora a nossa memória”, disse Valmir, que é chefe de posto da Funai na Terra Indígena 9 de Janeiro, onde estão localizadas duas aldeias: Traíra, com uma população aproximada de 200 índios, e Pupunha, com 160 pessoas. Por isso, ele bota muita fé na Casa de Cultura, acreditando que seu acervo pode complementar as lacunas deixadas. Diz que guardar o documento, porém, não é suficiente: “Precisamos preparar índios que sejam capazes de trabalhar num banco de dados e saibam usar uma câmera, uma filmadora e as novas tecnologias de registro”.
 
Roque, que é presidente da Associação dos Povos Indígenas Parintintin da Terra Indígena Ipixuna, onde vivem 72 pessoas, concorda com o seu parente. Ele diz que em sua aldeia só cinco pessoas – ele, o pai, e três velhos – falam a língua Kagwahiva, da família Tupi-Guarani. Os demais são monolíngües em português e apenas compreendem, ao contrário das aldeias Traíra e Pupunha, aonde a maioria é bilíngüe. O grande cemitério da língua falada pelos Parintintin é a cidade de Humaitá, onde vivem muitos índios, cuja situação foi estudada entre 1989 e 1991 por Waud Kracke. Esse pesquisador participa hoje da inauguração no Traíra da Casa de Cultura Parintintin.
 
O trabalho de José Levinho e Waud Kracke garantiu aos Parintintin a posse de suas terras ancestrais. Desde então, os índios perceberam o valor documental da memória e da língua para a defesa da terra. Por isso, eles assinam hoje o Termo de Acordo, através do qual o Museu do Índio se compromete a fornecer o que tem, a receber os novos materiais da documentação e a providenciar serviços técnicos necessários para a sua digitalização, oferecendo ainda aos Parintintin assistência técnica para conservar os materiais digitalizados. 
 
Escrito em português e na língua Kagwahiva, o Acordo será publicado no Diário Oficial da União que, pela primeira vez em sua história, imprime um documento em uma língua indígena com esse teor. Ele explicita que o objetivo é “desenvolver trabalho para a constituição de um acervo documental da cultura Parintintin a ser depositado no Museu do Índio, com cópia na Casa de Cultura Parintintin, situada na aldeia Traíra na Terra Indígena 9 de Janeiro”.
 
Com relação à propriedade intelectual, existe uma cláusula que determina que o Museu do Índio e os Parintitin, através da Casa de Cultura, reconhecem que os registros constituem herança cultural da comunidade Parintintin, fornecedora dos materiais arquivados, sendo que o acesso a estes não pode ser motivado por fins comerciais e depende da autorização prévia dada pela comunidade.
 
Os Parintintin, no passado, já somaram mais de 15.000 indivíduos, quando ocupavam um vasto território que se estendia da região leste do rio Madeira até a boca do rio Machado, a leste do rio Maici. Sua população, vítima de constantes violências e de doenças contraídas com o contato, ficou reduzida a pouco mais de 400 pessoas. Muitas delas abandonaram suas aldeias de origem e vivem em Humaitá e Porto Velho, onde trabalham, os homens em obras de infra-estrutura, na construção civil, como cozinheiros, barqueiros ou regatões, e as mulheres como empregadas domésticas. Agora, criaram a Casa da Cultura para preservar a memória.
 
Quem vive e pensa a cultura – diz Aloísio Magalhães – deve operar como quem usa um bodoque, também conhecido como estilingue ou baladeira. Você estica o elástico ou borracha para trás, recuando no passado, e traz de lá a memória, impulsionada com força espetacular em direção ao futuro. Hoje, para retomarem o controle de seu destino, os Parintintin, em vez de estilingue, usam o arco e a flecha da memória. Recuam a corda do arco ao passado, para de lá impulsionar a flecha ao futuro.

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