CRÔNICAS

WAUD KRACKE, UM LEITOR DE SONHOS

Em: 02 de Fevereiro de 2014
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Quem é aquele gringo jovem, louro e de olhos azuis, desengonçado e bonachão, que desembarca no Brasil, em 1966, em plena ditadura militar, com a mala cheia de livros em inglês? O que vem fazer aqui? A Polícia Federal, paranoica, desconfia que se trata de um militante maoista. É que Waud Hocking Kracke nasceu em Pequim, em 1939, diz seu passaporte norte-americano. Muito suspeito. Consultada, a Embaixada dos EUA esclarece: o pai e a mãe dele, americanos, viveram breve temporada na China. Mas o "pequinês" tem ficha limpa. Vem ao Brasil estudar os índios para uma tese de doutorado em antropologia na Universidade de Chicago.
O "maoista subversivo", às gargalhadas, contou essa história ao seu amigo, também antropólogo, José Carlos Levinho, atual diretor do Museu do Índio. Liberado, enfim, pelos meganhas, Kracke se embrenhou na floresta amazônica, na região do rio Madeira, onde conviveu com os Parintintin, cuja língua começou a falar antes mesmo do português. Levinho diz, brincando, que o português dele guardava forte sotaque da língua Kagwahiv, que aprendeu para se comunicar melhor com os índios.
Kracke conviveu com os Parintintin nos igarapés Maici-Mirim, Traíra e Nove de Janeiro no período de abertura da rodovia Transamazônica, quando aldeias foram invadidas e malocas incendiadas. "Aprendi, então, a ministrar remédios e a enterrar os mortos", contou a Levinho, lembrando com tristeza que prestou assistência às vítimas de violências físicas, de malária e de gripe, sem qualquer apoio oficial. "Durante a construção da estrada, não foram poucos os estupros e assassinatos de índios", disse, trazendo informações que interessam à Comissão da Verdade na apuração dos crimes cometidos pela ditadura.
Os Parintitin
Na época, cansado e doente, Waud Kracke mudou para a região do lago Uruapiara, na boca do rio Ipixuna, onde conheceu um casal Parintintin - Caterine e seu esposo Idjé, o Paulino. Ele foi um dos guerreiros que atacou o Posto de Pacificação do SPI, em 1920, e expulsou os seus funcionários da região, na década de 1940. Construiu sólida amizade com o antropólogo, a quem contou um sem número de histórias, os mais ocultos segredos da vida dos Parintintin e até mesmo seus próprios sonhos, em mais de setenta horas de narração em lingua Kagwahiv.
Já com o título de doutor, Waud Kracke continuou vinculado aos Parintintin, a quem visitava com frequência. Realizou pesquisas de campo, participou de eventos e palestras, inventou sempre um motivo para vir periodicamente rever seus amigos índios - lembra Levinho, que o conheceu em 1985 e com ele conviveu, quando ambos foram convidados pela Funai para realizar a identificação da terra indígena Parintintin. Foi quando esteve outra vez com  Idjé, que já estava bem velho.
- Era surpreendente a relação e afinidade que possuía com os Parintintin. Conhecia cada um por seu nome. Impressionava sua intimidade com as velhas lideranças e com a localização das antigas aldeias Kagwahiv, dominava a história das migrações ao longo dos rios e igarapés. Possuía também, profundo conhecimento da mitologia e da organização social - comenta Levinho.
De lá para cá, foi toda uma vida dedicada ao estudo dos Parintintin, com quem esteve pela última vez em 2007, quando fez questão de entregar pessoalmente cópia de toda a documentação que produziu sobre eles: registros fotográficos, sonoros e impressos, tratados, sistematizados e digitalizados pelo Museu do Índio, e que fazem parte, hoje, do acervo do Centro Cultural Borei dos Povos Indigenas do Alto Madeira na aldeia do Traíra, inaugurado com a presença dos dois amigos antropólogos.
Filosofia do sonho
"Foi uma viagem intelectual e sentimental" -  diz Edmundo Peggion no texto "Antropologia, Psicanálise e compromisso: uma homenagem a Waud Kracke", apresentado em 2010, no III Encontro sobre Línguas e Culturas dos Povos Tupi organizado pelo Laboratório de Línguas Indígenas da Universidade de Brasília, quando lembrou a viagem realizada três anos antes:
- Waud Kracke foi recepcionado nos moldes tradicionais Kagwahiv. Cantos, danças e pinturas corporais. Em um determinado momento foram todos levados para o interior da aldeia. Ao adentrar a casa, a dança foi interrompida e de modo cerimonial fizeram uma solicitação a Kracke: que ele permitisse que uma canção pudesse ser usada pelo grupo. Ela havia sido registrada pelo antropólogo nos tempos de sua pesquisa de campo.
Os índios sabiam que a canção não pertencia a Kracke, mas lhe pediram autorização - na interpretação de Peggion- para demonstrar, de forma carinhosa e decisiva, que ele estava inserido na rede de relações, que havia sido incorporado em um sistema. Que ele era para os Parintintin uma conexão entre um passado fundamental e também o anúncio de um novo futuro.
Kracke descobriu que havia toda uma filosofia Parintintin sobre os sonhos. Seus estudos estão na fronteira da antropologia e da psicanálise. Essas eram suas duas paixões e ele formulou questões fundamentais para ambas as disciplinas. Assuntos como liderança, xamanismo e sonhos ganharam em sua etnografia descrições absolutamente consistentes, colocando-o como um dos precursores de tais assuntos - segundo Peggion, que explica:
- A análise dos sonhos dos Parintintin foi fator determinante para sua definição metodológica. Em conversa com eles, Kracke perguntava sobre o que pensavam da vida, ouvia os relatos dos sonhos, as lembranças da infância, intuições... Suas entrevistas, cujo foco era a liderança, estavam entre a perspectiva do etnólogo e do psicanalista - esclarece Peggion para quem foi justamente a teoria dos sonhos dos Parintintin que despertou o interesse de Kracke pelo tema e pela relação do sonho com o Ipajé, que se torna Ipajé antes de nascer e  precisa ser sonhado por outro Ipajé.
Sweet person
Se a Polícia Federal tivesse aprendido a ler sonhos com Kracke, conheceria melhor o comportamento dos índios e talvez outro seria o rumo das investigações sobre o recente desaparecimento de três pessoas dentro da reserva indígena, que levou à prisão, sem provas, de cinco índios da etnia Tenharim, acusados de supostos crimes de sequestros e homicídios.
Waud Kracke, professor da Universidade de Illinois, discutia com seus alunos na disciplina de antropologia cultural a aplicação da teoria analítica para a compreensão da cultura e do comportamento dos líderes. O diálogo entre Antropologia e Psicanálise alimentou os cursos que ministrou até as vésperas de morrer. Ele se vinculou ao Chicago Institute for Psychoanalysis, além de ter participado do grupo lacaniano e do circulo da Escola Freudiana de Quebec, depois dos estudos realizados no Harvard College e do doutorado na Universidade de Chicago.
Waud H. Kracke morreu aos 74 anos, no dia 31 de dezembro de 2013, vítima de um câncer fulminante no pâncreas, cercado de familiares e amigos mais próximos, conforme obituário do Hyde Park Herald (22/01/14). Era casado com a brasileira Lúcia Vilella e tinha um filho, Peter, do seu primeiro casamento. Sua generosidade, desprendimento e candura chamaram a atenção dos que com ele conviveram, como Levinho e Peggion, mas também de seus alunos e amigos. Jay Mulberry, amigo de infância, escreveu: "he was as sweet and gentle a person as I have ever known".
Dias antes de morrer, escolheu o Museu do Índio do Rio de Janeiro para doar todo seu acervo pessoal e não o Museu Field de História Natural de Chicago ou a Universidade de Illinois. É que aqui o acervo fica mais acessível aos índios.
- A coisa mais importante em toda minha vida foi conhecer vocês, conviver com vocês - falou Waud Kracke aos Parintintin, no discurso que fez em língua Kagwahiv, na cerimônia realizada em 2007 na aldeia do Traíra. Na ocasião, manifestou alegria "por ter colaborado na proteção do que sobrou do território tradicional", destacando o compromisso com os Parintintin,  com sua língua e sua luta.
Registramos aqui no Diário do Amazonas a passagem pelo planeta desse gringo doce, sonhador, sorriso de menino, que amou a vida, os Parintintin e a Amazônia e a quem o Brasil e as ciências sociais tanto devem.
Algumas publicações de autoria de Waud Kracke:
2001 - Kagwahiv Mourning: Dreams of a Bereaved Father. In Dreams: A Reader on Religious, Cultural, and Psychological Dimensions of Dreaming. Kelly Bulkeley, ed. New York: Palgrave.
1999 - Interdisciplinary studies - A language of dreaming: Dreams of an Amazonian Insomniac. In The International Journal of Psycho-analysis 80(2): 257-275.
1997 - Dreams, Ghosts, Tales: Parintintin Imagination. In The Psychoanalytic Review 84(2): 273-281.
1996 - (With Janet Chernala) The Wanano Indians of the Brazilian Amazon: A Sense of Space. American Anthropologist 98(2): 461.
1992 - “He who dreams: the nocturnal source of healing power in kagwahiv shamanism”. In: LANGDON, J. e BAER, G. Portals of power: shamanism in South America. Albuquerque : University of New Mexico Press,  pp. 127-148.
1990 -  El sueño como vehículo del poder shamánico : interpretaciones culturales y significados personales de los sueños entre los Parintintin. In: PERRIN, Michel (Coord.). Antropología y experiencias del sueño. Quito : Abya-Yala ; Roma : MLAL,  p. 145-58. (Colección 500 Años, 21)
1984-  “Kagwahiv moieties: form without function?”. In: KENSINGER, Ken (ed.). Marriage patterns in Lowland South America. Urbana : University of Illinois Press, pp. 99-124.
1978 - Force and Persuasion: Leadership in an Amazonian Society. Chicago: University of Chicago Press. 340 p.

 

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22 Comentário(s)

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15/03/2014
Muito boa mesmo. Ainda bem que pessoas de outros países, ditos primeiro mundo , que se preocupam com nosso maior patrimonio cultural. Esta preocupação deveria ser de todos nós brasileiros, principalmente nós amazonidas.Ainda bem que temos, para nosso orgulho de amazonense, o Prof. JOSE RIBAMAR BESSA FREIRE, que empunha esta bandeira. Contato de Iran Vieira de Carvalho
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Maria Lúcia de Macedo Cardoso comentou:
24/02/2014
Lindo texto, belíssima homenagem ao doce Waud; nos leva a reviver a convivência com esse sonhador. Está agora diluído na paz e certamente povoará os sonhos dos Parintintim. Que a antropologia brasileira se nutra de sua sensibilidade.
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Ana Carla Bruno comentou:
04/02/2014
Em tempos sombrios que somos (antropólogos) acusados pelos ruralistas como "Ïdeologicamente Cegos"...este texto demonstra uma perspectiva e compreensão profunda de um grupo...
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Manuela Carneiro da Cunha comentou:
04/02/2014
É isso memo: a doçura e gentileza de Waud, sua fidelidade aos índios com quem viveu são coisas que merecem ser ditas. Obrigada, Bessa, por dizê-las. Manuela
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Manuela Carneiro da Cunha comentou:
04/02/2014
É isso memo: a doçura e gentileza de Waud, sua fidelidade aos índios com quem viveu são coisas que merecem ser ditas. Obrigada, Bessa, por dizê-las. Manuela
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Agripa Faria Alexandre comentou:
04/02/2014
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Idelber comentou:
03/02/2014
Um texto comovente de José Bessa sobre Waud Kracke e os Parintintin:
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Susana Grillo comentou:
03/02/2014
Bessa, um belo texto sobre um dos pouco e importantes amigos dos Parintintim que estão tão vulneráveis. Abraços
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03/02/2014
Os parintin e a amazonia ja estão com muita saudade amigo. Deixaste as saudades para todos nos. Contato de Roberto F. Dávalos
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Luelena Cunha (via FB) comentou:
03/02/2014
Narrativa maravilhosa - terna e doce.
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Ana Stanislaw comentou:
02/02/2014
Linda história de amizade que nos encanta e emociona. Belo texto Bessa!
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José Varella (via FB) comentou:
02/02/2014
Professor José Bessa suas crônicas semanais são alento para a periclitante cultura brasileira de raiz indígena, donde a amazonidade resiste e bebe da seiva nativa. Dentre todas, a crônica em tela, especialmente, me remete ao trabalho do historiador Ronaldo Vainfas em "A heresia dos índios". Quando este reporta sentença de um índio sob processo da Inquisição do Santo Ofício na Bahia, dizendo ao visitador Heitor Furtado: "Deus criou o homem para dormir e sonhar"... Daquela maneira o índio tupinambá tentava justificar a religião de sua nação (penso em Florestan Fernandes) aos olhos do colonizador. O sonho do índio, sem dúvida, era a utopia da yby marãey (terra sem males). Causa da diabolização do espírito Jurupari pelos frades da "France Equinocialle" (Freud explica...). Compartilho deste sonho em dois modestos ensaios, onde a utopia dos tupinambás habita o Maranhão e Grão-Pará "avant la lettre" no rumo do Araquiçaua ("lugar onde o sol ata a rede", o poente)... A região do Salgado e a ilha do Marajó, no passado pré-colonial, estabeleceram uma dialética que está longe de se consumar... E hoje o petróleo que virá do mar do Pará, dizem que em breve, dará frutos na educação e cultura. Sonho eu que os sonhos dos índios e dos amigos dos índios ainda podem se concretizar, contanto que intelectuais como o senhor se encontrem mais perto da gente simples do povo, além dos circulos acadêmicos
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Alex Noronha comentou:
02/02/2014
Uma bela homenagem a um ser humano com essência verdadeiramente humana. Tive o prazer de conviver um pouco com o Waud Cracke durante a "doação" do seu acervo aos Parintintim em 2007. Acho que os Parintintim também tenham um grande sentimento de perda nesse momento. Acho que a melhor homenagem que podemos prestar ao Cracke é divulgar a beleza das culturas indígenas nesses momentos de frontal ataque aos seus direitos fundamentais, prioritariamente em Humaitá. Contato de Alex Noronha
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HEBER comentou:
02/02/2014
Um grande craque da antropologia.
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Alceu Castilho (via FB) comentou:
02/02/2014
li agora o artigo do Bessa. Que toca em ponto fundamental: o entendimento da cultura como pista (ou não) para determinada investigação. Nesse sentido, pergunto: por que o Edmundo Peggion não é mais ouvido? Ele me disse, categoricamente, que, pelo que conhece dos Tenharim, eles contariam, se tivessem matado alguém.
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Epaminondas Barba (via FB) comentou:
02/02/2014
Me admiro quando vejo pessoas tecendo comentários a respeito do acontecido em Humaitá, tomando partido, sem sequer tomar o cuidado de conhecer a situação de perto, respeito sua opinião, afinal todos tem uma, no entanto não chegou em nenhum momento próximo a realidade. Sr. Alceu Castilho, não lhe conheço, mas gostaria de um dia ouvir sua verdadeira opinião a respeito dos indígenas acima citados, pois essa é muito genérica... e é total mente equivocada
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Tania Pacheco comentou:
02/02/2014
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Ednez comentou:
01/02/2014
Quem dera todos os antropólogos atuais tivessem tamanho desprendimento em conhecer a cultura sobre a qual escrevem. Quem dera pretendessem, ao menos, relativizar qualquer compreensão delas e sobre elas. A maioria dos trabalhos "antropológicos" se baseiam em citações e revisões bibliográficas de diversos autores, através dos quais buscam "compreender" as culturas que esporadicamente e superficialmente frequentam. Lindo exemplo o do Kracke.
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Peter Schröder comentou:
03/02/2014
Concordo apenas em parte, porque ainda existem antropólogos que fazem pesquisas de campo dedicadas e publicam etnografias detalhadas. Mas, de fato, hoje em dia torna-se cada vez mais difícil ainda encontrar biografias acadêmicas como aquela de Waud Kracke, que dedicou sua vida à compreensão profunda de uma única cultura.
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Jose Varella comentou:
01/02/2014
"mestre José Bessa, como diria a madre superiora: "puta merda"!...
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Rosemere Pires Dos Santos comentou:
01/02/2014
Modificando velhos paradigmas a fim de compreender as culturas indígenas..
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